sexta, 18 de outubro de 2019
Saúde
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Cerclagem traz esperança em gravidez de risco

Lucilene Meireles / 03 de fevereiro de 2019
Foto: Chico Martins
“Quando me colocaram na posição para fazer o toque, o bebê já estava ‘coroando’. Ele nasceu muito prematuro e, como não havíamos feito uso do corticoide para amadurecer os seus pulmões, já estava com o rosto mais escuro do que o corpo, provavelmente em sofrimento. Mesmo com as manobras de respiração, meu bebê só viveu por menos de três horas”. O relato triste e emocionante é da jornalista Renata Fabrício, que ficou devastada ao perder o primeiro filho. O bebê nasceu prematuro, por falta de um diagnóstico adequado e dos cuidados que sua gravidez exigia.

É claro que toda mulher gestante precisa de atenção especial e a gravidez é sempre cercada de preocupações, dúvidas, expectativas. Mas, além de todas essas sensações e da ansiedade habitual da espera, este pode ser um momento tenso quando a gestante descobre que a vida daquele ser em seu ventre está em risco. Uma das causas que podem comprometer esse momento é a Insuficiência Istmo Cervical (IIC), condição em que o colo uterino não suportar o peso da criança sem sofrer dilatação, o que pode levar ao parto prematuro e até à perda do bebê.

Para tentar evitar que a criança nasça antes que os órgãos vitais estejam maduros ou que ocorra um aborto, ginecologistas e obstetras indicam um procedimento conhecido por cerclagem. Nele, o ginecologista fecha o colo do útero e mantém, nas gestantes, a esperança de prosseguir com a gestação até o final.

Sonho realizado. Renata engravidou novamente e teve o tão sonhado filho ao completar 31 semanas de sua segunda gestação. Ela tinha feito a cerclagem na 15ª e, desde então, foram dias de incerteza em relação ao futuro de sua gravidez. A cerclagem não é garantia de que o útero vai conseguir se manter fechado. Ela descobriu que precisava passar realizar a intervenção em março desse ano, durante um exame ginecológico de rotina, e só então soube a verdadeira causa da perda do primeiro filho, em 2016. Após realizar a cerclagem, Renata teve que mudar a rotina de vida e ficou em repouso absoluto desde o dia 14 de dezembro. O sacrifício foi imenso ao ter que passar todo o tempo deitada, levantando raras vezes até chegar à 37ª semana, quando a sutura seria retirada. Porém, Ibrahim não quis esperar.

Análise detalhada



Para chegar ao diagnóstico da Insuficiência Istmo Cervical (IIC), a atual obstetra que acompanhou a jornalista Renata Fabrício, fez uma verdadeira varredura em sua vida antes mesmo do início da gravidez, e os questionamentos foram fundamentais para diagnosticar o problema e tomar precauções.

“A médica perguntou tudo: desde se eu tinha prisão de ventre até quando eu pretendia ter um bebê. Pelo meu histórico da perda anterior, ela estranhou o fato de ter sido tão tarde, com 26 semanas e seis dias, ou seja, ao final do sexto mês. Então me encaminhou para uma médica de imagem já com uma observação para atestar a IIC, que é a Insuficiência Istmo Cervical ou colo curto”, disse.

Na ultrassom, foi confirmado que o colo do útero era realmente fino, e foi nesse exame que Renata soube que precisaria fazer a cerclagem, caso entrasse em uma nova gestação. A especialista explicou que a Insuficiência Istmo Cervical é um afunilamento do colo do útero. É preciso muito repouso.

Dificuldade no diagnóstico. “Infelizmente, é muito difícil descobrir que se tem colo curto ou IIC antes de uma perda. Como a cerclagem é cirúrgica, ela tem um tempo adequado para fazer, que é antes de completar 16 semanas”, observou Renata Fabrício.

Uma prima da jornalista começou a ter dilatação com 5 meses de gestação, e não pode fazer a cerclagem, porque o período já era de risco. Então, ficou apenas em repouso absoluto e usando progesterona, geralmente recomendada para casos com risco de aborto ou parto prematuro.

Renata lembrou que em sua primeira gestação, a dilatação começou com 20 semanas, em torno de 5 meses. Na época, a médica que a acompanhava não deu tanta importância e disse que ela poderia continuar a vida normal.

“Só que eu não poderia, como hoje eu sei. Não tive nenhuma proibição. Estava liberada para fazer faxina, manter relação, vida normal. Porém, com 26 semanas e 6 dias, após relação, eu comecei a sentir contrações muito fortes e doloridas. Fui tomar um banho morno e, ao me enxugar, vi um pouco de sangue. Em qualquer lugar do mundo, sangue não pode ser um bom sinal”, constatou.

Ao informar à médica que cuidava dela na época, a recomendação foi de que procurasse o Isea (Instituto de Saúde Elpídio de Almeida), único hospital com UTI neonatal até então. “Em menos de 2 horas eu tive meu bebê de parto normal. Não deu tempo preencher ficha, fazer exame de toque, nada disso”, recordou.

Método não tem 100% de eficácia



Hoje, Renata lida melhor com a situação porque tem informação e sabe exatamente quais são suas possibilidades. As dificuldades são muitas e começam por ter que monitorar, mensalmente, a medida do colo, pois a cerclagem é apenas um dos métodos, mas não garante 100% que a gestação chegue a termo, entre 37 e 40 semanas, o que, de fato, levou a jornalista a um parto precoce.

Para ela, o início dessa gestação foi assustador, já que não havia sido planejada. “Eu já tinha uma ideia bem mais positiva do que aconteceria quando a gente decidisse tentar, mas aí já bateu um desespero”, admitiu ela, que não pensava em ter um filho antes de 2020. Mesmo com medo, Renata decidiu ser prática e tentar levar esse período da forma mais leve possível, embora com restrições.

De início, foi proibida de viajar de avião e teve que cancelar as férias já agendadas. A partir daí, iniciou a progesterona, pois em menos de uma semana da descoberta da gravidez, apresentou um pequeno sangramento após uma pessoa trancar seu carro na rua. Foi proibida também de manter relação sexual de qualquer tipo, com ou sem penetração, pois qualquer estímulo ao útero é perigoso para o bebê.

Repouso absoluto. “Vivi o primeiro trimestre quase normal, com algumas proibições. Quando entramos no segundo trimestre, outras recomendações surgiram: nada de viagens de carro, não subir escadas, abaixar para nada, não pegar em peso, só dirigir carro automático”, enumerou.

Antes de fazer a cerclagem, as restrições foram graduais. “Quando chegamos na cerclagem, com 15 semanas, entrei em repouso relativo e passava a maior parte do tempo deitada. Mesmo assim, ainda podia ir ao supermercado, sem empurrar o carrinho. Nesse período, sempre monitorando o colo do útero e, quando realmente começou a afunilar, surgiram novas recomendações”.

Na última ultrassom, feita em dezembro, o colo uterino havia encurtado um centímetro. “Como o bebê passa a ganhar muito mais peso, ganhando em torno de 1 kg em um mês, o meu corpo passou a trabalhar contra o crescimento do meu bebê. A única posição confortável e segura a partir daí era deitada. Sentada ou em pé o colo sofre a mesma gravidade”, observou.

Além do repouso absoluto, ela tomou corticoide para amadurecer o pulmão do bebê, por conta do risco dele nascer antes do tempo.

Na reta final



O repouso absoluto é uma parte muito difícil. “Eu sabia que isso ia acontecer, mas não imaginei que seria tão cedo, apesar de algumas amigas terem começado bem antes, com 11 semanas. Eu já tinha entrado na reta final, mas para quem é muito ativa, acostumada a estar andando, não é fácil se ver em cima de uma cama, com sua saúde plena, mas vivendo uma condição que é um risco para o seu bebê. Os primeiros dias foram super difíceis, mas quando me adaptei foi menos sofrido”, relatou.

A mãe se tornou cuidadora e deixava tudo que Renata precisava ao longo do dia perto dela.

No acompanhamento com a médica, ela também sentiu que ambas estiveram juntas na jornada pelo tempo certo da chegada do bebê. “Desde o início, ela me disse que não aceitaria não termos esse bebê e foi assim nas últimas consultas. Meu acompanhamento não se resumia apenas a uma data no mês. Acho que tudo isso deu mais segurança para viver uma espera cheia de incertezas”, completou.

Cuidado extremo após três perdas



A agricultora Paula Lucélia Araújo Farias, 32 anos, fez a cerclagem quando completou 14 semanas de gestação. Agora, está na 18ª e sabe que o fato de ter a Incompetência Istmo Cervical a coloca numa situação de cuidado extremo. Por conta do problema, já perdeu três bebês.

“As duas primeiras foram sem cerclagem. Na terceira, fiz a cerclagem com 16 semanas e perdi o bebê com 23. Agora, estou mais deitada. Só levanto para me alimentar e ir ao banheiro. Estou muito ansiosa, esperando completar as 30 semanas”, contou ela, que espera um menino.

Paula faz acompanhamento mensal com obstetra. “Só volto antes se sentir alguma coisa, mas a ansiedade é muito maior em relação às demais gestações. Além disso, é muito complicado ver as coisas para fazer e não poder. Porém, é um sacrifico por uma causa maior”, disse ela, que conta com a ajuda do marido e das vizinhas.

Cerclagem: eletiva ou de urgência



A cerclagem é um procedimento cirúrgico, onde é feita uma sutura no colo do útero, para que ele fique bem fechado até o final da gestação. “Ela pode ser feita eletivamente, sendo agendada no início da gravidez, nos casos em que a paciente já teve problemas em gravidez anterior, ou de urgência, quando a abertura no colo é visualizada no ultrassom ou no toque vaginal”, explicou a médica Thaise Villarim, coordenadora do programa de Residência Médica em Ginecologia e Obstetrícia, da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e plantonista do Alto Risco do Isea.

Segundo ela, a cerclagem dura, em média, de 30 a 40 minutos, e o próprio obstetra acompanha a paciente, junto com o ultrassonografista. A paciente vai para casa logo após o procedimento, na maioria dos casos. O procedimento é feito somente se houver indicação, e os pontos são retirados com 37 semanas. “A mulher que já teve vários abortos tem que ser avaliada pelo obstetra para verificar se precisa passar por cerclagem. Após o parto, a mulher tem vida normal, só necessitando de cerclagem se engravidar novamente”, ressaltou.

Thaise Villarim destacou que, na cerclagem eletiva, a que é marcada, o bebê não corre riscos. “O risco maior para o bebê é se for de urgência, com o perigo de romper a bolsa, e ocorrer a perda da gestação”, lembrou. A médica explicou ainda que a insuficiência istmo cervical pode ser congênita ou não. “Em alguns casos está relacionada com má formação uterina. Em outros, pode ser sequela de procedimentos feitos no útero, como uma curetagem em que tenha sido necessário dilatar o colo”.

Segundo ela, quem fez conização, procedimento em que se tira um pedaço do colo do útero, pode ficar com o colo mais aberto e, quando engravida, precisa de cerclagem. Ela afirmou que nem sempre a condição exige que a mulher fique de cama. Cada caso é diferente e depende do tamanho do colo observado na ultrassonografia.

A especialista frisou que o fato de descobrir a IIC antes de engravidar pode evitar a perda do bebê em alguns casos, mas nem sempre o procedimento funciona.

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