quarta, 18 de outubro de 2017
Saúde
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Autismo ainda assusta pais, mas tem tratamento

Bárbara Wanderley / 17 de setembro de 2017
Foto: Rafael Passos
Diagnosticar uma criança com Transtorno do Espectro Autista não é uma tarefa fácil. Isso porque, o problema ter várias graduações, e além da dificuldade que o próprio médico pode ter em fechar o diagnóstico, muitos pais e mães se negam a admitir a situação. “Não é por maldade, mas geralmente os pais têm um medo que inibe de olhar claramente o problema”, afirmou o psicólogo Moisés Anton, que preside o Instituto Revertendo o Autismo (IRA), em Cabedelo, que atualmente atende cerca de 50 crianças.

O comerciante Roberto Ribamar de Magalhães e a dona de casa Silvânia Miguel de Magalhães começaram a suspeitar que havia algo errado com o filho Samuel quando ele tinha um ano e oito meses. “Ele já tinha começado a falar ‘papai’ e ‘mamãe’, mas de repente parou de falar e só fazia uns sons repetidos. Pensamos até que ele podia ser surdo-mudo, mas fizemos vários exames e tudo dava normal”, contou Ribamar.

Desde então o casal iniciou uma peregrinação por diversos médicos, mas só conseguiu receber o diagnóstico quando a criança já tinha cinco anos, após uma fonoaudióloga desconfiar e indicar um profissional para avaliar o menino.

“Logo no começo, a gente não ouvia falar de autismo. Quando o médico disse que podia ser isso, e explicou o que era, foi um baque. Mas fomos dando um passo de cada vez, procuramos tratamento para ele e estamos vendo onde ele consegue chegar”, afirmou o pai.

Ribamar disse que o filho, hoje com nove anos, melhorou “de 50% a 70%” desde que começou a se freqüentar o IRA, há cerca de cinco meses.”Na escola todo mundo nota a evolução dele, na igreja que frequentamos também. Ele era muito seletivo com comida, não comia bem, não gostava de frutas nem verduras. Hoje ele come vegetais, toma suco verde”, contou.

Os problemas de linguagem também melhoraram muito. “Antes ele falava uma palavra e parava, hoje ele já emenda várias frases completas, pede tudo que quer.  Se ele esbarra em algum lugar ele já sabe dizer onde está doendo, antes ele não falava nada se estivesse sentindo alguma dor”, relatou Ribamar.

Entendendo o problema

Moisés Anton explicou que o Transtorno do Espectro Autista causa um atraso no desenvolvimento da criança e pode ser identificado através de três sintomas principais: dificuldade ou atraso na linguagem, dificuldade de socialização e comportamentos disruptivos.

“Geralmente são crianças com o olhar distante, que não procuram os pais ou coleguinhas para brincar. Bebês que não fazem contato visual com a mãe, não sorriem. Já os comportamentos podem ser de agressão consigo mesmo ou com outras pessoas; bater as mãos de forma repetitiva, como se estivessem nadando no ar; não utilizar os brinquedos da forma correta, como pegar um carrinho e ficar só mexendo as rodas sem colocar-lo no chão”, exemplificou Moisés.

Ele contou que geralmente os pais de primeira viagem têm mais dificuldade para identificar o problema, por não terem outro filho para comparar, mas que ao perceber os sintomas, é necessário procurar um psiquiatra, neurologista ou mesmo um pediatra que entenda do assunto para fechar um diagnóstico. A Fundação Centro Integrado de Apoio à Pessoa com Deficiência (Funad) oferece diagnóstico e tratamento.

“Geralmente as mães ficam arrasadas quando recebem o diagnóstico. Já recebi no meu consultório muitas mães depressivas e, além das crianças, elas também precisam de acompanhamento”, disse Moisés.

O caso, entretanto, não é para desespero, conforme explicou o psicólogo. “Antigamente era como uma sentença de morte. Hoje já se sabe que é tratável e muitas dessas crianças terão uma vida normal. Já tive um caso de uma criança que chegou ao instituto batendo a cabeça na parede e, em duas semanas de tratamento, parou de fazer isso”.

Cada vez mais casos

De acordo com a coordenadora do setor de autismo da Funad, Jaína Soraya Alves de Medeiros, atualmente a reabilitação atende 280 crianças, e há uma lista de espera com mais 79 crianças aguardando vagas.

“A demanda foi muito maior do que a gente esperava. Fizemos um espaço para atender 250 crianças e já estamos com 280. Estamos querendo abrir um novo espaço para ampliar em mais cem vagas a capacidade”, disse Jaína.

Assim como Moisés, ela afirmou que a incidência do espectro autista vem aumentando. “Ainda não sabemos precisar o quanto aumentou, não temos essa estatística, mas temos diagnosticado 20 crianças a cada mês e isso é muito”.

Duas correntes

Moisés Anton afirmou que o espectro autista é entendido pela Medicina como uma doença neuropsiquiátrica, com tratamento medicamentoso e acompanhamento de algumas outras especialidades como fonoaudiologia. Há outra corrente, no entanto, na qual ele se inclui, que encara o transtorno como algo biológico, que mexe com o metabolismo da criança.

Segundo ele, crianças como transtorno geralmente também apresentam problemas imunológicos e do trato gastrointestinal, como alergias e intolerâncias alimentares, além de dificuldade de digestão. “No IRA, orientamos em relação à dieta. Não recomendamos ingestão de glúten, derivados de leite e alimentos industrializados. Já tivemos um caso de uma menina que não falava e só com a dieta ela começou a falar em dois meses”, contou, acrescentando que tem estudos científicos comprovando os benefícios do tratamento metabólico promovido pelo Instituto.

Escola nem sempre é boa ideia

A legislação que protege pessoas com deficiência também protege as crianças com espectro autista, de forma que a matrícula em escolas não pode ser negada. Não é incomum, porém, que escolas afirmem estar sem vagas quando recebem inscrições dessas crianças. “Tenho a impressão de no ensino público há um tratamento melhor, mas já ouvi de algumas mães que tentaram escolas privadas e disseram que não havia vaga”, contou Moisés.

O profissional destacou, por outro lado, que nem sempre tentar a inclusão é benéfico. “Às vezes a criança está em um momento do espectro que não vai conseguir acompanhar e se beneficiar com aquilo. Pelo contrário. A situação pode acabar causando estresse e piorando quadro. O ideal é que haja um profissional qualificado acompanhando o caso para sinalizar o momento certo de fazer a inclusão na escola”.

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