sexta, 04 de dezembro de 2020

Saúde
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Morte na fila do transplante: Paraibanos se inscrevem em listas de outros Estados

Bruna Vieira / 05 de agosto de 2016
Foto: Nalva Figueiredo
E a demora tem levado muitas delas a se inscreverem em outros estados. Para córnea, o paciente espera em média seis meses. Para rins, o sofrimento da hemodiálise pode durar anos, já que é necessário um doador com histocompatibilidade (semelhança genética com o receptor). A doação nem sempre é a luz no fim do túnel. Alguns pacientes perdem o novo rim e voltam ao ponto zero para aguardar um novo.

Segundo a diretora da Central de Transplantes da Paraíba, Gyanna Montenegro, não há como informar quanto tempo um paciente consegue esperar pelo transplante, mas, que todos são graves.

“Os que encontram-se na fila estão em estágio avançado de suas patologias, o que justifica a inscrição. A lista é estadual, mas, quando não há receptor compatível, o Sistema Nacional de Transplante identifica alguém compatível no Estado mais próximo. Entretanto, pessoas de outros Estados podem se inscrever na Paraíba, se comprovarem residência. Quando o paciente optar por fazer o transplante em outro Estado mesmo que no seu estado exista este tipo de transplante, não terá direito a utilizar o TFD (Tratamento Fora do Domicílio, ajuda de custo)”, explicou.

Uma segunda chance. Isabel Cosmo da Silva fez hemodiálise por 16 anos. As marcas da máquina permanecem em seus braços. Foi chamada quatro vezes, mas, alguma pendência ou outra colega mais grave adiavam a cirurgia. Ela já não tinha mais acesso nas veias quando conseguiu finalmente o transplante, em 2013. Só durou 15 dias, deu trombose na artéria. “O médico não sabia que precisaria de um anticoagulante. Mas, a luta não chegou ao fim e uma nova chance foi dada a ela em Recife, há cinco meses.

Cansados de esperar. O presidente da Associação dos Pacientes Renais da Paraíba, Carlos Alberto Lucas, informou que há 2.500 pacientes renais em todo o Estado. “Até junho só tinham ocorrido 16 transplantes, nenhum por captação de órgão. Só teve um no Trauma de Campina Grande. A Saúde não sabe explicar e o Ministério Público é pouco atuante. Os pacientes vão buscando ajuda de políticos para se transplantar em outros Estados, não vão esperar a morte chegar. Chegou ao meu conhecimento que sum aparelho do Hospital de Trauma de João Pessoa que auxilia os médicos na conclusão do parecer da morte encefálica dos pacientes está sem funcionar. Daí nenhum médico vai se comprometer, e com toda razão, em confirmar a morte de ninguém. Resultado: não tem captação e não tem transplante”, afirmou.

Perdeu o rim. Francisco Pereira de Alcântara, 40, foi transplantado em 2008, mas seis anos depois, após uma troca de medicação, perdeu o novo rim e voltou à fila de espera.

“A secretaria trocou o fornecedor do remédio e deu rejeição. A biópsia afirmou. Há dois anos, espero por outro rim e está cada dia mais difícil. Transferi para Recife, que é mais longe e ainda dependo de transporte público. Três vezes por semana, faço sessão de hemodiálise que dura quatro horas. Começou com cansaço, pressão alta... o rins estava sem função. Trabalhava como porteiro e hoje estou aposentado. Tenho esperança. Vou batalhando devagarzinho. Tenho 11 irmãos, mas, nenhum se propôs a doar. O mais difícil é querer fazer algum serviço e não poder. Fico fraco, dependendo dos outros”, desabafou.

Gesto de 'herói' incentiva doação

Durante o ano passado, 142 pessoas, detectadas com morte encefálica, foram notificadas como potenciais doadores no Estado, mas somente sete tiveram algum órgão ou tecido doado neste período. A alta taxa de recusa familiar (62%) tornou-se motivo de preocupação. Com objetivo de conscientizar a população sobre a importância da doação de órgãos e, principalmente, colocar esse tema em pauta nas discussões familiares para reduzir a taxa de recusa, o Ministério da Saúde, em parceria com a Fundação Faculdade de Medicina da USP, realiza o Projeto ‘Gesto de Herói – o poder de doar vida’.

O médico Leonardo Borges de Barros e Silva e o enfermeiro Edvaldo Leal de Moraes, coordenadores da Organização de Procura de Órgãos do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), informam que os motivos para a recusa da doação pela família são diversos: desde crenças religiosas que impedem a realização do transplante até o desconhecimento e não aceitação da morte encefálica, o que faz muitos familiares acreditarem que a condição do ente querido com o corpo quente e o coração batendo seja um indicativo de que ele sobreviverá.

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