quarta, 25 de novembro de 2020

Saúde
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20% dos casos de câncer são por alimentação inadequada

Aline Martins / 08 de agosto de 2016
Foto: Nalva Figueiredo
Quem nunca ouviu a expressão: “Quando eu era jovem a gente comia de tudo e não ficava doente. Hoje tudo adoece”, ditas por pessoas mais velhas? Muito comum a fala. Segundo especialistas, nos últimos 30 anos, os hábitos alimentares e a rotina das pessoas mudaram consideravelmente. Hoje, o alto consumo de alimentos industrializados e gordurosos associado à falta de atividade física tem contribuído para uma vida ‘nada saudável’. De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), a alimentação e a nutrição de forma inadequada são classificadas como a segunda causa de câncer que pode ser prevenida. Além disso, um em cada três casos de câncer mais comuns pode ser evitado, ou seja, para cada 100 pessoas com a doença, 33 casos seriam prevenidos.

De acordo com o Inca, alimentação e nutrição inadequadas são responsáveis por até 20% dos casos de câncer nos países em desenvolvimento, a exemplo do Brasil, e por aproximadamente 35% das mortes pela doença. O recomendável é que a população adote uma dieta rica em frutas, legumes, verduras, cereais integrais, feijões (principalmente) e outras leguminosas. O Instituto ainda orienta que se evite o consumo exagerado de alimentos ultraprocessados – aqueles prontos para consumo ou prontos para aquecimento – e bebidas açucaradas. No mês passado, o Instituto Nacional do Câncer lançou uma página que fala exclusivamente da questão da alimentação e como ajudar a ter uma vida mais saudável no cuidado à prevenção do câncer.

A nutricionista da Unidade Técnica de Alimentação do Inca, Sueli Couto, explica como a alimentação pode influenciar no aparecimento do câncer. Tanto os alimentos podem aumentar o risco ou podem atuar como protetores. “Isso que dá muito destaque na alimentação por conta dessa duplicidade. Ela é proteção e é risco ao mesmo tempo dependendo de que alimentos você usa, em que quantidade, que tipo de preparação, isso tudo influencia se ela será proteção ou risco”, afirma. A especialista comenta que aqueles que oferecem risco são os adicionados de sal, gorduras, com excesso de amido (ultraprocessados).

“Porque eles vão contribuir para uma questão hoje que é uma pandemia mundial que é a obesidade. E a obesidade, hoje a gente considera um dos principais fatores de risco para câncer. Não é diretamente, mas está bem relacionado com a questão da alimentação. Isso é importante porque hoje a forma da população se alimentar ela mudou muito no período de 30 anos ela vem se modificando muito e isso por conta disso, as pessoas têm aumentado de peso numa rapidez muito grande”, destaca a nutricionista.

De acordo com ela, o estilo de vida se modificou bastante assim como a alimentação. Sueli Couto comenta também em relação à obesidade que não é apenas a alimentação, mas outros fatores associados, um deles a falta de atividade física.  “Está relacionada à forma como você come, se você gasta energia. Hoje as pessoas não praticam atividade física. As pessoas não andam muito. Hoje a modernidade, a tecnologia veio favorecer também a uma redução da atividade física porque hoje você tem controle remoto, escada rolante. A verdade é que as pessoas viviam outro modo de vida”, frisou.

Dor que une pacientes 

Rosane Palhano, 34 anos, e Adalgisa de Melo, 42 anos, duas mulheres que enfrentam diferentes tipos de câncer. Ironia ou destino, Rosane quando descobriu o primeiro câncer trabalhava em um Centro de Educação que fica em frente à residência de Adalgisa, no bairro Jardim Veneza, na Capital, e se conheciam de vista. Hoje elas se veem quando vão para o Hospital Napoleão Laureano para fazer quimioterapia. Uma ajuda a outra a enfrentar as dores dessa doença dolorosa. Elas até “brincam” com a questão de cada uma já está no segundo tipo de câncer. “Parece que a gente estava com inveja da outra e tivemos que ter dois cânceres”, observa Adalgisa.

A educadora social Rosane descobriu que estava com câncer após exames de rotina. Ela estava com mioma e na maioria dos casos, segundo o médico lhe informou, é benigno, no caso dela foi o contrário. Ela fez a primeira cirurgia para a retirada dos miomas e em uma biópsia descobriu que era um câncer. Por conta disso, teve que fazer a segunda cirurgia – uma hesterectomia total ampliada. Dois anos depois descobriu na área do pâncreas.

“Fiz a terceira cirurgia em fevereiro deste ano. Agora pela segunda vez fazendo quimioterapia”, disse. No caso dela, apesar de não ser comum, ela teve metástase do mesmo tipo da neoplasia no pâncreas. Ela tem histórico familiar do mesmo tipo de câncer e sabe que a alimentação influencia no desenvolvimento da doença. Depois que descobriu o câncer, mudou os hábitos alimentares. Evita tomar refrigerantes e comer alimentos enlatados e gordurosos. Hoje come mais saladas e alimentos saudáveis.

“Logo no início é desesperador, mas graças a Deus tenho uma família muito unida, que me deu bastante força e o primeiro impacto é o desespero. Só que você não pode permanecer no desespero. É um momento provisório. É ter fé e fazer o tratamento. Depois foi mais fácil depois que coloquei na mente que tenho que lutar”.



Já a agente de saúde Adalgisa de Melo soube do primeiro câncer no intestino há dois anos. No seu caso, os médicos lhe informaram que teria sido por conta da alimentação. Ela percebeu sangramento no reto – um dos sintomas da doença – e procurou um especialista que recomendou o exame de colonoscopia que detectou um tumor maligno entre o reto e o sigmóide. Em seguida, fez a cirurgia e iniciou a quimioterapia. Após três meses de operada, ela descobriu um nódulo na mama, mas de tipos diferentes. “Estou tomando quimio, vou tomar um ano de vacina e cinco anos de comprimido. Em outubro termino a vacina e só em 2020 termino os comprimidos”, conta.

“Eu não tinha tanto acesso a essas comidas (enlatados) porque é de mim não gostar, mas tinha um porém eu comia muitas frutas, verduras, mas não tinha aquele cuidado que eu tenho hoje de colocar de molho para lavar, para depois esse fazer todo esse processo. Mas antes não. Na feira mesmo pegava uma fruta e comia. Daí está todo o perigo dos agrotóxicos. Isso influenciou porque eu não sou fumante e nenhum vicio e na minha família todos fumam e ele falou que o meu problema foi da alimentação”.



O perigo do suco em caixa

O alto consumo de alimentos industrializados tem contribuído para a má alimentação da população. Os alimentos considerados práticos (ultraprocessados) e outros possuem uma grande quantidade de calorias. As pessoas estão saindo do refrigerante e optando por bebidas açucaradas (sucos e refrescos em embalagens tetra pak). “E ali fruta mesmo é uma quantidade muito pequena e é preciso alertar para isso porque as pessoas acham que estão consumindo coisas saudáveis e na verdade não estão. Então toda essa variedade que as indústrias vêm oferecendo a população. Isso tem feito um estrago muito grande pela facilidade de consumir, de encontrar e consumir”, alerta.

Prevenção. Ainda não há um nível seguro do consumo de bebida alcoólica que determine a quantidade que pode contribuir para o desenvolvimento do câncer. “É bom pontuar que quando se fala alimentação previne e alimentação é risco, na verdade estamos falando de uma alimentação que pode desenvolver e pode aumentar o desenvolvimento de determinados tipos de câncer porque o câncer é uma doença prevenível, muito importante está frisando porque a população não reconhece o câncer como uma doença prevenível assim como ela já relaciona o diabetes, a hipertensão, da mesma forma a gente vem buscando esse reconhecimento social na população”, recomenda a nutricionista.

De acordo com Sueli Couto, as neoplasias podem ser detectadas precocemente. Lembra a necessidade de adotar novos hábitos de vida e comenta que a obesidade, por exemplo, está associada aos cânceres de mama, próstata, fígado, pâncreas, esôfago e outros relacionados ao trato digestivo (boca, faringe, estômago). A carne vermelha, por exemplo, contribui para o desenvolvimento em cólon e reto (câncer de intestino). Muitas informações sobre alimentação e cuidados podem ser acessadas nessa página do Inca.

“O que se recomenda é uma variedade de frutas, verduras, legumes, cereais integrais, feijões (todos os tipos)”, disse, acrescentando que no Brasil, é tradicional o hábito de comer feijão e arroz, mas essa dupla está caindo no interesse por conta de dietas de modas porque afirmam que engorda. Quando na verdade aqueles que engordam são outros alimentos e não um prato colorido com arroz e feijão. Em relação aos agrotóxicos, fala que é necessário que se busque mais produtos orgânicos, mas frisa que não pode impedir que a população consuma por conta do alto custo.

Forma de preparo de comida oferece risco de câncer

Não apenas a quantidade e a qualidade dos alimentos influenciam no desenvolvimento do câncer, mas também a forma de preparo das carnes, por exemplo. O churrasco, as carnes grelhadas e fritas têm maior quantidade de substâncias cancerígenas que poderão vir a desenvolver cânceres como das aminas heterocíclicas. A nutricionista Sueli Couto informa que qualquer carne submetida elas produzem uma substância que é cancerígena e isso tudo influencia’, afirma. Lembra a necessidade de ter um hábito mais saudável de cozinhar os alimentos como se fazia antigamente as avós, seria resgatar a cultura da família, principalmente as crianças, ir para a cozinha e preparar os alimentos.

Alimentação saudável não isenta de ter câncer

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Existem vários fatores que podem ocasionar o câncer, mas a oncologista Dalva Guedes Arnaud, informou que a alimentação é importante para prevenção da doença. Ela recomenda que se evitem alimentos gordurosos para determinados tipos de câncer como de mama e carnes vermelhas para o de intestino. Observa que não é que uma pessoa que consome apenas vegetal lhe impeça de ter a doença.

“Você ter uma alimentação saudável não vai isentar que você tenha câncer”, frisa. Em relação aos alimentos com agrotóxicos, disse que é bom, mas o custo é alto. “Mas a gente sabe que os alimentos com agrotóxicos não são bem vindos”, comenta.

Ainda de acordo com a oncologista, o recomendável e buscar frutas e verduras da safra porque também têm preços mais acessíveis e é possível consumir em maior quantidade. Além disso, orienta a questão do fumo e da ingestão de bebidas alcoólicas que podem influenciar no aparecimento da doença.

Paraíba: 8.250 novos casos de câncer no geral, segundo Inca para este ano

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Endereço online: alimentação, prevenção do câncer

www.inca.gov.br/alimentacao 

Melhora na qualidade de vida influencia na prevenção de cânceres

A busca por qualidade de vida é um dos fatores que pode influenciar na prevenção de inúmeros casos de cânceres. Adotar uma rotina frequente de exercícios físicos, assim como uma boa alimentação, é fundamental para que o corpo se mantenha saudável. E, para que isso aconteça, medidas simples e diárias podem mudar a saúde, além de proporcionar longevidade, como explica a nutricionista do Hapvida Saúde, Tanara Ferreira.

“As frutas e verduras são essenciais para uma alimentação saudável. Estudos afirmam que estes alimentos podem ajudar a prevenir patologias importantes, como as doenças cardiovasculares e certos tipos de câncer, principalmente do trato digestivo. A baixa ingestão de frutas e verduras causa 19% do câncer gastrointestinal, 31% das cardiopatias isquêmicas e 11% dos acidentes vasculares cerebrais. Cerca de 2,7 milhões de óbitos podem ser atribuídos à baixa ingestão desses alimentos”, afirma.

Tanara Ferreira esclarece que a alimentação adequada, associada da prática diária de atividades físicas, contribui para a redução da gordura corporal e melhora o metabolismo da glicose. “Alimentos ricos em gorduras, como carnes vermelhas, frituras, molhos com maionese, leite integral e derivados, bacon, presuntos, salsichas, linguiças, mortadelas, entre outros, devem ser ingeridos com moderação ou, até mesmo, evitados”, orienta.

O modo de preparo das refeições também precisa ser analisado, uma vez que o processo de fritura, por exemplo, por ser feito em alta temperatura pode criar compostos que elevam a chance de câncer no estômago. Por isso, a nutricionista ressalta que os métodos de cozimento que usam baixas temperaturas, como vapor, fervura, ensopados, guisados, cozidos ou assados, são as escolhas mais saudáveis. Além disso, é necessário ter cuidado com a ingestão de suplementos e vitaminas em comprimidos. “Os nutrientes protetores só funcionam quando consumidos por meio dos alimentos. O uso de vitaminas e outros nutrientes isolados na forma de suplementos não é recomendável para prevenção do câncer”, frisa.

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