quarta, 19 de dezembro de 2018
Saúde
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Falta medicamento de trombofilia para grávidas em JP

Lucilene Meireles / 26 de julho de 2018
Foto: Nalva Figueiredo
Quem sofre de trombofilia e precisa das injeções de enoxaparina sódica, mais conhecida como Clexane, está sofrendo pela falta do medicamento na rede pública. A denúncia foi feita por uma gestante de João Pessoa. Ela afirmou que o desabastecimento teve início no mês de abril.

“Está faltando injeção de Clexane no ambulatório da Maternidade Cândida Vargas, em João Pessoa. A grávida trombofílica tem que tomar uma injeção todos os dias da gestação e pelo menos um mês após o parto também. Chegamos a julho e nada”, lamentou.

A falta da medicação pode causar aborto e levar ao óbito fetal e materno. A previsão da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) é que a situação seja regularizada no próximo mês.

A paciente preferiu ficar no anonimato para não prejudicar um parente que trabalha na Prefeitura Municipal de João Pessoa (PMJP), mas lembrou que se trata de um remédio de alto custo e nem sempre os pacientes têm condições de comprar. “Uma caixa com duas injeções chega a ser vendida a mais de R$ 90 nas farmácias”, disse. Ela acrescentou que, além das grávidas, outras pessoas que têm trombofilia e necessitam fazer cirurgia também precisam da medicação.

O militar Erivandro Lopes do Nascimento relatou que a falta do Clexane não é de hoje. Em março de 2017, quando sua esposa estava grávida, eles precisaram recorrer às redes sociais por não terem condições de comprar a medicação. “Fui até a Secretaria de Saúde de João Pessoa e uma coordenadora me deu seis unidades. Eu questionei por qual razão não tinha me dado antes, e ela disse que havia algumas para emergências, casos extremos, mas foi preciso eu fazer um barraco”, contou.

Secretaria explica desabastecimento

A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) esclareceu, através de nota, que o desabastecimento do medicamento Clexane ocorreu devido ao aumento da demanda global, ocasionando restrições na quantidade importada e consequente oscilação na disponibilidade do produto no mercado, por parte da fabricante. O laboratório Sanofi, produtor do Clexane®, informou à SMS que a regularização do fornecimento está previsto para o mês de agosto.

O item faz parte do elenco da Gemaf, de forma complementar a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Rename)e Relação Municipal de Medicamentos Essenciais (Remume) para atender as demandas de uso exclusivo da rede hospitalar e as gestantes de alto risco, regulada por meio de abertura de processo administrativo às usuárias cadastradas na SMS.

Ainda segundo a nota, o desabastecimento no mercado é nacional, atingindo João Pessoa. Para minimizar os prejuízos, a SMS sugere às usuárias do medicamento que procurem seus médicos para orientações sobre o tratamento e possibilidade de uso de outros medicamentos, já que existem alternativas terapêuticas para tratar casos de trombofilia e assim que a situação da matéria-prima do medicamento for normalizada e o reabastecimento do medicamento acontecer, a Secretaria voltará a disponibilizar o Clexane às suas usuárias.

O Ministério da Saúde informou que o remédio é importado e ainda não faz parte da Rename.

ICV recebeu remédio na sexta

A diretora multiprofissional da unidade, Terezinha de Lisieux Pires de Andrade confirmou que houve falta da medicação. Ela lembrou, porém, que o serviço de distribuição do Clexane não é atribuição do ICV. Lá é feita apenas a logística.

“Falta sim (a medicação). A própria Gemaf teve dificuldade na acessibilidade para aquisição, porque houve uma falta em nível nacional, consequência de um problema com a empresa que fabrica, mas dia 20 chegou. Desde sexta-feira estamos em dia com a distribuição de 40 mg e 60 mg. Essa medicação falta, chega, porque não temos um estoque. Só recebo a partir dos processos. É como se a medicação viesse marcada para cada pessoa”, declarou

A medicação é considerada administrativa, porque é de alto custo. “O médico dá o diagnóstico à gestante e entramos com um processo para fazer o pedido individual de cada paciente ao Sistema Único de Saúde (SUS). A paciente dá entrada num processo administrativo na prefeitura de sua cidade e corre o processo. Quando a Gemaf (Gerência de Medicamentos e Assistência Farmacêutica), que é do município de João Pessoa, autoriza o processo das gestantes, vem para o Instituto Cândida Vargas (ICV) junto com a medicação. Cada paciente segue o protocolo do hematologista”, explicou.

A diretora garantiu que poucos casos chegam ao ICV e, quando chegam, há sempre uma alernativa. “Para a rede hospitalar interna existem outras veias de prescrições. Tem outras linhas seguidas pelos hematologistas, que substituem e vão resolvendo o problema delas, mas para distribuição é via Gemaf e não é de farmácia básica”.

Terezinha de Andrade afirmou ainda que a Gemaf está fazendo uma logística de organização e muitas medicações administrativas terão uma central de distribuição.

Cautela ao substituir medicação

Medicações como Xarelto, Aspirina e Varfarina não são indicadas para substituir o Clexane durante a gravidez. De acordo com a hematologista Joacilda Nunes, quando a paciente tem diagnóstico de trombofilia, que pode ser adquirira ou genética, tem maior risco de formar trombos e, na gravidez, a produção de estrogênio na placenta aumenta a chance de ter um trombo.

Além disso, se for a gravidez mais uma predisposição, tem que fazer a profilaxia durante os 280 dias de gestação e após o parto. “O que substitui é uma heparina de baixo peso molecular, a Enoxaparina e Dimeparina, mas não dá para substituir por esses outros medicamentos porque atravessam a placenta e causam dano”, alertou.

A hematologista explicou ainda que o Xarelto é um inibidor oral do fator 10, porém é contraindicado na gravidez, já que não há nenhum estudo para uso em gestantes. Por outro lado, a Heparina não chega ao ambiente do feto. “Em resumo, o que substitui uma heparina de baixo peso é outra de baixo peso, como a Enoxaparina, Clexane, Versa e a Dimeparina”, informou.

 

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