sábado, 21 de setembro de 2019
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Rio Paraíba é meio de sobrevivência de muitas pessoas

Aline Martins / 07 de abril de 2019
Foto: Assuero Lima
“Já saí daqui e fui morar em outros locais, mas sempre volto para a mesma casa. Aqui é o meu lugar, onde eu me sinto bem. Tenho um carinho especial que não sei explicar”. A afirmação é da dona de casa Elisângela Ferreira da Silva, 39 anos, que tem como cenário da porta dos fundos da sua casa, no município de Bayeux, na Região Metropolitana de João Pessoa, o Rio Paraíba. As comunidades ribeirinhas e o modo de sobrevivência, através da pesca, são assuntos de mais uma reportagem da série “Paraíba, o rio”. A ação faz parte do novo projeto da Fundação Solidariedade, braço social do Sistema Correio, que busca o desenvolvimento sustentável das comunidades instaladas às margens do estuário do Rio Paraíba.

Nos períodos em que as águas do rio sobem mais do que o esperado inundam as moradias. “Do tempo que moro aqui já passei por três. Perdi móveis. Algumas pessoas doaram algumas coisas e aos poucos fui conseguindo o que tinha perdido. Ficamos nos colégios do município esperando a água baixar. Depois disso, todos os moradores voltaram para suas casas. Aqui não tem mosquito ou cheia que me afaste desse lugar”, relatou Elisângela, que embora more nas margens do Rio Paraíba não pesca. O esposo e o filho mais velho praticam essa atividade. “Hoje ele está empregado, mas quando não tem emprego é para aqui que a gente corre para ganhar alguma coisa. É daqui que sai o sustento de muitas pessoas. A salvação é o rio”, frisou.

Para o professor da pós-graduação em Ecologia e Conservação da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), o doutor em Ecologia e Recursos Naturais, José Etham de Lucena Barbosa, a ocupação nas margens do Rio Paraíba é antiga e faz parte da história da fundação da cidade de João Pessoa, que antigamente chegou a ser chamada de Parahyba, mas se deu de forma desordenada. Para que isso ocorresse de forma organizada, seria necessário a aplicação de planos diretores – um instrumento de política urbana instituído por lei – que deve impor regras no processo de urbanização das cidades. O processo de ocupação é datado do século XVI, com o início da instalação de engenhos nas várzeas.

“Recentemente, o Conselho Estadual de Recursos Hídricos começou a fazer um novo Plano Estadual de Recursos Hídricos repensando várias ações. Isso é muito importante. Nós precisamos de um zoneamento ambiental. Saber exatamente o que cultivar na bacia. A gente pode cultivar arroz em cima de pedra. Não dá. Quais são as vocações propriamente da bacia?”, comentou.

Ainda de acordo com o doutor em Ecologia e Recursos Naturais, na bacia do Paraíba a concentração de minérios pode servir de exportador de pedras ornamentais, por exemplo.

“Isso tem que ser amplamente organizado, dentro de princípios sustentáveis. O próprio leito do rio, em termos de exploração de areia, é um exemplo disso. A mineração é um vetor importante da economia dessa bacia. O cuidado permanente das suas margens, da mata ciliar – o repositório de água porque a vegetação é a fábrica de água e isso já é uma compreensão mundial – é extremamente importante”, frisou.

É na bacia do Rio Paraíba onde se localizam cidades de adensamento populacional expressivo do Litoral e do Agreste. “Essa bacia tem grandes potencialidades, mas também têm os seus desafios que não são poucos. Haja vista que desde a sua colonização, ela remanesce num passivo ambiental, um passivo econômico, um passivo social que foi repassando de época para época e muitos dos seus problemas não foram resolvidos. Hoje os problemas estão aí para a sociedade atual resolver e os gestores equacionarem essas questões”, afirmou, destacando que há pontos positivos como a Agenda 20/30 – que propõe objetivos e metas – aderida pelo Governo da Paraíba e que busca uma agenda do desenvolvimento sustentável.

A TV Correio e a Fundação Solidariedade produziram uma série de matérias sobre o Rio Paraíba e seu estuário. O CORREIO e o Portal estão produzindo textos exclusivos sobre o tema.

"Com vegetação a gente consegue produzir água, consegue manter o clima úmido, consegue transformar regionalmente os aspectos gráficos e físicos do meio ambiente. Então é importante os processos de conservação e preservação das unidades ambientais do Estado." - José Etham de Lucena Barbosa, professor da pós-graduação em Ecologia e Conservação da UEPB, doutor em Ecologia e Recursos Naturais

Pesca do marisco



Aos 15 anos de idade, a pescadora Lielma Herculano da Silva, de 34 anos, começou no ofício por influência da família que ia para o rio em busca do alimento e do sustento financeiro. “Aprendi desde cedo que o rio traz o nosso pão de cada dia. Se a gente não for, a gente não ganha e também não come”, ressaltou. Assim como ela, outras famílias, que moram nas margens do Rio Paraíba, também sobrevivem da pesca. O marisco é o fruto mais pescado pelos marisqueiros da Região Metropolitana de João Pessoa. Na Rua Porto do Moinho, no Centro de Bayeux, muitos moradores sobrevivem dessa atividade. Além disso, nesse trecho difícil é encontrar quem não tenha vivido histórias de brincadeiras, na infância ou adolescência, nas margens do Rio Paraíba.

O jogador de futebol Danilo Oliveira, 19 anos, é um dos moradores que nadava com frequência no rio. “Quando criança, eu e meus amigos brincávamos direto aqui. Era bom demais. Aqui era bem estreito, não fica muito perto das casas não. Depois, com o tempo, foi ficando largo”, relatou.

Hoje, por estar apenas treinando, porém em nenhum time profissional, o jovem ajuda a mãe a complementar a renda com a pesca do marisco. Ele, desde criança, também aprendeu com a mãe, que é uma pescadora, a pegar a canoa e ir em busca do sustento. Os dois saem quase todos os dias para trechos do Rio Paraíba entre João Pessoa e Cabedelo para encontrar o marisco, que não encontram mais próximo de onde residem.

“Hoje a gente não encontra perto de casa. Tem que ir para mais longe, quase em Cabedelo, para poder pegar algum marisco. Minha mãe sempre pescou marisco e aprendi com ela a pescar, lavar e fazer todos os processos antes de vender”, comentou Danilo Oliveira.

Enquanto o emprego formalizado em carteira não chega, Marcone Cavalcante dos Santos, 39 anos, recorre ao Rio Paraíba para pescar e buscar o sustento diário. “Só com a pesca não dá para sobreviver, mas quando a gente não tem emprego a solução é vir para o rio. Mas as coisas mudaram muito durante os últimos anos. Antigamente a produção era boa. Tinha dia que a gente pegava 30 kg de marisco. Hoje você só consegue 5 kg e olhe lá. Tem que ir para muito longe”, comentou. Ele reclamou que os resíduos sólidos e os esgotos ainda são frequentemente encontrados em vários trechos da bacia do Paraíba.

Desde os 9 anos de idade, o autônomo Pedro Claudino da Silva, 50 anos, mora no entorno do Rio Paraíba, em Bayeux. “Eu tomava muito banho nesse rio. Era uma diversão. Aqui tinha muitos pescadores até uns 20 anos atrás. Hoje tem menos. Vinha gente de Santa Rita e daqui de Bayeux mesmo. Eu pesquei pouco. Gostava mais de limpar as canoas para ganhar um trocado”, contou.

Embora não pescasse, Pedro contou que aprendeu a produzir canoas. Hoje, por estar desempregado, apenas faz ‘bicos’ com a montagem de canoas. Ele relata que, além do peixe, antigamente também se pegava camarão e caranguejo no trecho. Hoje praticamente não se encontra mais. Em relação ao local, ele comentou que para afastar os mosquitos se fazia fogueiras. “Hoje as coisas mudaram. Temos água encanada, luz e o ventilador para espantar um pouco. Tem semana que tem mosquito, outras não tem”, disse. Atualmente, Pedro vive do aluguel de casas e da produção de canoas.

"Antes a gente pegava muito marisco, vendia e até sobrava para dar aos amigos, mas hoje a gente só vê é muito lixo que é jogado no rio." - Marcone Cavalcante dos Santos, marisqueiro

Despejo de esgoto e lixo



Em vários trechos da bacia do Paraíba é comum que os resíduos domésticos e os esgotos ainda tenham como destino final o rio como pode ser visto em Bayeux.

Para o professor da pós-graduação em Ecologia e Conservação da UEPB, doutor em Ecologia e Recursos Naturais, José Etham de Lucena Barbosa, falta os poderes públicos solucionarem esses problemas. Ele comentou que em alguns trechos próximos ao Rio Paraíba há a presença dos lixões – um problema antigo e que muitas cidades ainda não conseguiram resolver. “É necessário equacionar esses problemas”, frisou.

Além desse problema, o especialista ressalta que 86% da bacia está localizada em área Semiárida. “Muito pouco está localizado no Litoral. O restante dela está no Semiárido, que tem o problema crítico de água. Hoje temos a Transposição, que é um outro vetor de transformação, de desenvolvimento e de segurança hídrica, mas também com ela vieram problemas do próprio São Francisco, que foram e ainda são repassados para a bacia do Rio Paraíba”, afirmou.

Segundo o doutor em Ecologia e Conservação, é necessário ter o empenho dos poderes públicos para a implantação de políticas públicas voltadas para um desenvolvimento mais sustentável da bacia.

“Porque ela merece por conta dos aspectos históricos, da importância econômica e social. Ela é o grande motor, o grande dínamo de transformação e manutenção deste Estado. A Paraíba tem que se voltar a políticas estruturantes que tirem o próprio o Estado de indicadores que ainda nos amarram, nos prendem. Nós temos que entrar no século 21 de uma maneira positiva, de uma maneira original, transformadora, para tentar de maneira sustentável equacionar os grandes gargalos sociais e econômicos da nossa sociedade”, finalizou.

"A bacia do Paraíba tem uma grande importância. Se fôssemos fazer uma analogia entre o Rio Paraíba e o ser humano, os nossos rios seriam o nosso sistema circulatório e certamente o Rio Paraíba seria a veia aorta, que é a veia mais pujante, mais capilar dessa economia, dessa sociedade, deste meio ambiente." - José Etham de Lucena Barbosa, professor de pós-graduação da UEPB e doutor em Ecologia e Recursos Naturais.

Cagepa e Sudema



O CORREIO entrou em contato com Cagepa, que respondeu através de nota, que o caso dos esgotos cabe aos órgãos ambientais fazer algum tipo de fiscalização. A nota ainda diz que o esgoto coletado pela Companhia – nas localidades que possuem sistema de esgotamento – são transportados e tratados nas estações de tratamento. Nas localidades em que não há sistema, o morador deve destinar seus dejetos para fossas sépticas. Já a Superintendência de Administração do Meio Ambiente (Sudema) repassou, por meio da assessoria de comunicação, que a responsável pelos resíduos sólidos, Maria Aparecida Correia, foi consultada e que ela informou que não há levantamentos sobre o lançamento de lixo ao longo do leito do Rio Paraíba e que cabe às prefeituras o gerenciamento dessa atividade ilícita. Sobre o esgotamento sanitário, a responsabilidade é da Cagepa.

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