sábado, 08 de maio de 2021

Saúde
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Mortes por câncer de pulmão crescem 85% em 10 anos

Lucilene Meireles / 28 de maio de 2018
Um estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos, publicado este mês, aponta que o consumo do tabaco está associado a 30% das mortes por câncer e mais de 90% delas são de pulmão. Na Paraíba, nos últimos dez anos, o número de óbitos pela neoplasia deu um salto vertiginoso - 85% -, de acordo com dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), uma notícia preocupante às vésperas do Dia Mundial sem Tabaco (31 de maio). Nos quatro primeiros meses de 2018, a doença já causou 64 mortes no estado.

O motorista Júlio Menezes, 36, sabe que sua saúde está em risco por causa do tabaco e que está na lista dos que podem desenvolver um câncer. Ele começou a fumar por curiosidade, aos 17 anos, nas festas com amigos e, apesar dos cerca de 12 por dia, não se considera dependente.

“Quando estou em locais onde não pode fumar, não fumo. Fico vários dias sem cigarro e não tenho problemas como ficar nervoso ou impaciente. Sinto falta no começo. Depois passa. Mas, tenho consciência dos riscos. Quando faço esforço, por exemplo, já sinto falta de ar. Para piorar, estou acima do peso e não pratico nenhuma atividade física. Está chegando a hora de parar”, constatou.

A pneumologista Alenita de Oliveira explicou que um dos motivos do aumento das mortes é a janela do tabagismo. Segundo ela, 20 anos depois que uma pessoa começa a fumar é o prazo para começar a correr esse risco. “Quem está morrendo de câncer hoje é a população entre 60, 70 anos e a maioria dos óbitos estão relacionados a esta janela. Provavelmente, só vamos ter o reflexo de quem começa agora daqui a duas décadas”, observou.

Além disso, a médica afirmou que têm aumentado os casos de câncer de pulmão em mulheres. Para ela, é necessário investir em diagnóstico para câncer. “Se essa população não parar de fumar, temos que investir em rastreamento para câncer de pulmão. A tomografia com baixa radiação consegue aumentar o diagnóstico. Do ponto de vista de medida efetiva, é preciso investir na prevenção do tabagismo”, disse.

Outros riscos

Os fumantes têm até 20 vezes mais chances de ter câncer de pulmão do que os não fumantes. O alerta é do oncologista Elias Cosmo de Araújo Júnior, do Instituto de Hematologia e Oncologia (IHOC)/Grupo Oncoclínicas, que fica em Curitiba (PR).

Ele alertou que os produtos à base de tabaco possuem substâncias cancerígenas, entre elas, arsênio, níquel, benzopireno, cádmio, chumbo, resíduos de agrotóxicos e substâncias radioativas.

“Essas substâncias causam danos irreversíveis ao DNA das células do organismo, alterações que levam ao crescimento descontrolado dessas células, formando tumores malignos que podem se espalhar para todas as regiões do corpo”, explicou o oncologista do Instituto de Hematologia e Oncologia (IHOC)/Grupo Oncoclínicas, Cosmo de Araújo Júnior.

3.404: É o número de óbitos por câncer de brônquios e pulmão, na Paraíba, entre 2008 a 2017.

Óbitos por câncer de brônquios e pulmões – Paraíba – 10 anos

233 - 2008

257 - 2009

283 - 2010

281 - 2011

337 - 2012

359 - 2013

391 - 2014

426 - 2015

406 - 2016

431 - 2017

Fonte: Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM).

465.826: É o número estimado de fumantes na Paraíba, em 2018, segundo o Ministério da Saúde.

Riscos para quem fuma

- 10 vezes mais chances de ter câncer de laringe;

- 2 a 5 vezes mais chances de desenvolver câncer de esôfago;

- Câncer na boca, pâncreas, rim, bexiga, colo de útero, estômago e fígado em fumantes são comuns;

- 43 das 4.720 substâncias tóxicas no cigarro são cancerígenas.

Fonte: Elias Cosmo de Araújo Júnior, oncologista do Instituto de Hematologia e Oncologia (IHOC)/Grupo Oncoclínicas.

“O tabagismo é visto como uma epidemia global, responsável por milhões de mortes por doenças cardiovasculares, respiratórias e  câncer. Devemos aproveitar o Dia Mundial sem Tabaco para refletir sobre os efeitos danosos do tabaco, ressaltando que é a principal causa de câncer que podemos evitar”. Elias Cosmo de Araújo Júnior, oncologista do Instituto de Hematologia e Oncologia (IHOC)/Grupo Oncoclínicas.


Tratamento

O motorista Júlio Menezes não tem plano de saúde e ainda não procurou tratamento no serviço público. “Sei que há tratamento específico, mas tem gente demais na USF. Às 8h ainda tem gente esperando para entrar. Quem trabalha durante a semana tem que faltar ao trabalho. Se ampliasse o acesso e houvesse menos burocracia, mais gente procuraria”, opinou.

João Pessoa conta com nove locais de atendimento e esse número está sendo ampliado. De acordo com a coordenadora do Programa de Tabagismo da Secretaria Municipal de Saúde de João Pessoa (SMS), Niviane Ribeiro, a procura é grande e a demanda é espontânea. Nesses locais, há uma equipe multiprofissional com médicos, psicólogos, enfermeiros assistente social e nutricionista. São abertos grupos a cada três meses.

“É feita uma anamnese clínica e o paciente é encaminhado para o pneumologista ou clínico capacitado que faz espirometria e raio X do pulmão. Em seguida, as sessões estruturadas do programa, que dura um ano”. Além dos encontros em grupos, o tratamento inclui goma de mascar, adesivos e, para alguns casos, medicação controlada. Também são oferecidas práticas integrativas e complementares como auriculoterapia, ioga e relaxamento.

Em João Pessoa, houve redução de fumantes entre os pacientes que já passaram pelo serviço. “Se o número de mortes ainda está alto, está faltando algo ainda. A gente sabe que precisa realmente focar. O Estado faz sua parte, mas há também a questão dos profissionais de alguns serviços que não têm perfil para lidar com tabagismo. Além disso, tem que contar com uma equipe multiprofissional”, analisou.

39%: É o percentual de pacientes que pararam de fumar depois de realizar o tratamento no Programa de Tabagismo da SMS. De 2006 a 2017, foram realizados 2.977 atendimentos. Desses, 1.166 abandonaram o cigarro.

Atendimento em João Pessoa

- Cais do Cristo;

- Cais de Mangabeira (em reforma no momento)

- Cais de Jaguaribe;

- UBS de Mandacaru;

- Centro de Atenção Psicossocial CAPS AD III - David Capistrano (Rangel);

- Centro de Atenção Psicossocial CAPS AD III (Estadual) Jovem Cidadão (transtornos/tratamentos psiquiátricos);

- Unidade Integrada Colinas do Sul;

- Unidade Integrada do Alto do Mateus;

USF Bessa.

SES qualifica profissionais

O Núcleo de Doenças e Agravos Não Transmissíveis (Ndants), da Secretaria de Estado da Saúde/SES-PB, qualifica os profissionais da saúde que conduzem o Programa Nacional do Tabagismo nos municípios, monitora o programa e repassa os medicamentos disponibilizados pelo Ministério da Saúde.

Os serviços são ofertados pelos municípios, que definem onde querem implantar o tratamento do tabagismo, dias e horários de atendimento aos grupos. Este mês, foram qualificados profissionais de 70 municípios paraibanos inseridos no Programa Nacional de Controle do Tabagismo.

Programação

Para o Dia Mundial sem Tabaco, a SES, em parceria com o Comitê do Tabagismo da Associação Médica da Paraíba, vai realizar uma formação para professores da rede pública estadual e municipal de João Pessoa, com o tema ‘Apresentando o tabagismo aos jovens como forma de prevenção’. O evento acontece no dia 29, às 13h30, no auditório do Conselho Regional de Medicina – CRM, e tem como  objetivo sensibilizar os professores no combate ao tabagismo.

A SMS, por sua vez, realiza, na próxima terça (29), capacitação para 200 profissionais da educação com palestra sobre tabagismo. A ideia também é trabalhar com crianças e adolescentes para mostrar os riscos do tabagismo e evitar o contato com o cigarro.

Benefícios ao parar de fumar

Após 20 minutos, a pressão e a pulsação já normalizam;

Após 2 horas, já não há mais nicotina circulando no sangue;

Entre 12 e 24 horas, os pulmões já funcionam melhor;

Após 48 horas, o olfato e o paladar melhoram;

Após 1 ano, o risco de infarto reduz pela metade;

Entre 5 e 10 anos, o risco de sofrer infarto será igual ao de uma pessoa que nunca fumou.

Fonte: Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).

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