quarta, 19 de dezembro de 2018
Saúde
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Epidemia à vista: médico diz que chikungunya chegará em todos os recantos

Renata Fabrício / 14 de setembro de 2016
Foto: Wilson Ribeiro/Divulgação
Pesquisadores do Nordeste estão formulando um consenso para capacitar médicos da atenção básica de saúde. O objetivo é auxiliar profissionais da área na especificação de tratamentos para pacientes acometidos pela chikungunya e evitar que eles evoluam para o quadro crônico.

O debate é feito por reumatologistas da Paraíba, Alagoas, Pernambuco e Rio Grande do Norte e deve ser publicado até o fim deste ano em uma revista científica.

Para o presidente da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR), Georges Brasile, é preciso que os médicos que atendem à comunidade saibam lidar com a doença.

“Todos os locais que tiveram dengue, todos os locais que tiveram zika, terão chikungunya. É uma questão de saúde pública muito séria, e que tem um índice de mortalidade notificado de maneira incorreta. Os médicos não notificam da maneira que deveriam, e os atestados são mau preenchidos. Em uma semana, um médico faz em média 20 atendimentos relacionados à chikungunya na rede publica, e nos consultórios reumatológicos este número chega a um terço”, explicou.

Para a reumatologista Danielle Egypto, do Serviço de Reumatologia do Hospital Universitário Lauro Wanderley (HULW), capacitar o atendimento básico é necessário para descongestionar o acesso ao terceiro atendimento, que acontece nos hospitais universitários.

“O acesso do paciente é mais fácil ao posto de saúde que está próximo à sua casa e tem o médico ali ao lado”, alerta.

Tratamento não pode ser “receita de bolo”. Cláudia Marques, da SBR de Pernambuco, considera que o tratamento da chikungunya não pode ser genérico a todos os pacientes. “O protocolo do Ministério da Saúde é para tratamento da dor. A gente quer capacitar especificamente para o comprometimento articular e orientando que não dá para ser uma receita de bolo. é preciso analisar individualmente os pacientes, dependendo do tipo de manifestação clinica que ele apresente”, afirma.

O consenso quer apontar até onde o médico da unidade básica deve ir com o tratamento, e a partir de quando é necessária a intervenção de um especialista. “Estes casos seriam de pacientes que vão apresentar alterações articulares mais graves e que de fato começaram o tratamento, mas responderam a ele. O que se vê é que o grupo que vai ficar pior, os crônicos, são mais ou menos 5% do grupo que observamos em outros estudos. Ou seja, 40% do total vai para a fase crônica a partir de três meses, mas os que precisam chegar num especialista são apenas 5% deles. Se a gente capacita o pessoal para atender essa demanda, pode-se dar conta do problema”, acredita.

“Chika” em reumáticos. Paralela ao consenso, o grupo está observando como é a manifestação da chikungunya em pacientes acometidos por doenças reumáticas. Hipóteses de que uma doença reumática pode se agravar ainda mais com o aparecimento da chikungunya, enquanto outra pode se neutralizar estão no campo de discussão da pesquisa. Cerca de 65 pacientes já foram registrados na amostra científica da pesquisa.

A reumatologista Eutília Andrade Freire, da Paraíba, diz que a prática clínica tem mostrado a diferença da evolução da chikungunya em diferentes tipos de doenças reumáticas, e por causa disso parte da pesquisa é voltada à esses casos.

“Temos a impressão de que as pessoas com artrite reumatoide, quando acometidas pela chikungunya, têm um comportamento menos agressivo. Como ela já recebe um tratamento para uma fisiopatologia semelhante, a artrite por chikungunya, e os mediadores são muito parecidos com o da artrite reumatoide, o comportamento nesses pacientes parece ser menos agressivo. Hipoteticamente, no lúpus o comportamento após a chikungunya é pior. Neste consenso vamos registrar as nossas experiências e chegar a um dado mais consolidado, pois um braço da pesquisa trata especificamente sobre isso”, relata.

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