quinta, 21 de março de 2019
Saúde
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Baixa qualidade da mamografia afeta diagnóstico de câncer de mama

Lucilene Meireles / 09 de outubro de 2018
Foto: Rafael Passos
A qualidade clínica das mamografias realizadas em usuárias do Sistema Único de Saúde (SUS) não segue os padrões adequados para garantir um bom resultado. A constatação faz parte de um estudo realizado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Mastologia em parceria com médicos da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) em todo o País, e acende um alerta preocupante: sem exame de qualidade, não há diagnóstico precoce e, em consequência, crescem os casos de câncer de mama e óbitos pela doença. Este ano, este tipo de neoplasia já matou 162 mulheres no Estado.

De acordo com a SBM, o padrão de qualidade clínica das mamografias realizadas em usuárias do SUS é inadequado, principalmente com não conformidades relacionadas ao posicionamento mamário no equipamento, o que indica uma má qualificação dos profissionais que operam os mamógrafos.

“Para conseguir um diagnóstico precoce e atuar a tempo, precisamos que o exame seja feito em um aparelho de boa qualidade. Se é ruim, qualquer lesão pode passar batida. Temos tido um problema grave que são exames que vêm em CDs, como aquelas campanhas feitas no mama-móvel, e não temos acesso à imagem, só ao laudo. Não podemos tratar o que não estamos vendo e somos obrigados a pedir um novo exame. Atrapalha a vida da gente e muito mais a da paciente, e a doença vai se agravando”, declarou Jeane Tavares, presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia – Regional Paraíba.

Em relação ao treinamento dos técnicos, ela afirmou que o problema existe, mas o percentual é pequeno. “Acho que, de uma maneira geral, é o ponto que menos interfere. Um técnico treinado vai conseguir fazer o exame de muita gente. Porém, o manuseio da máquina com o posicionamento correto é fundamental para que o médico veja a lesão. Se ela já for profunda e a mama não for bem posicionada, a gente não vê. E um fato importante é que a gente não pode se ater só ao laudo, temos que ter acesso às imagens. Tem que ter as duas coisas para termos um resultado com certeza, além de aparelhagem de qualidade”, disse a especialista.

Dificuldades

Quando se parte para os municípios do interior do Estado, as dificuldades são ainda mais graves. Por lá, de acordo com a médica, há mamógrafos que constam como existentes, mas não funcionam por estarem quebrados.

“Se o problema é grande aqui, no interior é muito maior. E se soma a isso a qualidade ruim dos exames, influenciando no resultado final, que é o diagnóstico precoce”, observou a presidente da SBM – Regional Paraíba, Jeane Tavares.

Além da falta de qualidade do exame, muitas pacientes não conseguem sequer realizá-lo. É o caso da dona de casa Joana D’Arc Silvino que, desde dezembro de 2017, luta para examinar as mamas na rede pública. O detalhe é que ela mora em João Pessoa que, em tese, oferece melhores condições para as usuárias.

“Vim na Unidade Integrada do Valentina no dia 19 de dezembro e não consegui marcar. Tenho um cisto na mama e preciso acompanhar, mas não nunca dá certo”, lamentou.

“A dificuldade para agendar e realizar a mamografia ainda é o principal motivo para o baixo número de exames, além da triste realidade encontrada nos hospitais com equipamentos quebrados e falta de técnicos qualificados para operá-los”, reforçou o mastologista Ruffo de Freitas Junior, coordenador da pesquisa. “Estamos diante de um grave declínio que reflete o cenário caótico do câncer de mama no País”, concluiu.

Sem resposta

A reportagem solicitou informações à Secretaria de Estado da Saúde (SES) sobre a qualificação dos técnicos, mas nenhuma resposta foi enviada até o fechamento desta edição.

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