terça, 22 de outubro de 2019
São João
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Um amor que se chama quadrilha

Katiana Ramos / 16 de junho de 2019
Foto: Secom-JP
Para eles, o ano inteiro é de festa junina. Uns dois meses de folga e todos estão prontos para o próximo São João. Assim é a rotina dos quadrilheiros da Paraíba. Mesmo com pouco recursos, eles se desdobram para dar o melhor nos palcos. São minutos que valem a dedicação ao longo do ano.

Luciano Dantas participa com toda a família da quadrilha junina mais antiga do Brasil em atividade, a Lageiro Seco. O grupo tem sede no bairro do Roger, em João Pessoa, e existe há 72 anos. Luciano Dantas começou na quadrilha aos 17 anos e, atualmente, é o vice-presidente do grupo, do qual participam ainda o irmão, a esposa, a cunhada, e os pais. “A gente leva a sério a competição e, consequentemente, o amor pela quadrilha. Ensaiamos o ano inteiro, nos dedicamos pensando os temas, o figurino, a coreografia. Sacrificamos finais de semana, feriados. No meu caso mesmo, eu dou aula o dia todo e a noite sempre faço alguma coisa pela quadrilha”, revelou o quadrilheiro, que está há 21 anos na Lageiro Seco.

Na mesma paixão pelas festas juninas e cuidado para fazer o melhor espetáculo e levar apresentações diferenciadas ao público estão os integrantes da quadrilha Sanfona Branca, fundada há 14 anos no bairro de Mangabeira 1, também na Capital. O nome da junina diz tudo: uma homenagem ao forró e ao rei do baião, Luiz Gonzaga, e a um dos seus sucessos, ‘Asa Branca’. “Foi meu pai quem começou essa quadrilha, formada, inicialmente, por pessoas do bairro de Mangabeira. Depois foi se expandindo e hoje temos integrantes de vários bairros daqui e até de cidades vizinhas, como Bayeux e Santa Rita. São pelo menos 130 pessoas que se doam o ano inteiro para que o espetáculo possa acontecer. É uma coisa que não tem como explicar”, contou Wallison Pedro, presidente da Sanfona Branca.

A quadrilha coleciona quatro vezes o título de campeã do Festival Municipal de Quadrilhas de João Pessoa, sendo a primeira colocada duas vezes seguidas, em 2017 e 2018. Assim como Luciano Dantas, Wallison Pedro também concilia as atividades da vida profissional com a quadrilha. Mas, o melhor lazer, para ele, é organizar a quadrilha.

Figurinos são destaque



Além da alegria e harmonização na coreografia dos dançarinos, o figurino é um dos destaques que prende a atenção do público nas apresentações das quadrilhas juninas. Por trás de babados, bordados e modelagens impecáveis o trabalho de quem está nos bastidores: as costureiras e costureiros.

Fundada há dez anos no bairro de Mandacaru, a quadrilha Flor de Mandacaru tem como costureira oficial Nil Pinheiro, que desempenha essa profissão há 45 anos. Para ela, a mesma alegria dos dançarinos ao entrar no pavilhão para mais uma disputa é ver que o seu trabalho, feito com tanta dedicação, também está literalmente desfilando.

“Eu gosto muito de quadrilha, de caprichar nas roupas deles. No começo eu costurava as roupas de todo mundo. Mas, tive um AVC e de uns anos pra cá faço só as peças das meninas, porque elas não querem que outra pessoa faça. Recebo os desenhos, os tecidos e faço tudo. Acho muito bonito quando vejo que o que eu fiz deu alegria pra eles”, contou a costureira que leva cerca de um mês para costurar os vestidos.

Ricardo Félix, presidente da Flor de Mandacaru, reforça que o intuito da quadrilha, a cada preparação para as apresentações, é manter viva a cultura do bairro e ainda incentivar os jovens a participar do grupo e fugir das drogas. Ao todo, segundo ele, são 89 pessoas na junina.

Dos bairros para os grandes palcos



Até a década de 1990 a tradição de quadrilhas de bairros com palhoças montadas no meio da rua, que eram decoradas com bandeirolas juninas era uma realidade em praticamente todos os municípios da Paraíba. De lá pra cá, os grupos saíram do aspecto de festa de bairro e mais interioranos para ganhar palcos nos shows das festas juninas nos centros das cidades, como acontece em João Pessoa, Campina Grande, Patos, Santa Luzia. As quadrilhas mudaram de estilo ao longo desses últimos anos, mas ainda conservam traços da cultura popular.

“Só em Campina Grande, tínhamos uma média de 700 a 800 quadrilhas que vinham dançar nos bairros da cidade. De 1996 pra cá esse número reduziu para, no máximo, 15 quadrilhas. Na época (década de 1990) havia estímulos para fazer as quadrilhas nos bairros. Depois que a festa de São João mudou-se para o Parque do Povo, concentrou-se tudo lá. Isso foi ‘matando’ as tradições das quadrilhas nos bairros de Campina Grande”, explicou o pró-reitor de Cultura da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), Cristóvão de Andrade.

Ele considera ainda que o processo de ‘industrialização’ do São João, que tem como característica principal a concentração da festa em um só local, ocasionou também a falta de motivação de criação de quadrilhas juninas nas escolas. “Essas transformações das quadrilhas aconteceram também em João Pessoa, Bayeux, Santa Rita, Cruz do Espírito Santo. Algumas cidades ainda mantém quadrilhas tradicionais, com palhoças, mas são raríssimas exceções. Outro fator que colaborou para a mudança cultural das quadrilhas é a falta de investimento, apoio financeiro. São poucos os municípios que ainda fazem alguma coisa pela tradição das quadrilhas”, comentou o pesquisador.

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