quinta, 06 de maio de 2021

Saúde
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Estudo realizado com quase 500 médicos aponta que 80% já sofreram agressões

Lucilene Meireles / 17 de julho de 2018
Foto: Reprodução
A situação de sucateamento da saúde pública tem gerado situações de violência contra médicos. Revoltados com a demora no atendimento, pacientes e até mesmo seus acompanhantes, no caso dos internos, cometem agressões contra os profissionais de saúde. A afirmação é do vice-presidente do Conselho Regional de Medicina da Paraíba (CRM-PB), Roberto Magliano, com base em dados de uma pesquisa realizada por ele e que ainda está em fase de conclusão. Dos 450 médicos entrevistados, 80% afirmaram ter sofrido algum tipo de agressão enquanto prestavam atendimento aos pacientes. Um retrato da situação de decadência do Sistema Único de Saúde (SUS).

“Reconhecemos nisso uma dificuldade para o exercício da profissão dos colegas, e atribuímos a situação a essa questão de sucateamento da saúde pública. Os médicos estão ali para atender, e o paciente, que esperou muito tempo, irritado por conta da superlotação, se revolta com o médico quando deveria se revoltar com os políticos lá em Brasília”, constatou.

As constantes notícias e informações de colegas em relação à violência contra profissionais de saúde motivaram o médico a pesquisar se realmente acontecia com a frequência que parecia estar ocorrendo. “Fiquei muito surpreso porque os números que encontrei foram expressivos”, ressaltou.

Conforme o vice-presidente do CRM-PB, a primeira coisa a fazer com os dados da pesquisa, assim que for concluída, é a divulgação em nível estadual. “Vamos conversar com as autoridades do Estado e tentar, a partir das informações, construir algumas propostas para evitar que isso continue acontecendo. Uma coisa simples que a gente percebe é a ausência de uma guarda nos hospitais”, frisou.

Profissionais desprotegidos

O CRM-PB não tem dados de quantos médicos sofreram agressões, mas Roberto Magliano relatou que, em maio deste ano, uma colega foi agredida numa unidade de atendimento de emergência da Capital por um paciente com problemas psiquiátricos. “Ele partiu para a agressão física contra a médica, chegou a bater e não tinha um segurança para conter o agressor. Temos relatos ainda de acompanhantes de pacientes que usam drogas”, comentou.

Os médicos e funcionários do hospital ficam com medo. Uma funcionária do hospital que presenciou o ataque, disse que a médica levou um murro e teve o rosto batido na porta do consultório. Mais de 16 pacientes aguardavam atendimento e não havia apoio de guardas. Ela relatou que a médica praticamente desmaiou no meio do corredor após sofrer a agressão. A unidade não tinha nenhuma assistência de segurança.

No dia 29 de janeiro, o acompanhante de uma paciente agrediu o médico que estava no plantão noturno da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Oceania, no bairro de Manaíra. Ele acompanhava a tia que esperava para falar com o profissional. Porém, muito nervoso, queria que ela fosse atendida antes dos pacientes que já aguardavam.

Ao passar pela triagem, foi constatado que o caso não era grave e ela permaneceu aguardando a vez. No entanto, mesmo sendo informado de que a tia seria a próxima a entrar no consultório, o acompanhante perdeu a paciência e arrombou a sala onde o médico atendia outra paciente. O profissional decidiu atendê-la, mas o acompanhante continuou com agressões verbais até que o médico ameaçou chamar a polícia, e acabou levando um chute nas costas. Ele não reagiu.

Agressões partem de acompanhantes

Na pesquisa, uma das perguntas era se a agressão partiu do paciente ou de familiar ou acompanhante. A maioria dos médicos respondeu que a violência teria partido dos acompanhantes. “A gente entende que a presença deles é importante, mas é preciso que se dê condições para que o profissional atenda com segurança. O medo que a gente tem é que, se o acompanhante estiver armado e se revoltar, pode matar um médico”.

O CRM pretende, inclusive, acionar o Governo do Estado e prefeituras para atentarem quanto à necessidade de guardas nos hospitais, unidades de saúde. Também deverão ser mobilizados o Ministério Público da Paraíba (MPPB), chamando a atenção para essa questão e procurando meios de tentar resolver.

“Recentemente, no Rio Grande do Norte, tivemos o caso de um familiar que agrediu covardemente um médico, que era um senhor de idade. Ele estava atendendo o paciente, o familiar bateu e só parou depois do médico cair no chão. É um absurdo e infelizmente vem acontecendo numa freqüência assustadora. É preciso chamar a atenção para isso”, verificou.

Ano passado, de acordo com Roberto Magliano, houve um encontro no MPPB, com o secretário de Saúde de João Pessoa e representantes de hospitais. Foi exigida a colocação de guaritas com apoio de policiais militares para fazer esse tipo de segurança. “Infelizmente, ao que parece, o apelo não foi devidamente atendido e os profissionais continuam desprotegidos”, constatou.

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