quinta, 19 de outubro de 2017
Saúde
Compartilhar:

Mais uma doença do Aedes e a lista não para de crescer

Fernanda Figueirêdo / 01 de abril de 2016
Foto: Chico Martins
Microcefalia fetal, problemas neurológicos diversos... os sintomas provenientes do zika vírus não param de surgir. Em Campina Grande, pesquisadores investigam o comprometimento também do sistema urinário associado à doença. Na maternidade Instituto Elpídio de Almeida (Isea), três gestantes deram entrada entre janeiro e março com esses sintomas e foram direto para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI). De acordo com a análise clínica, elas estavam com o vírus e, possivelmente, em decorrência disso, tiveram infecção urinária.

O ginecologista e diretor do Isea, Antônio Henriques, informou que as pacientes se recuperaram e já tiveram alta, embora os bebês apresentem suspeita de microcefalia. “Eram infecções urinárias que precisaram ser tratadas na UTI. Detectamos na ultrassonografia a possibilidade dos bebês terem microcefalia. As mães fizeram exames para diagnosticar o zika vírus. Os resultados devem chegar nos próximos 20 dias”, disse.

Em congresso médico realizado ontem pelo Instituto de Pesquisas Professor Joaquim Amorim Neto (Ipesq) e a Unifacisa, em Campina Grande, a pesquisadora Adriana Melo considerou que este pode ser um novo quadro da doença. “As gestantes que deram entrada na maternidade Isea apresentavam queixas similares à infecção urinária e problemas neurológicos como desorientação. Foram feitos exames como tomografia que descartaram riscos de AVC. Estamos investigando os sintomas, já que elas apresentavam quando semelhante ao do Zika vírus. Pode ser um novo problema no meio de tantos”, disse Adriana Melo, médica que descobriu a microcefalia associada ao Zika.

Na ocasião, Adriana considerou o surgimento de outros sintomas associados às doenças provocadas pelo mosquito Aedes aegipty. Ela ressaltou ainda que a sorologia para as doenças no Brasil não funcionam de forma adequada, o que compromete resultados, pesquisas e novas descobertas.

“A sorologia funciona muito bem em outros países onde só circula um vírus. Aqui nós temos três: a dengue, a chukungunya e a zika,que são similares. Então podemos ter reações cruzadas e os resultados serem falseados. A gente pode fazer exame em um paciente que teve dengue, mas que agora apresenta zika e dar uma reação cruzada apontando dengue novamente, não dá pra confiar. E não é falta de pesquisa, são doenças novas e graves”, explicou Adriana.

Outro problema apontado por ela foi a falta de incentivo do poder público para sanar o problema, seja através do incentivo à pesquisa, preocupação com o saneamento básico ou mesmo através da conscientização efetiva da população. “Em qualquer país mais sério eu estaria recebendo uma bolsa para me dedicar só ao estudo dessa doença. Aqui no Brasil eu tenho que me dividir para também dar conta do meu consultório, porque preciso pagar minhas contas”, contestou a médica.

Gêmeos com a doença

A médica Adriana Melo afirmou que a novidade no Estado, além dos constantes casos de microcefalia fetal que surgem diariamente, é uma gestação de gêmeos que apresentam a doença. “Com as análises que fizemos até agora, detectamos que os dois bebês estão com o cérebro comprometido. Os dois sobreviverão, e a família é extremamente pobre. Como será cuidar de dois filhos que dependerão da mãe pra tudo?”, disse.

Adriana afirmou ainda que outro sintoma observado em algumas das grávidas de microcéfalos é o aumento do líquido anminiótico, situação que, na hora do parto, pode levar à hemorragia e até à morte. “Então é preciso que propiciemos uma melhor assistência a essas mães também em municípios vizinhos, criando micro polos de atendimento. Existem mães atendidas em Campina Grande que se deslocam até 300 km semanalmente. Imagine um caso de um parto como esse em um município pequeno, sem acompanhamento”.

Ochefe do Laboratório de Virologia Molecular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), AmilcarTanuri, afirmou que sua equipe está pesquisando quando que o vírus entra no cérebro da criança, como que ele entra, e se os anticorpos da mãe o protegem. A pesquisa mais aguardada é a do antiviral para inibir o vírus e tratar as gestantes infectadas, bloqueando a transmissão da doença para o feto.

O médico evidenciou ainda a importância do acompanhamento às crianças que nascem com a Síndrome Congênita da Zika. Ele considerou Campina Grande um exemplo e afirmou ter verificado progresso no tratamento de algumas crianças atendidas na cidade. “Algumas respondem bem à fisioterapia. Elas podem recuperar algumas capacidades e ter uma vida quase normal, se bem atendidas”, pontuou.

Leia mais no jornal Correio da Paraíba

Relacionadas