quinta, 06 de maio de 2021

Saúde
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Mães de crianças com microcefalia protestam em CG

Renata Fabrício / 01 de agosto de 2018
Foto: Chico Martins
Com pequenas mochilinhas, cartazes e bolas de assopro pretas, mães de crianças com microcefalia levaram seus bebês até a Praça da Bandeira em Campina Grande, na manhã dessa terça-feira (31), para denunciar a falta de assistência médica no Sistema Único de Saúde (SUS). As mães dos bebês “invisíveis” relatam a burocracia nos hospitais para ter acesso a leitos de UTI, a falta de transporte decente das prefeituras para que cheguem às sessões de fisioterapia, a falta de órteses, medicações e cirurgias gratuitas, entre outros pequenos obstáculos para a qualidade de vida das crianças, que ausentes se transformam em uma sentença de morte.

Aldaiane Monique Alves da Silva é mãe de Ester Sofia, de 2 anos e 8 meses e apesar de morar em Campina Grande, já próximo a um centro de referência para microcefalia, explica a verdadeira peregrinação que passa em busca de um direito tido como gratuito.

“Já perdemos crianças por falta de assistência e não queremos perder novamente. Somos humilhadas por conta de um transporte para a fisioterapia, pois os transportes não vão nos pegar em nossa residência para nos deixar na fisioterapia. Os medicamentos estão sempre para chegar, mas nunca chegam – e são medicamentos controlados, perigosos. Estamos protestando para que as coisas aconteçam”, explicou.

Dois fatos recentes chamaram a atenção das mães para o descaso. Há três meses a bebê com microcefalia caçula do grupo de 130 mães, Sofia, morreu com apenas 6 meses por falta de assistência hospitalar. Há uma semana, outro bebê com problemas respiratórios esperou mais de 6h em Queimadas para conseguir um leito de UTI que só foi possível em João Pessoa. O medo de que o descaso faça mais uma vítima fatal é grande e é para mudar isso que as mães pedem ajuda conjunta dos órgãos de saúde.

“Depois de Sofia, ficamos todas com muito de medo de que algo assim aconteça novamente. Sabemos que estamos sujeitas a isso. As nossas crianças são imprevisíveis. Hoje elas estão bem, mas para o quadro delas se agravar é uma questão de segundos. É uma rotina difícil. A gente sente que estão querendo se livrar dos nossos filhos. É como se acelerassem a morte deles”, relatou Aldaiane.

Se já é difícil para quem mora perto de um Centro de Referência, para quem atravessa quilômetros até o atendimento mais próximo é uma verdadeira via crucis. Vera Lúcia Jacinto da Silva e Kamila Oliveira, mães de Abraão e Caleb, enfrentam mais de 80 quilômetros em uma Kombi com mais 16 pessoas para poder chegar à fisioterapia.

“As crianças deveriam vir em uma cadeirinha, mas ao contrário disso enfrentamos uma superlotação. Tem dia que viemos em 17 pessoas numa Kombi onde só cabem oito... Clamamos por atenção, ajuda e a dignidade que merecemos. Eles são tratados como insignificantes. Estamos esgotadas e temendo que o pior aconteça”, conta Vera Jacinto.

PMCG assegura atendimento

A secretária de Saúde de Campina Grande, Constança Denise Dantas Gonçalves, confirmou que procedem as informações de superlotação no transporte com vagas para vários tipos de pacientes, incluindo pacientes com HIV e em tratamento de hemodiálise.

“A gente só tem uma Kombi, um Gol e uma ambulância. Estamos recebendo uma van nesta quarta (hoje) e leva mais uns 10 dias úteis para regularizar. Disponibilizamos o carro na medida do possível, mas a frota é pequena para quantidade de agravos. Quem faz hemodiálise, por exemplo, não pode esperar. Com a chegada dessa van acreditamos que vai desafogar mais o transporte”, respondeu.

Através de nota, a prefeitura de Campina Grande deixouinformou que “desde 2015, vem prestando toda assistência com as crianças que nasceram com a síndrome congênita do zika vírus, sendo referência internacional no cuidado humanizado tanto dos bebês quanto das famílias. No âmbito da saúde, o Centro Especializado em Reabilitação – CER oferece todo o tratamento de reabilitação física, intelectual, auditiva e visual. Além disso, também foi criado um Centro Dia para assistência das famílias e disponibilizadas moradias no Complexo Habitacional Aluízio Campos. O setor de serviço social da Secretaria Municipal de Saúde irá realizar um encontro com as famílias ainda esta semana para dialogar sobre as demandas que estão sendo colocadas, buscando soluções para as questões de responsabilidade da Prefeitura”.

O Correio pediu explicações também ao Ministério da Saúde e ao Governo do Estado sobre ações e investimentos, dentro de suas competências, em áreas que beneficiassem essas mães e os seus bebês com microcefalia. Assim como no relato das mães, tanto o Estado quanto órgão federal transferem a responsabilidade para os municípios, não apresentando qualquer dado de ação ou investimento nas áreas.

 

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