quinta, 25 de fevereiro de 2021

Saúde
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Luiz Roberto Londres fala sobre medicina e atendimento a pessoas carentes

Kubitschek Pinheiro / 03 de junho de 2017
Foto: Divulgação
Aos 76 anos, o médico Luiz Roberto Londres parece que está começando a vida. Deixou a direção da Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro, para se dedicar aos projetos do Instituto de Medicina e Cidadania, instituição que tem entre seus objetivos levar saúde para quem não tem acesso. Em uma rápida passagem por João Pessoa, ele concedeu entrevista para o Correio da Paraíba e falou sobre seus planos para o futuro e suas realizações

Londres participou da reformulação do Código de Ética Médica em 2008 e desde então tem voz ativa nas reuniões do Conselho Federal de Medicina. Atualmente está na comissão que planeja os congressos de humanidades médicas.

 

- O senhor acredita que deixou a direção da Clinica São Vicente, no Rio, para fundar e se dedicar aos projetos do Instituto de Medicina e Cidadania (no Rio), pela sua idade ou porque chegou o momento exato de trabalhar pelos necessitados de saúde e fechar esse ciclo em sua vida profissional nessa área?

R - Há mais de 30 anos o lado humano da medicina que é uma atividade bio-psico-social e não apenas biológica, me fascina. Leituras e encontros com mestres das Ciências Humanas em Medicina, como Edmund Pellegrino, David Thomasma, Gilberto Freyre e tantos outros me aprofundavam no conhecimento da minha atividade. E agora chegou o momento que, como costumo dizer, estou trocando o Hardware pelo Software: não mais um hospital, mas a Medicina como um todo.

 

- Esse é um novo projeto em sua vida, o Instituto de Medicina e Cidadania. De que se trata, é uma ONG, um órgão do governo?

R - O Instituto de Medicina e Cidadania é uma organização independente não tendo qualquer vínculo com partidos, governo, etc. O IMC tem como objetivos principais: contribuir para a recuperação da saúde pública, contribuir para o reforço da ética na saúde suplementar, contribuir para a formação de novos médicos, prover atendimentos a pessoas carentes em suas cercanias e disseminar os conhecimentos das terapias não alopáticas

 

- Quais as atividades que senhor desenvolve nessa Instituição?

R - Sou o ideólogo e, na ação, sou apenas o maestro procurando afinar a orquestra e fazê-la apreciada pelo público. Além disso, procurar estabelecer conhecimentos e ligações com pessoas e instituições que poderiam estar interagindo de diversas maneiras para atingir nossos objetivos.

 

- Daria para informar quantas pessoas são atendidas por dia no Instituto?

R - Estamos no início, não posso precisar o número. Só posso dizer que é crescente assim como a quantidade de médicos aderindo ao nosso projeto.

 

- Quais são os bons resultados desse novo trabalho?

R- Além da enorme satisfação dos pacientes pelo próprio atendimento, a sua retirada de filas cada vez maiores existentes nos serviços públicos.

 

- Como o senhor definiria o caos na saúde pública brasileira?

R - Eu diria que há um descaso de diversos setores do governo e a má qualificação dos responsáveis por vários serviços na área da saúde e de seus médicos. Quando eu me formei em 1965 os melhores hospitais do Rio de Janeiro e, acredito, do Brasil eram públicos. Trabalhei no Miguel Couto, Lagoa, Pedro Ernesto, Aloysio de Castro, todos exemplares. Em segundo lugar vinham os beneficentes; trabalhei em dois deles: Santa Casa da Misericórdia e Maternidade da Mãe Pobre, tão bons quantos os acima. E começavam a aparecer os hospitais privados não beneficentes, compostos de grupos de médicos que visavam reunir suas clínicas em um só lugar: São Miguel, São Vicente, Prontocor foram os primeiros.

 

– No Instituto de Medicina e Cidadania, a equipe atende pessoas dos bairros distantes ou favelas, mulheres, homens e meninos?

R - Através de um dos projetos do instituto, denominado “Médicos Voluntários”, que é coordenado pelo doutor Felix Zyngier e atende a todos os tipos de pacientes de comunidades em locais menos favorecidos, como o Morro Azul no Catete e o Parque da Cidade na Gávea. Em breve esperamos estar em outras localidades. E também médicos de diversas especialidades realizam consultas gratuitas em seus consultórios com hora marcada para pacientes carentes. Além disso, começamos a fazer exames complementares e temos o objetivo de em um futuro breve realizar cirurgias.

 

- Quais os maiores impasses enfrentados pela população brasileira, que não dispõe de planos de saúde?

R - Ficar à mercê de serviços públicos de todos os níveis que funcionam cada vez pior. Considero isto uma enorme falta de servidores públicos de todos os níveis, que não cumprem a Constituição Federal. A nossa “Constituição Cidadã” diz em seu artigo 196 que saúde é direito de todos e dever do Estado. Nos últimos tempos a enorme maioria das leis e das PEC é para beneficiar os intermediários financeiros – planos de saúde – e não para defender os reais princípios da Medicina, como reza a CF de 1988.

 

- Esse trabalho de Medicina e Cidadania poderia ser chamado hoje de medicina revolucionária?

R - Prefiro dizer que é evolucionária. E me vem à cabeça uma frase de Hegel que ouvi na primeira aula do meu Mestrado em Filosofia: “Tudo volta ao que era só que diferente!” A Medicina que se honra tem que voltar aos seus princípios, porém agregando recursos da modernidade, principalmente tecnológicos, sem deixar que corrompam nossa atividade.

 

- Como o senhor vê essa avalanche que cresce  a cada dia, da legião dos hipocondríacos?

R - Não vejo isso; vejo apenas a crescente constatação do que sempre houve na medicina. Nos anos sessenta eu, formado há pouco tempo, mas já com uma grande clientela, disse a meu pai: “Estou meio frustrado; fui bom aluno, estudei tanto e metade dos pacientes que vêm à consulta não tem problemas físicos”. Ao que meu pai respondeu: “Só metade? Você deve estar adoecendo alguns...”. Não era um corpo que vinha à consulta, mas uma pessoa, um ente biopsicossocial e sabíamos da importância da psique na criação de sintomas e até, por vezes, de doenças. Em nossos dias, os reducionismos da medicina fazem com que esqueçamos a sua real essência. Como esses sentimentos não são captados pelos exames complementares, hoje chamados erroneamente de “Medicina Diagnóstica”, desprezamos esses sintomas sem nos aprofundarmos nas histórias familiares, sociais, laborativas e outras. Lembrando: a verdadeira Medicina Diagnóstica é dada em primeiríssimo lugar pela anamnese, ou seja, pela conversa do médico com o paciente.

 

- O senhor concedeu uma entrevista às páginas amarelas da Veja e lá comentou sobre a "ditadura da medicina", Poderia voltar ao tema, essa ditadura perdura?

R - O termo “Ditadura da Medicina” foi usado em função das distorções que a cercam e que costumam ser absorvidas por médicos. Duas grandes autoridades nesse assunto e que ocuparam cargos relevantes são Márcia Angell, que foi editora-chefe do New England Journal of Medicine, em seu livro “A Verdade sobre os Laboratórios Farmacêuticos”; e Richard Smith que foi editor chefe do British Medical Journal, em seu livro “The Trouble with Medical Journals”. Os dois mostram como esses importantíssimos colaboradores deformam de maneira intensa a atividade médica e tanto Richard Smith quanto o médico dinamarquês Peter Gotzsche defendem que essas condutas deveriam ser criminalizadas.

 

- Muita gente procura a medicina alternativa como os tratamentos da acupuntura para aliviar dores, problemas como depressão e até para insônia e melhorar a imunidade. O senhor acredita no efeito das agulhas milenares?

R - Não só a acupuntura, como muitas outras: homeopatia, reiki, fitoterapia, do-in, medicina ayurvédica, quiropraxia. Muitas delas são práticas milenares, enquanto a alopatia é fruto dos conceitos científicos; e a idade da ciência não chega a 500 anos. O fato é que essas terapias - se bem aplicadas - costumam funcionar. Sempre fui um curioso a respeito de tudo que cercava a Medicina que aprendi e sempre pude ver, em mim mesmo, a eficácia dessas terapias.

 

- O que o senhor tem a dizer sobre a indústria farmacêutica?

R - Vemos em nossos dias muito mais do que apenas uma falha ética, um verdadeiro crime. Muitos médicos criam conflitos médicos em suas ações, aceitando comissões de laboratórios médicos, farmácias, exames complementares, hospitais, etc. para se utilizarem de seus produtos ou serviços aumentando consideravelmente suas vendas . Aparecem em conflito o bem do paciente e o recheio do bolso do médico. E eu costumo dizer que quando aceitamos um conflito ele já não existe mais, ou seja, o paciente não é mais o objetivo primordial das ações do médico.

 

- O que o senhor diria a um paciente que fuma? Aliás, o senhor é contra cigarros em ambientes abertos?

R - Diria que ele deveria parar de fumar, mas, se não conseguisse, que cuidasse do número de cigarros por dia e que visitasse seu pneumologista com certa freqüência para poder detectar precocemente alterações que podem se tornar fatais. Medicina, é bom sempre lembrar, são normas gerais aplicadas a casos particulares; vemos pacientes sofrerem de tumores pulmonares ainda jovens e outros, nonagenários, que sempre fumaram e nada têm. E não vejo problema de se fumar em ambientes abertos.

 

- Um cigarro por dia faz mal?

R- Em geral não, mas isso pode não ser o mesmo para todos.

 

- O senhor participou da reformulação do Código de Ética Médica em 2008. Como aconteceu seu envolvimento nesse projeto?

R - Por um convite do então presidente do Conselho Federal de Medicina, Roberto Luiz D´Ávila, que havia tomado ciência das minhas ideias sobre os princípios éticos da Medicina ao ler o livro Iátrica onde estava a minha tese de Mestrado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

 

- Mensalmente o senhor vai a Brasília para participar das reuniões do Conselho Federal de Medicina. O que se discute lá?

R - São dois assuntos: a reforma do Código de Ética Médica e os simpósios anuais de Humanidades Médicas cuja atuação se distribui pelo país.

 

- Nesses encontros em Brasília existem projetos para beneficiar a população brasileira carente de saúde?

R:- Sem dúvida. O Conselho Federal de Medicina se preocupa em disseminar o conhecimento das chamadas humanidades médicas bem como na reforma do ensino médico que hoje, podemos dizer, está catastrófico com excesso de Escolas Médicas de qualidade duvidosa. Infelizmente não conta com o apoio dos Ministérios de Educação e Saúde para a resolução desse problema.

 

- Falando em Brasília, o país está em permanente turbulência com a operação "Lava Jato"  com a entrada e saída de “condenados” das cadeias. Como gestor, o senhor acredita que o pais vai sair desse atoleiro?

R - Uso muito uma comparação perguntando às pessoas se uma terra é árida e infértil e queremos plantar nela o que deve ser lá posto? Dizem sempre “adubo” e pergunto o que á adubo e elas respondem diversas palavras como fezes, cocô, bosta, mas só com muita insistência chegam na palavra “merda”. Então eu digo: quando tudo está uma merda é hora de plantarmos belas sementes; o terreno já está plenamente adubado.

E costumamos confundir o péssimo momento pelo qual estamos passando com o conhecimento desse fato. O problema não é apenas atual; atual é o conhecimento do que há muito já existia.

 

- E tal democracia?

R - Se todos soubessem o real significado da palavra democracia - em grego δῆμος (demos ou "povo") e κράτος (kratos ou "poder"), não chamaríamos nossos governantes de todos os escalões de autoridades – eles são servidores públicos eleitos ou nomeados direta ou indiretamente por nós, para nos servir e nos respeitar. Nesse regime nós, o povo, somos as verdadeiras autoridades. Cabe então a cada um de nós se aprofundar nos verdadeiros problemas e descaminhos e não ficarmos apenas como uma torcida de times de futebol.

 

- O senhor pensa em um dia morar na Paraíba ou criar um elo desse novo trabalho do Instituto de Medicina e Cidadania aqui?

R:- Independente de minha origem paraibana, a Paraíba mora em meu coração. Vir aqui, estar com meus primos e amigos, me dá um enorme prazer; já me sinto em casa.

Além da história da minha família, tenho a satisfação de privar da companhia de conceituados médicos, alguns dos quais conselheiros do instituto; entre eles meus primos Jacinto e João Medeiros, Genival Veloso de França, Dalvélio Madruga, Carneiro Arnaud e Hygino Caetano.

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