quarta, 19 de dezembro de 2018
Saúde
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Infância interrompida: menores de um ano morrem mais

Lucilene Meireles e Beto Pessoa / 06 de novembro de 2018
Foto: Assuero Lima
A Paraíba registrou, em 2017, aumento de 5% nos óbitos de crianças com menos de 1 ano de idade, como apontam as Estatísticas do Registro Civil, divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Um fator que teve grande contribuição para o dado negativo no Estado segundo uma especialista em Neonatologia, foi a crise econômico-financeira que o país viveu no ano anterior.

“Em 2016, houve uma crise financeira no Brasil e isso é igual à diminuição das condições de saúde da população. Houve cortes na saúde, houve cortes na educação, e essas crises refletem na qualidade de vida das pessoas. Então, como um todo, a qualidade de vida piorou e, se olharmos, o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) será menor também se comparado ao IDH de outros períodos”, analisou a neonatologista Juliana Soares, coordenadora da Unidade Neonatal do Instituto Cândida Vargas (ICV), em João Pessoa.

Conforme a médica, a mortalidade infantil aumentou pelas condições precárias. Ela observou que a população está sem dinheiro para comprar remédio, além de não ter acesso à saúde. “A crise de saúde aumentou, a econômica também. Dinheiro para comer bem, eles não têm e, consequentemente, pegam muita infecção respiratória por ter a imunidade baixa, se internam por pneumonia ou doenças diarréicas, desidratam e morrem”, constatou. A principal causa de mortes de crianças entre 28 dias até um ano, de acordo com Juliana Soares, é a pneumonia.

Na maternidade Cândida Vargas, por exemplo, a especialista afirmou que tem se mantido um processo de mortalidade nos últimos anos e, inclusive, diminuindo. Às vezes, há picos, curvas de mortalidade. Atualmente, diminuiu a neonatal. “É uma questão social que envolve essas mortes, passando pela saúde, educação, renda, economia. Mortalidade infantil e materna passa por um envolvimento social enorme”, completou.

Menos de sete dias têm maior índice

Em 2017, foram 654 mortes de crianças menores de um ano, contra 621 registradas no ano anterior. O número é 17% maior que o registrado em 2015, porém 30% menor quando comparado com os últimos dez anos de análise.

A maior alta foi registrada naqueles com menos de 7 dias de vida: 14,56%, quando comparados os óbitos de 2016 (309) com 2017 (354). No mesmo período de análise, aumentou também o número de crianças que morreram entre 7 e 21 dias de nascido, passando de 99 para 113 (14,14%). Houve queda de 12,68% naqueles com 28 e 364 dias de nascido.

O número de crianças com menos de 1 ano que morreram por mortes violentas, ou seja, não-naturais, cresceu 266% entre os dois anos, saltando de 3 para 11 casos. Também foi registrado aumento de 150% nas mortes violentas na faixa dos 2 aos 364 dias de nascido e naqueles com menos de 7 dias de vida, que registrou 5 mortes em 2017. Em 2016 não foram registradas mortes violentas nesta parcela da infância.

Mortes violentas

Entre 2016 e 2017, o aumento de mortes violentas foi de 266,6%, saltando de 3 para 11 óbitos. O cenário, segundo a médica Juliana Soares, chama a atenção também. “São atropelamentos, tiros. A gente sabe que o índice de violência aumentou também pelo mesmo motivo. Quando não se tem educação, quando há piora da renda, da economia, aumentam os indicadores sociais ruins, de violência, desemprego. O pessoal fica na rua sem fazer nada. Vai matar, vai roubar, não tem dinheiro”, afirmou.

Em relação aos óbitos na faixa etária entre 1 e 14 anos de idade, as Estatísticas do Registro Civil mostram que houve uma redução de 14% - de 324 para 280 nos últimos dez anos (2007-2017) de análise. A queda foi de quase 32%. No comparativo com os últimos dez anos (2007-2017) de análise, a queda foi de quase 32%.

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