domingo, 15 de julho de 2018
Saúde
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Diabetes atingirá 600 milhões de pessoas até 2030

Luiz Carlos Sousa / 08 de novembro de 2015
Foto: Nalva Figueiredo
Os números não deixam margem a dúvidas: o diabetes é uma doença que ganhou a dimensão de epidemia atingindo hoje 387 milhões de pessoas em todo o mundo. Para o endocrinologista João Modesto Filho, se a quantidade chama a atenção, as previsões são mais alarmistas ainda: em 2030 serão cerca de 600 milhões de portadores da doença. O que mais preocupa médicos de pesquisadores é o aumento da incidência do tipo 2 – associado a obesidade – em crianças e adolescentes. João Modesto, no entanto, chama a atenção para o o controle do diabetes com a administração de medicamentos, dieta saudável e prática de exercícios possibilitando uma vida saudável. Nessa conversa com o Correio, ele fala sobre os avanços no tratamento, as tecnologias para administração de insulina e explica os efeitos que o diabetes provoca no organismo e quanto isso custa para os cofres públicos. O próximo sábado, 14, é dia de mobilização mundial do diabetes.

- Os números sobre diabetes são cada vez mais alarmantes em todo o mundo. O que explica esse crescimento?

- A epidemia de obesidade, que está ocorrendo nesse inicio de século, é a principal responsável por esse fato. Dados de 2014 da Federação Internacional de Diabetes – IDF – mostravam que cerca de 387 milhões de pessoas em todo o mundo eram portadores de Diabetes, com uma prevalência global de 8.3%. Estima-se, a dados de hoje, que em 2030 mais 205 milhões de pessoas tornar-se-ão diabéticas, atingindo uma cifra que beirará os 600 milhões.

- São mais casos do tipo 1 ou do tipo 2?

- De um modo geral, em torno de 90% de todos os casos de Diabetes são do Tipo 2 (associado a obesidade e que pode ser tratado com anti-diabéticos orais), aquele que atinge mais o individuo adulto. Em torno de 10% são do tipo 1 (que necessita obrigatoriamente do uso de Insulina). Mas o que estamos presenciado é que com a epidemia da obesidade, o número de casos do tipo 2 está aumentando cada vez mais nas crianças, adolescentes e adultos jovens.

- Em crianças?

- Sim. Em alguns países (EUA, Canadá, Japão, etc) tem ocorrido um aumento dramático e quase exponencial na incidência de diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes. Esse crescimento foi de quase 10 vezes na última década. Em alguns centros americanos, o tipo 2 tem representado cerca de 30 a 50% de novos casos em indivíduos com menos de 18 anos. Isso é algo preocupante devido particularmente aos efeitos deletérios da doença a médio e longo prazo caso não seja devidamente tratada.

- A que sintomas se devem estar alerta?

- No caso de tipo 1, o aparecimento é brusco e se caracteriza por beber muita água, urinar muito e perder peso. No tipo 2, na grande maioria das vezes, essa sintomatologia não se faz presente, daí a importância de pesquisar pessoas de risco. São principalmente as sedentárias, as que possuem parentes em primeiro grau com diabetes, mulheres com filhos com mais de 4 quilos ao nascimento, colesterol HDL abaixo de 35 mg/dL, triglicerídeos acima de 250 mg/dL, hipertensos, condições associadas com resistência a insulina (obesidade severa, ovários policísticos) e portadores de doenças cardiovasculares.

- Populações que eram praticamente imunes ao diabetes, como as indígenas, também estão desenvolvendo a doença. Nesse caso também é o alimento calórico e de fácil acesso o grande vilão?

- Sem dúvida. Além do fator genético, as enormes mudanças de estilo de vida ocorridas, por exemplo, com os indios Pima do Estado do Arizona, Estados Unidos, mostram claramente a íntima relação entre sedentarismo, maus hábitos alimentares, aumento de peso e aparecimento de diabetes. Até uma criança com 4 anos de idade foi diagnosticada com diabetes tipo 2, aquele que normalmente encontramos na pessoa adulta.

- O que ocorre no organismo que acaba levando ao diabetes? Que mecanismo deixa de funcionar ou passa a funcionar mal?

- São varias as ocorrências: resistência à ação da insulina nas células gordurosas e musculares, secreção deficiente de insulina pelo pâncreas, aumento da produção de glicose pelo fígado, alem de outros componentes como degradação acelerada de gordura, deficiência de hormônios gastrointestinais, aumento do”glucagon” pelo pâncreas, reabsorção aumentada de glicose pelos rins e resistência insulínica no cérebro. Coletivamente, esses componentes compreendem o que recentemente foi chamado de “octeto destruidor”.

- Que avanços a Medicina tem alcançado para ao menos controlar a doença?

- O grande objetivo do tratamento do diabetes é diminuir ao máximo as complicações da doença, tanto nos vasos maiores (artérias coronárias, cerebrais, aorta, ilíacas, etc.), como nos menores (vasos da retina e dos rins, principalmente). Isso pode ser conseguido por meio de um rígido controle da glicemia, gorduras sanguíneas e pressão arterial. Mudanças no estilo de vida (dieta, atividade física, perda de peso, cessação do tabagismo, etc.) e medicações com diferentes mecanismos. Atualmente 7 classes de agentes orais são comercializadas, além das insulinas.

- Por que a insulina injetável é tão importante no tratamento do diabetes?

- Na virada do século XIX para XX, um paciente com Tipo 1 sobrevivia menos de um ano após o diagnóstico. A descoberta da insulina se deu em 1921 no Canadá. Antes disso, esses diabéticos sobreviviam com corte drástico da alimentação – menos de 500 calorias diárias e alguns dias de jejum total. Com a descoberta da insulina a historia do Tipo 1 mudou: como o problema era a não produção de insulina, quando ela passou a ser injetada a vida dos diabéticos mudou significativamente pois ela mantinha as pessoas vivas. Desde então, com as enormes melhoras na fabricação de insulina é possível ao diabético ter uma vida saudável.

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