sábado, 16 de janeiro de 2021

Saúde
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‘Doutora’ internet e os riscos do autodiagnóstico médico

Katiana Ramos / 02 de abril de 2017
Foto: Rafael Passos
A garçonete Janaina Oliveira tem sempre na bolsa um analgésico para tomar em caso de dor de cabeça ou enxaqueca. O hábito ela aprendeu com a mãe, mas com o celular na mão as ‘dicas’ da automedicação muitas vezes são pesquisadas na internet. Essa atitude parece estar presente na vida de muitos pessoenses. Uma pesquisa feita pelo Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ), divulgada na última quinta-feira, apontou que 53% dos entrevistados em João Pessoa se automedicam ou fazem o autodiagnóstico a partir dos resultados de buscas sugeridos pelo Google.

Conforme o levantamento, que ouviu 2.340 pessoas em 16 capitais do País, a Capital paraibana é a quarta com o maior percentual de usuários que utilizam remédios por conta própria ou tiram conclusões sobre doenças utilizando a internet. A pesquisa revelou ainda que, entre as principais justificativas para esse comportamento por parte do paciente está a superlotação de pronto-socorros.

E são justamente esses locais, sobretudo os da rede pública, os que atendem aos casos de intoxicação por uso indiscriminado ou inadequado de medicamentos. Em João Pessoa, a diretora da Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) do bairro do Valentina Figueiredo, Narjara Rodrigues, informou que praticamente toda semana chegam pacientes com este perfil no local. Da rede municipal, essas unidades são os locais de referência para esse tipo de situação, de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS). Segundo Narjara Rodrigues, os casos de intoxicação relacionados à ingestão de medicamentos são de pessoas que ingerem remédios de uso controlado, os populares ‘tarja preta’.

Opinião médica é desprezada

A pesquisa elaborada pelo Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ) trouxe ainda dados sobre a relação médico e paciente. Para 18% dos entrevistados, nas 16 capitais consultadas, a opinião do médico não é importante para a avaliação dos sintomas de saúde em geral. Já 9% dos entrevistados consideraram que as buscas na internet são mais eficientes.

O presidente do Conselho Regional de Medicina (CRM) na Paraíba, João Medeiros, alertou que a consulta médica é indispensável para a orientação do uso de medicamentos porque é nesse encontro onde o profissional vai avaliar o histórico clínico do paciente e indicar o melhor tratamento.

“A relação médico/paciente é um dos pilares da Medicina e para o êxito do diagnóstico e do tratamento. É na consulta que o médico vai colher a história clínica da pessoa, fazer os exames necessários e, a partir disso, dar o diagnóstico. A automedicação é extremamente arriscada, porque o uso da medicação é acompanhada pelo médico e, muitas vezes, os pacientes podem necessitar de exames complementares”, frisou João Medeiros.

Ele lembrou ainda que a retenção das receitas médicas na aquisição de antibióticos e psicotrópicos foram avanços e reduziram consideravelmente a automedicação, sobretudo no caso dos antibióticos. João Medeiros lembrou que o uso indiscriminado dos antibióticos favoreciam o fortalecimento das bactérias e agravavam o quadro clínico dos pacientes.

Efeitos colaterais. Seja um simples analgésico, antiinflamatório ou antibiótico, todo medicamento pode causar efeitos colaterais, segundo reforça o clínico-geral João Alberto Pessoa. Ele explica que, dependendo do quadro de saúde, o uso dos remédios sem prescrição e acompanhamento médico podem levar a quadros alérgicos que pioram caso a pessoa não identifique o efeito colateral a tempo e ainda ‘esconder’ outras doenças.

João Alberto reforçou ainda a importância dos pacientes em buscar orientação médica para ter o diagnóstico correto da doença e evitar quadros de infecções ou até mesmo o uso da medicação errada.

“O fato da pessoa se automedicar pode trazer complicações para ela no sentido de retardar a manifestação da doença que ela esteja desenvolvendo de fato. Por exemplo, se a pessoa sente falta de ar e ao pesquisar na internet acha que pode ter asma e toma um broncodilatador. Mas, se essa falta de ar estiver relacionada a um indício de problema cardiovascular o uso desse medicamento pode piorar o quadro clínico”, alertou o médico.



Mais procurados nas farmácias 

Os analgésicos e os antiinflamatórios estão entre os principais medicamentos procurados na farmácia onde Maria Emília Pedroza trabalha, no Centro de João Pessoa. Entre as razões apontadas pela farmacêutica está a não exigência da prescrição médica para os remédios desses dois grupos. A última Resolução da Diretoria Colegiada (RDC), publicada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em setembro de 2016, autoriza a venda de 25 tipos de medicamentos sem receita médica.

A estudante Paula Firmino alega que a falta de tempo para consultas médicas a fazem tomar remédios por conta própria. Sem plano de saúde e paciência para esperar meses na fila para uma consulta especializada na rede pública, ela conta que compra antiinflamatórios e relaxantes musculares para amenizar as dores que sente nas costas.

“Eu estudo o dia inteiro e sei que é difícil conseguir uma consulta com um ortopedista para avaliar minha situação e não posso pagar uma consulta particular. Aí, tomo os remédios por conta própria”, disse a jovem.

A farmacêutica Maria Emília acrescenta que, mesmo na venda dos remédios que não precisam de receita médica, ela alerta aos pacientes sobre os riscos da automedicação e a importância de procurar orientação médica. “As pessoas que compram medicamentos por conta própria já vem com o nome do remédio na ponta da língua. Mas, eu sempre pergunto se a pessoa tem alergia a alguma substância, a finalidade do uso. Na maioria das vezes, essas pessoas não sabem”, explicou a farmacêutica.

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