segunda, 25 de janeiro de 2021

Saúde
Compartilhar:

As sequelas do abuso sexual: como identificar o pedido de socorro das vítimas?

Luís Eduardo / 02 de outubro de 2017
Foto: Reprodução
“Minha filha nunca mais foi a mesma”. A frase de Carlos dos Santos (nome fictício), que teve a filha de 12 anos estuprada por um vizinho, expressa bem o trauma psicológico que as crianças e adolescentes enfrentam após serem abusadas sexualmente. O número de casos como esse cresce e a falta de informação para o auxílio pós-abuso compromete a recuperação das vítimas.

De acordo com o Centro 8 de Março, especialista em monitorar os casos de abusos e estupros a mulheres e crianças em João Pessoa, apenas em 2017, foram 30 homicídios a mulheres na capital. O número absurdo de violência não é uma exclusividade das mulheres adultas. As crianças e adolescentes abusadas somam 23 somente até agosto. Mas será que as vítimas e principalmente, os pais, sabem lidar com as sequelas psicológicas que um estupro pode causar? Carlos dos Santos, de 54 anos, responde.

“Todo dia eu saio de casa com minha esposa para trabalhar e levo minha filha para o colégio. Moro nessa mesma rua há 13 anos. Conheço todo mundo. Nunca imaginei que isso pudesse acontecer. Quando ela entrou de férias, ficava em casa. Não temos como pagar babá e por ela já ter 12 anos, achamos que não tinha problema. Isso sempre aconteceu. Só que dessa vez, descobrimos que meu vizinho entrava em casa e abusou da minha filha”, relata o pai. A filha de seu Carlos foi obrigada a fazer sexo oral com um vizinho, que entrou na residência da adolescente e a coagiu a praticar o ato sexual.

Após notarem um comportamento estranho da filha, Carlos e sua esposa descobriram o que tinha acontecido. Os pais da vítima denunciaram o agressor, que foi preso. Porém, Carlos e sua esposa não se viram livres dos problemas. “Depois, a gente notou a Clara (pseudônimo) muito calada, sem vontade de conversar, sem vontade de comer, não queria ir pra escola... Acordava toda noite. E isso foi deixando a gente preocupado”, comentou Carlos.

O que os pais de Clara talvez não soubessem, é que vivenciar um estupro ou abuso causa traumas gravíssimos às vítimas. E essas sequelas são ainda maiores quando se trata de crianças e adolescentes, conforme explica a psicóloga Patrícia Diniz. “Qualquer forma de violência deixa sequelas, agora a violência sexual tem consequências bem profundas nas vítimas, até porque o índice maior é entre mulheres jovens e crianças. Além de traumas como uma gravidez indesejada, doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), o abuso também traz consequências pra saúde mental dessa vítima”, garante a especialista.

Após dois meses do assédio, os pais de Clara encaminharam a filha para uma psicóloga disponível no PSF da cidade de Bayeux, na Grande João Pessoa, onde a família reside. Segundo Carlos, sua filha apresentou melhora no comportamento e até topou voltar à escola.

A psicóloga Patrícia Diniz ainda alerta para os comportamentos que uma vítima de abuso pode adotar e quais as medidas que os pais devem tomar se notarem alguma conduta do gênero. “[As vítimas] podem desenvolver estresse pós-traumático, reviver cenas, mau sono, ansiedade, pânico, medo da morte, depressão, isolamento social e até suicídio. O que deve ser feito é imediatamente a denúncia, mas o principal é o tratamento psicológico e psiquiátrico, se for o caso, com medicação. E fazer que a pessoa lide bem com esse trauma, porque não se apaga, é conviver com essa cicatriz”, finalizou a psicóloga.

Onde procurar ajuda?

Além das clínicas privadas, o poder público também disponibiliza apoio psicológico às vítimas de abuso sexual. De acordo com a Secretaria Estadual de Saúde, os municípios se tornaram autônomos na oferta desse serviço, ou seja, cada um deles tem seu serviço de referência, podendo inclusive ser nas unidades do Programa de Saúde da Família (PSF). Nesses locais há atendimento à saúde mental e, consequentemente, ‘escutas’ para casos de estupro e abuso.

Relacionadas