terça, 24 de novembro de 2020

Saúde
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Médicos da Fundação Assistencial da Paraíba entram em greve

Wênia Bandeira / 03 de julho de 2019
Foto: CHICO MARTINS
“Com a saúde pouca, o salário pouco, a gente vai ter que se virar. A gente só não vai roubar, mas de resto a gente vai ter que fazer”. A declaração é da aposentada Maria José da Silva Santos, 80 anos, que está iniciando o tratamento contra um câncer de mama e está com cirurgia marcada para o próximo dia 22, mas já não sabe se esta vai acontecer. Os 13 médicos cirurgiões do Hospital da Fundação Assistencial da Paraíba (FAP) paralisaram as atividades na segunda-feira e não tem data para retomar os trabalhos.

A paciente falou que para realizar os exames de diagnóstico da doença e pré-operatórios contou com a ajuda da Organização Não-Governamental (ONG) Mulheres de Peito. Entre camisas, imãs, chaveiros e bolsas, ela vendeu uma série de produtos e teve um desconto no valor final cobrado.

“Eu já estou preocupada porque eu não tenho dinheiro para pagar a cirurgia particular. Mas se a gente vê que vai demorar, não vai morrer, não é? A gente deixa a feira de lado, pede um dinheiro emprestado e vê como faz para pagar depois. Para fazer os exames, eu vendi muitas camisetas e agora é vender umas mil camisetas para dar conta”, lamentou Maria José.

Um dos médicos em greve, que preferiu não ter o nome divulgado, falou que chegou a receber R$ 10 por uma cirurgia realizada. Os valores são contrastantes, segundo ele, com a tabela do Sistema Único de Saúde (SUS).

“O paciente vem, pede a cirurgia, a gente coloca os códigos que correspondem, acontece a auditoria, a gente executa as cirurgias, e depois tem nova auditoria. Mas estavam havendo trocas de códigos para diminuir valor gasto pela secretaria municipal de saúde. A maioria das cirurgias, a prefeitura pagou R$ 32, quando devia ter pago perto de R$ 1 mil”, afirmou o médico.

Segundo o cirurgião, não é permitido efetuar a troca de códigos sem comunicação. O problema estaria acontecendo desde 2017, mas os profissionais não perceberam a diferença nos valores.

“A auditoria até pode trocar o código, mas precisa ser de acordo com discussão com médico assistente. Este ato fere a ética médica e a resolução 1614, artigo 6 e 8 do CRM (Conselho Regional de Medicina) que veda ao médico auditor modificar no pós-operatório sem concordância do médico assistente. A gente nunca está preocupado com isso, a gente se preocupa em fazer o trabalho”, declarou.

Ele falou que um dos médicos notou a diferença e comunicou aos colegas. Em seguida, todos perceberam a diferença em seus documentos. São médicos mastologistas, cirurgiões de cabeça e pescoço, cirurgiões torácicos, entre outros. Os grevistas pedem apuração dos fatos e afastamento dos responsáveis pelas auditorias. Além disso, eles estão pedindo a regularização no pagamento de suas remunerações, que estariam atrasados há cinco meses.

Nesta quinta-feira (4), o CRM vai realizar uma audiência na primeira delegacia do Conselho em Campina Grande. O objetivo, de acordo com o primeiro vice-presidente do CRM, Antonio Henriques, é tentar uma conciliação.

Saúde vai apurar

Por meio de nota, a Secretaria Municipal de Saúde informou que recebeu com surpresa a denúncia dos médicos da FAP. “A Secretaria de Saúde vai solicitar, de imediato, que sejam apresentadas todas as AIHs (Autorização de Internação Hospitalar) que contenham irregularidades para devida averiguação”, diz a nota.

A secretaria ainda disse que vai solicitar também a presença de um auditor do Departamento Nacional de Auditoria do SUS para que seja feita uma auditoria conjunta em todas as AIHs que os médicos apresentarem para verificar qualquer tipo inconsistência.

A assessoria de imprensa da FAP falou que o presidente, Derlópidas Neves, não falará sobre o assunto após ter acesso aos documentos da denúncia. O jornal CORREIO solicitou dados de atendimento ao hospital, mas até o fechamento desta reportagem as informações não haviam sido concedidas.

 

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