quarta, 22 de maio de 2019
Saúde
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Fibromialgia afeta cerca de 5% da população no País

Lucilene Meireles com assessoria / 15 de maio de 2019
Dor no corpo e cansaço são indicativos de que o corpo precisa de um pouco de descanso e são sinais comuns da correria diária. Porém, se essa dor se torna crônica, se espalha por todo o corpo e o cansaço é persistente, é preciso ficar atento, pois os sinais podem ser de fibromialgia, uma doença ainda sem causa definida que, segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR), afeta cerca de 5% da população no País. No último domingo, dia 12, foi lembrado o Dia Mundial da Conscientização da Fibromialgia e Fadiga Crônica, e uma notícia nada animadora para as mulheres é que, conforme estimativa da SBR, a cada dez pacientes, entre 7 e 9 são do sexo feminino, com idade entre 30 e 55 anos.

“Até poucos anos atrás, era comum que as dores dos pacientes de fibromialgia fossem consideradas psicológicas ou imaginárias. Mas, exames e pesquisas recentes apontam que as dores, efetivamente, são causadas por uma disfunção no cérebro que resulta em uma amplificação dos impulsos dolorosos”, explicou o reumatologista José Roberto Provenza, presidente da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR).

De acordo com o especialista, a doença funciona com sensações amplificadas da dor. “É como se a pessoa tivesse um ‘controle de volume desregulado’”, disse. As sensações de dor são amplificadas, assim como as de queimações e formigamentos, problemas para urinar e dor de cabeça. Em alguns casos, a dor é tão intensa que o paciente chega ao ponto de temer abraços, evitando ser tocado. A dor, persistente e difusa, é sentida, com maior frequência, nos músculos. Além disso, o sono não é reparador e, mesmo depois de muitas horas de sono, o paciente não acorda descansado. Ele tem grande sensibilidade ao toque e à compressão da musculatura.

O diagnóstico é clínico, ou seja, não são necessários exames para comprovar. Dor no corpo por mais de três meses e presença de pontos dolorosos na musculatura podem ser indícios que ajudam a chegar à constatação. Por outro lado, apesar de todo o desconforto provocado pela doença, o diagnóstico precoce e o tratamento adequado ajudam a promover qualidade de vida. Para isso, é preciso aliar os cuidados com a prática de exercícios físicos e uma vida produtiva. O médico disse ainda que é necessário desmistificar a doença e informar a sociedade sobre o diagnóstico e os tratamentos possíveis.

Luta diária. Conviver com a fibromialgia é lutar, diariamente, contra uma dor que afeta a qualidade de vida e, por vezes, até impede a execução de tarefas simples do dia a dia. A estudante de Nutrição, Jorhana Guimarães, 28 anos, sabe muito bem as limitações que a doença pode causar. Porém, mesmo com o diagnóstico, não desanimou e decidiu lutar para ter qualidade de vida.

“Eu sentia muitas dores, fui a vários médicos, fiz exames, mas ninguém descobria o que era. Meus parentes achavam que era coisa da minha cabeça. Quando viajei para um lugar frio, em 2012, tive uma crise forte e fiquei paralisada. Os médicos que me atenderam disseram que era preciso investigar mais. Só um ano depois, veio o diagnóstico”, relatou.

Começou o tratamento e, durante dois anos, Jorhana não viu resultado. Foi quando parou de tomar a medicação e optou pelas terapias holísticas. Ioga e massoterapia estão entre as atividades. “Fiz dois anos de acupuntura, faço massagem, florais, Pilates”, enumerou. Adepta da Medicina natural, que trabalha corpo, mente e espírito, ela afirmou que mudou a alimentação, reduzindo o consumo de origem animal e garante que houve melhora significativa.

“Hoje convivo com a dor. Faço caminhada e, na academia, conto com um professor que conhece a síndrome. Às vezes, estou tão bem que cometo exageros, forço demais, pego peso, e aí a dor volta. Sei que tenho que respeitar meus limites”, disse.

Sem dados. Por meio da assessoria de comunicação, a Secretaria Estadual de Saúde (SES) informou que a pasta não tem dados sobre o acompanhamento dos pacientes diagnosticados com fibromialgia na Paraíba.

HU é referência no Estado



O Hospital Universitário Lauro Wanderley (HULW), da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), no Campus I, em João Pessoa, é a referência, no Estado, em tratamento de pessoas com doenças reumatológicas, mas está atendendo à carga máxima e não há vagas para novos pacientes. A afirmação da reumatologista Eutília Andrade Medeiros Freire, chefe do Serviço de Reumatologia da unidade.

No local, são tratadas diversas doenças que provocam dor, entre elas, a fibromialgia que responde por cerca de 300 dos 400 atendimentos mensais realizados no Ambulatório de Dores Crônicas. Pacientes com a síndrome são atendidos na segunda-feira, dia de referência. Para os demais, há atendimento durante toda a semana.

Segundo a médica, muitos pacientes sofrem com fibromialgia e, embora o serviço tenha sido ampliado nos últimos dois anos, atualmente atende à carga máxima. “Está faltando vaga e o ideal seria aumentar”, constatou.

A reumatologista explicou que os pacientes chegam até o Ambulatório referenciados pela Unidade Básica de Saúde (UBS).

“Lidamos com doenças autoimunes, em pacientes de todas as idades, inclusive muitos jovens. No caso da fibromialgia, a maioria é mulher entre 30 e 50 anos. Não há explicação para a causa de aparecer mais em mulheres. Já a causa da doença também é pouco esclarecida, mas há muitos estudos indicando que estas pessoas têm pouca resistência”, acrescentou.

Sensíveis. Outros estudos apontam que pacientes com fibromialgia têm sensibilidade maior à dor do que pessoas sem a síndrome, que pode ser desencadeada, por exemplo, depois de eventos graves, como um trauma físico, psicológico ou mesmo uma infecção grave. É comum que comece com uma dor localizada crônica que evolui para todo o corpo.

"A fibromialgia veio como uma grande professora, me ajudou a olhar mais para mim, respeitar meus limites, me cuidar de forma integral. Tudo isso é um processo de aprendizado. Muita gente acha que doença é um castigo, mas hoje vejo que é uma oportunidade para respeitar a minha dor e entender a dor dos outros" falou a estudante de nutrição, Jorhana Guimarães.

Todas as idades são afetadas



A fibromialgia não causa danos às articulações, aos músculos ou órgãos internos, e não afeta só adultos e mulheres. Crianças, jovens e idosos de ambos os sexos também podem desenvolver a síndrome, cujo diagnóstico é feito a partir da história clínica e exame físico detalhado realizado por um especialista.

De acordo com a SBR, deve-se evitar a automedicação com anti-inflamatórios e analgésicos. O tratamento para a dor deve ser prescrito pelo médico que, em muitos casos, pode indicar o uso de antidepressivos e neuromoduladores, que contribuem para aumentar a quantidade de neurotransmissores que diminuem a dor.

Também é aconselhável a prática regular de atividades físicas, sob orientação médica.

“É importante que o paciente mantenha-se ativo e produtivo e siga a recomendação médica –  para controle da doença e do quadro depressivo, que pode ser decorrente da própria doença”, destacou o reumatologista José Roberto Provenza.

Cendor realiza atendimento



O Centro de Reabilitação e Tratamento da Dor (Cendor), vinculado à Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de João Pessoa, funciona no Complexo Hospitalar de Mangabeira Governador Tarcísio de Miranda Burity (Ortotrauma), e atende aos pacientes que passaram por cirurgia ortopédica no hospital. Porém, também recebe pacientes que sofrem de outros problemas, a exemplo da fibromialgia.

No local, são tratadas dores músculo-esqueléticas, como lombalgia, dores nas articulações (ombro, joelho, quadril, por exemplo), tendinites, bursites, artroses, cefaleia tensional. Também são atendidos pacientes que sofrem de enxaqueca, polineuropatia diabética e dor pélvica crônica, entre outras síndromes neuropáticas. Os tratamentos variam com a necessidade do pacientes.

95%. É o percentual de pacientes que têm alteração do sono, dificuldade para dormir ou sono superficial. Como não consegue descansar, sente fadiga, o que aumenta a contração muscular e a dor. Do total, 50% apresentam depressão.

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