sexta, 18 de setembro de 2020

Saúde
Compartilhar:

Guillain-Barré: uma síndrome antiga e cheia de mistérios

Renata Fabrício / 25 de abril de 2016
Foto: Rafael Passos
Seis meses depois de ser diagnosticado com a síndrome de Guillain-Barré (SGB), a família do advogado Rodolfo Lima de Araújo, 25, foi informada pelos médicos que a doença está em fase crônica. Desde que começou o tratamento, em outubro, o paciente teve duas “perdas” dos resultados obtidos na reabilitação. A doença que se popularizou com a zika e chikungunya não é nova e pode ser adquirida até depois de um resfriado, como aconteceu com Clóvis Neto, estudante de Administração. Em menos de um ano, 32 casos foram notificados pela Secretaria de Saúde do Estado (SES) e dois já tiveram correlação confirmada com chikungunya.

A fisioterapia de Rodolfo acontece todos os dias, mas agora em casa. O escritório onde o advogado trabalhava dividiu os custos da fisioterapeuta com a família, e a imunoglobulina que ele havia tomado outras vezes agora precisará ser adquirida através de pedido judicial.

A mãe de Rodolfo, Valmira Lima, conta que foi difícil ver que tudo que o filho tinha conseguido adquirir com a fisioterapia, se perdeu nas reincidências da doença. “Ele teve duas reincidências, perdeu tudo o que já tinha evoluído na fisioterapia e os médicos disseram que a doença estava crônica. Tudo que ele estava ganhando de melhoras foi sendo perdido. Já aconteceu duas vezes e nesta última, os médicos resolveram que ele vai tomar imunoglobulina pelos próximos três meses, mas via judicial, porque eles não têm mais a cota que o Estado dá”, conta dona Valmira.

Mesmo sem esperança dos médicos, de que Rodolfo possa voltar a andar e ter a vida ativa e normal que tinha, a família se apega à fé. “As reincidências foram a perda da força nas pernas, e dormência em outras partes do corpo. Os médicos não dizem que ele volta a andar, mas como existe um tratamento, eu tenho fé. Não é difícil, não é impossível. Tenho fé que será revertido, só que com muita fisioterapia”, diz Valmira.

Estudante teve Guillain Barré no início dos anos 2000, após resfriado

Em 2003, quando a síndrome não era muito conhecida na Paraíba, o estudante de Administração Clóvis Neto era um adolescente de 16 anos. Quatro dias depois de se recuperar de um resfriado, ele começou a sentir cansaço e dormência dos membros inferiores até os superiores. Foram duas semanas até receber o diagnóstico de Guillain-Barré. “Foram 15 dias de angústia, sem a gente saber o que era. Todo novo exame era uma nova expectativa. Até que doutor Alexandre diagnosticou que era a doença. Fiquei internado por 28 dias no São Vicente de Paula, e após a internação comecei o tratamento de fisioterapia três vezes por semana no HU e no Unipê”, lembra.

Clóvis ficou tetraplégico por um ano e cinco meses. Foram dois anos de fisioterapia até voltar à vida normal. “Com 10 meses eu voltei a mexer os braços. Pentear meu cabelo, comer, e os movimentos foram voltando. A voltar a andar com muletas foi um ano e quatro meses”, conta.

Hoje, um dos agentes causadores suspeitos é o zika vírus, mas no caso de Clóvis, a manifestação da doença apareceu cinco dias de resfriado. “Eu tive um resfriado muito forte antes aproximadamente cinco dias antes. Foi bem rápido. Após a recuperação da virose, melhorei significativamente e três ou quatro dias depois comecei com cansaço na perna e dormência”, relembra Clóvis.

estudante

A síndrome deixou marcas na vida de Clóvis, mas apesar de tudo ele anda, dirige, e tem uma vida normal. “Na época, eu nunca tinha ouvido falar na doença. Era algo muito difícil de se ouvir. Estava no auge da adolescência, e ter um impacto desses assustou. Com o meu, só haviam uns sete casos no Estado. Hoje minha vida é normal. Fiquei com uma sequela nos pés. Diferente do meu tratamento, que foi apenas corticoide, hoje o diagnóstico é mais rápido e eficiente, assim como a imunoglobulina”, acredita

Cheia de mistério

Apesar de o aumento no número de casos de Guillain-Barré ter chamado a atenção somente no ano passado, por suspeitas de relação com o zika vírus, a síndrome já existe há cerca de 100 anos e foi diagnosticada pela primeira vez em dois soldados franceses na 1ª Guerra Mundial.

As causas para acometer um paciente variam desde uma infecção viral ou bacteriana, reação à vacina, cirurgia, anestesia e até mesmo um trauma. O neurologista do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), Abelardo Araújo, explica que não há um agente causador específico para a manifestação da Síndrome. “A Guillain-Barré não tem um agente causador específico. Ela é mais ou menos parecida com a microcefalia. Pode ser consequência de vários fatores”, afirma.

Dificuldade em relacionar com zika vírus

O zika vírus é suspeito de ser um dos novos agentes causadores da Guillain-Barré, mas para relacionar o vírus a síndrome ainda é difícil, porque em alguns casos a síndrome demora até 12 semanas para se manifestar. O neuro explica porque isso ocorre. “Nesses casos, como em qualquer outro caso de Guillain-Barré, acontece uma forma de reação imunológica no organismo. Duas ou três semanas depois de infectado pelo agente, o corpo começa a produzir anticorpos contra o vírus ou a bactéria. Só que esses anticorpos se perpetuam no sangue e atacam os nervos da pessoa, até a musculatura da respiração. É como se fosse uma reação autoimune. Uma reação do corpo contra ele mesmo. Os casos suspeitos de relação com o zika vírus estão sendo mapeados e investigados, mas fica muito difícil, uma doença que só se manifesta de duas a três semanas depois da zika, provar que foi desencadeada por ele, porque não se tem mais vírus, somente a reação”, resume.

Recuperação

A recuperação da síndrome é considerada rápida, mas são as sequelas deixadas por ela que às vezes marcam o paciente para sempre. “Em geral ela evolui nas primeiras duas semanas, depois se estabiliza, mas nunca progride além de 30 dias. É uma das chamadas doença autolimitada. Se o paciente está, por exemplo, a tanto tempo sem andar, é porque ele esta com sequelas, mas não significa que a Guillain-Barré ainda está atuando. Cerca de 85% das pessoas se recuperam completamente em poucos meses, em termos de 3 a 8 meses”, explica.

Pessoas de qualquer faixa etária podem ser acometidas pela síndrome, mas adultos estão mais propensos e crianças tendem a se recuperar mais rápido. A explicação para isso se dá, segundo o especialista, porque o sistema nervoso das crianças é mais jovem.

Entre os mistérios da doença, que a medicina ainda não conseguiu traçar, está o perfil das pessoas em que a SGB se manifesta. Mesmo sendo uma doença antiga, especialistas ainda não respondem a algumas perguntas. “Existe muitas coisas que ainda não sabemos sobre elas. A gente não sabe, por exemplo, quais mecanismos fazem com que várias pessoas desenvolvam a síndrome e outras não. Ou o que torna uma pessoa mais suscetível a desenvolver. Isso ainda é um mistério a ser investigado”, afirma Abelardo Araújo.

Casos e mortes notificadas

Segundo a Secretaria Estadual de Saúde, somente a partir de julho do ano passado o Estado iniciou o monitoramento da SGB através dos Núcleo Hospitalar de Vigilância Epidemiológica (NHVE), que funciona dentro dos hospitais, seguindo orientação do MS, por não ser agravo de notificação compulsória, tendo em vista a necessidade de conhecer se há correlação, da síndrome em questão, com a infecção prévia da dengue e/ou zika e/ou chikungunya.

CASOS

De julho de 2015 a abril deste ano

32 casos suspeitos da doença relacionada à zika

16 descartados para relação com a zika

14 em investigação por suspeita de correlação com o zika vírus

2 casos com correlação com chikungunya

Relacionadas