quarta, 14 de novembro de 2018
Saúde
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Cresce o câncer infantojuvenil e Paraíba registra 285 mortes em cinco anos

Lucilene Meireles e Katiana Ramos / 03 de novembro de 2018
Foto: Assuero Lima
Nos últimos 20 anos, o número de novos casos de câncer em crianças com idade até 14 anos cresceu 13% no mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) o que tem preocupado a comunidade científica. Na Paraíba, foram 285 mortes em crianças e adolescentes, de 2013 a 2017. Os dados são da Secretaria Estadual de Saúde (SES) e mostram ainda que a maior parte dos casos (35,7%) afetou jovens de 15 a 19 anos.

A oncopediatra Andréa Gadelha, que atua há 21 anos no Hospital Napoleão Laureano, referência no tratamento de câncer no Estado, afirmou que os pais devem ficar atentos para qualquer sinal diferente na criança, procurando um médico caso haja qualquer dúvida. “As chances de cura para uma neoplasia descoberta no início chegam a 80%”, ressaltou a especialista.

É a esse percentual que a estudante Jossana Wellen Santos de Araújo, 16 anos, se agarra. Há dois meses, ela foi diagnosticada com câncer e já iniciou o tratamento. A doença começou a se manifestar com uma febre sem explicação e inchaço na região do ombro. O médico do município paraibano de Caaporã, onde mora, prescreveu um antibiótico, mas o tratamento não fez efeito. Após uma ultrassonografia, houve a suspeita de que poderia se tratar de um linfoma de Hodgkin, confirmada logo depois.

Esse tipo de câncer, segundo a médica Andréa Gadelha, é comum em crianças e adolescentes, mas nenhum câncer infantil tem causa definida, apenas suposições. No linfoma de Hodgkin, por exemplo, estudos apontam que alguns tipos de vírus, como o Epstein-Barr (VEB), também chamado herpesvírus humano, é um fator predisponente, embora ter o vírus não signifique que uma pessoa terá câncer.

A oncopediatra observou, inclusive, que tem aumentado o número de casos de câncer em crianças e adolescentes, mas lembrou que existe cura. “É importante, porém, que a descoberta seja precoce”, reforçou. “Embora os casos de câncer infantil sejam mais intensos e precisem de mais quimioterapia, têm maiores chances de cura, superando o percentual de 80%”.

Risco em crianças

Existem fatores de risco para o câncer em pessoas adultas, como a ingestão de alguns alimentos considerados perigosos, entre eles, embutidos. Em crianças, conforme a oncopediatra Andréa Gadelha, a maioria dos tumores é embrionária, ou seja, está presente desde que a criança foi gerada na barriga da mãe.

“A célula ficou inerte e um dia resolve se multiplicar errado e acaba gerando o câncer, mas ninguém sabe o momento em que houve esse estopim e porque a célula cresce”, explicou. Além disso, há irmãos gêmeos em que um desenvolve a doença e o outro não.

A especialista alertou que, como não há causa específica, o diagnóstico precoce é fundamental. Ela aconselhou os pais a levarem as crianças ao pediatra regularmente e fazer os exames de rotina. Já os de imagem, só quando for realmente necessário, porque têm muita radiação que também pode gerar a doença.

Causas

As causas para tantas dificuldades vão do atendimento básico ineficiente ao tratamento especializado do câncer que não está ao alcance de todo o sistema de saúde. A afirmação é de Teresa Fonseca, oncologista e presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica (Sobope).

“O Brasil é um país de dimensão continental, a discrepância é enorme no acesso à saúde e não há condições compatíveis com as necessidades de atendimentos adequados em nenhuma região”, acrescentou.

Superação

A notícia inesperada de que tem um câncer fez com que a estudante Jossana Wellen adiasse alguns projetos, como a conclusão do curso técnico em Administração e a entrada na universidade. “No começo, foi um choque, mas cada dia é uma superação. Estou confiante. As redes sociais me ajudam a ter contato com os amigos, mesmo estando longe da escola. Minha mãe também está o tempo todo comigo. Não me sinto só”, declarou.

Segundo Josânia Santos, mãe da adolescente, os médicos não souberam dizer a causa da doença, mas estipularam seis meses iniciais de tratamento. “Ela já passou por dois ciclos de quimioterapia, cada um com três sessões, e começa agora o terceiro”, contou. Durante a semana, período em que estão ‘hospedadas’ na Casa da Criança com Câncer, a adolescente ainda passa por consulta e exames.

Avanços no tratamento

Uma importante inovação para o tratamento de alguns tipos de cânceres é a utilização do sangue do cordão umbilical, que assim como a medula óssea, é rico em células-tronco que podem originar diversos tipos de tecidos.

“As células-tronco são células ‘mães’, capazes de criar os componentes principais do sangue humano e do sistema imunológico do corpo. A partir dessas células, formam-se glóbulos vermelhos, que levam o oxigênio aos tecidos; glóbulos brancos, que combatem infecções; e plaquetas, que atuam na coagulação”, explicou Nelson Tatsui, diretor técnico do Grupo Criogênesis e hematologista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP).

O especialista destacou que as células-tronco, além de serem compatíveis com o próprio bebê, possuem uma chance aumentada de compatibilidade entre irmãos. “Com as células criopreservadas, há maior rapidez no tratamento, diminuição dos riscos de rejeição e efeitos colaterais após o transplante”, finalizou.

Sinais precoces do câncer infantil



  • Linfoma de Hodgkin (linfomas 14%)

    Gânglio aumentado na região cervical que cresce rápido, com ou sem febre. A temperatura aumenta no final da tarde, ficando em torno de 38 graus.

    Há perda de peso, em torno de 10%.

    O paciente sente prurido (coceira) no corpo.

    Forte sudorese noturna.

    Se houver tosse, pode ter gânglio no tórax.

    Os sintomas nem sempre vêm juntos.


  • Leucemias (26% do total de casos)

    O paciente apresenta muita palidez bruscamente.

    A investigação deve ser imediata.


  • Tumor abdominal

    Afeta, em maior número, crianças de 3 a 5 anos.

    Se a barriga não é molinha ou se sentir algum caroço tem que fazer ultrassom.


  • Tumor ósseo

    Mais comum em adolescentes.

    70% dos tumores ósseos ocorrem no joelho.

    Há aumento de volume em torno dos ossos do joelho ou parte final da coxa.

    O paciente sente dor e dificuldade para andar.

    Alguns começam a mancar (claudicar).


  • Tumor cerebral (13% - tumores do sistema nervosa central (SNC)

    Mais comum em crianças entre 3 e 5 anos de idade.

    A criança acorda com dor de cabeça.

    É um sintoma que não deve ser ignorado.

    A dor ocorre pela manhã e é seguida de vômito.

    Em quadros mais avançados, há dificuldade para andar, tontura.


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