quinta, 14 de novembro de 2019
Saúde
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A vida de ameaças e depressão dos agentes

Katiana Ramos / 07 de julho de 2019
Foto: Arquivo Jornal CORREIO
Trinta e dois anos de trabalho e o saldo: depressão, síndrome do pânico, além de problemas cardíacos e diabetes. Essa é a situação de Mariza (nome fictício, pois a entrevistada não quis se identificar), que até dois meses atrás trabalhava como agente penitenciária em um dos presídios de João Pessoa. As doenças ocupacionais aliadas às más condições do ambiente de trabalho, que não tem a infraestrutura adequada, e ainda ameaças de criminosos são os principais riscos desses profissionais, segundo denuncia o Sindicato da categoria na Paraíba.

De acordo com o Sindicato dos Agentes Penitenciários, pelo menos 20% do efetivo dos agentes (384 pessoas) já apresentaram algum quadro de doença ocupacional, principalmente problemas psicológicos. Destes, pelo menos metade ficou afastado do trabalho por pelo menos 15 dias, ao longo da profissão.

“A atividade em si é muito estressante, porque a gente lida com o risco o tempo todo, seja dos apenados, dos visitantes, dos demais profissionais dos presídios. Esse percentual de agentes doentes que temos é muito maior, porque muitas pessoas não gostam de falar que estão se tratando e sofrem caladas, por medo e vergonha”, explicou o presidente do Sindicato dos Agentes Penitenciários da Paraíba, Manoel Leite.

Com mais de 30 anos na segunda profissão mais perigosa do mundo, perdendo apenas para quem trabalha em minas subterrâneas, segundo classificação da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Mariza tem medo até do toque da campainha de casa e do telefone celular.

“Eu só estava indo trabalhar porque preciso do dinheiro da gratificação, mas eu já me tratava de uma depressão e de síndrome do pânico. Até que recentemente eu não aguentei mais, passei mal dentro de um plantão e tive que pedir afastamento à Junta Médica. Hoje, eu quase não saio mais de casa. Não tenho contato com muita gente. Tenho medo”, revelou Mariza.

Manoel Leite lembra que mesmo doentes, muitos agentes penitenciários continuam trabalhando por medo de perder a gratificação que recebem e também o benefício de horas extras. Segundo ele, há casos até de agentes que poderiam se aposentar, mas não entram com o pedido para não ficar com o salário defasado.

“Isso também gera muito estresse, ansiedade, porque eles não vêem perspectiva de mudança no trabalho. Só dos mais antigos, antes do concurso de 2008, são cerca de 90 agentes. Todos com mais de 30 anos de trabalho. Mas, que têm medo de se aposentar e vivem com receio constante”, disse o sindicalista.

Pressão e estresse fora do trabalho





A Paraíba tem uma população carcerária de 12.053 presos, segundo o último levantamento do Cadastro Nacional de Presos, divulgado em 2018. O Estado é o quarto do Nordeste com o maior número de apenados, de acordo com o documento. Essa realidade é uma preocupação também para os agentes penitenciários diante do crescimento da criminalidade na Paraíba.

Pedro (nome fictício, pois 0 entrevistado não quis se identificar) tem 60 anos e está há 38 anos na função de agente penitenciário, tendo passado pelo Presídio do Roger, na Capital, e outros da Paraíba. Nesse tempo de dedicação a profissão ele revelou que inúmeras vezes foi ameaçado por presos. Mas, mesmo sob o medo de andar na rua nos dias de folga, nunca cedeu às pressões e ao medo.

“Teve um caso em que eu estava na rua, saindo do serviço e tive que atirar em um criminoso para não morrer. Todos os dias é uma pressão e um estresse grande que a gente passa”, contou o agente. Ele disse ainda que teve que fazer uma cirurgia cardíaca em virtude de consequências do estresse adquirido no decorrer dos anos por causa da profissão. “Eu só ando armado. Saio na rua com medo. A gente nunca sabe o que pode acontecer”, falou.

Ainda recente no efetivo de agentes, Lúcio (nome fictício) é um dos concursados de 2008 e trabalha na Capital. No entanto, ele viu o sonho de traçar uma carreira profissional no serviço público ruir quando se deparou com a realidade nos presídios do Estado.

“Nós já sofremos com muita perseguição por parte de gestores anteriores, como ameaça de transferência para unidades muito distante. Além disso, também sofremos com tentativas de suborno por parte de alguns presos e familiares. Eu sofro por saber que não tenho perspectivas dentro da instituição”, falou o agente.

Ele revelou ainda que, nesses 11 anos de atuação, já ficou quatro meses afastado por problemas psicológicos como estresse. “Senti uma tristeza muito grande e uma sobrecarga de trabalho que me gerou estresse demais. Por conta disso fiquei afastado. Alguns presídios do Estado, como o Roger, não gera interesse do preso em se recuperar e sair diferente. Não dá para trabalhar a ressocialização em uma ambiente como aquele”, criticou Lúcio.

Estado presta assistência



A assistência de saúde dos agentes penitenciários, assim como o dos demais servidores do governo do Estado, é feita pela PB Prev, segundo informou o secretário-executivo da Secretaria de Administração Penitenciária (Seap), João Paulo Barros. Ele lembrou ainda que a pasta possui duas equipes de saúde formada por diversos profissionais da área que também atendem aos agentes. “Por do nosso programa de saúde nos presídios, quando essas equipes vão às unidades penitenciárias, os agentes também podem ser atendidos”, reforçou.

Ameaças. Já com relação às ameaças sofridas pelos agentes, conforme denuncia o Sindicato da categoria, o secretário explicou que as denúncias formalizadas são investigadas pela equipe de inteligência da Seap.

“Abre-se uma investigação. E tomamos as medidas cabíveis e legais, de acordo com o que for apurado. Se houver a necessidade do agente ser removido para outra unidade, no sentido de resguardar a integridade física dele, isso será feito”, destacou o secret[ário-adjunto, João Paulo Barros.

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