domingo, 29 de novembro de 2020

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Respeitem meus cabelos, brancos: a negritude de Chico

Rammom Monte / 20 de novembro de 2015
Foto: Divulgação e Rafael Passos
Em 2009, o cantor paraibano Chico César lançava a música “Respeitem os meus cabelos, brancos”. A frase, feita há seis anos, poderia se encaixar perfeitamente nos dias atuais. No dia 20 de novembro comemora-se o Dia da Consciência Negra, mas o que vem sendo visto nos últimos meses não tem sido muito motivo de comemoração. Como um dos representantes dos negros na música brasileira, Chico César fala sobre os preconceitos que sofreu durante toda a carreira e como a negritude é presente em seu vasto trabalho.

“Fui alvo de preconceito racial. Creio que o fato de ter sido preso no Batalhão da Polícia Militar em Catolé do Rocha, aos 16 anos de idade, e terem cortado o meu cabelo e darem banho de água gelada, quando fui dar queixa de um soldado da corporação, tem a ver com isso. Com o fato de eu ser negro. A vida toda é assim, mas nunca me amofinei, nunca me escondi, nunca aceitei. Claro que a prisão aí foi um caso extremo, mas várias vezes fui parado pela polícia em João Pessoa e depois em São Paulo. O aparelho repressivo é a mão mais pesada do sistema racista, herdeiro dos tempos de escravatura. Mas é como um polvo, tem várias mãos. Cada uma com seu martelo”, disse.

Outro setor apontado por Chico César como segregador é o da educação. Segundo ele, em toda a sua trajetória ele se deparou com poucos negros frequentando as universidades. “Quanto mais eu estudava, menos gente negra eu fui encontrando pelo caminho. Na universidade praticamente não havia professores negros, havia pouquíssimos estudantes negros. Mas havia muitos funcionários nas funções de limpeza. Isso sempre me incomodou”, afirmou.

Em meio a tantos episódios recentes de discriminação racial, principalmente por meio das redes sociais (como nos casos da atriz Taís Araújo e do jogador de futebol Michel Bastos), Chico César acredita que o número de casos vêm crescendo cada vez mais exatamente por conta das recentes conquistas dos negros, como também dos homossexuais e das mulheres.

“O “avatar” é uma máscara que não encobre tudo. Acho que as pessoas reacionárias estão ficando muito à vontade para expressar seu desprezo pelas conquistas recentes dos pobres, das mulheres, dos trabalhadores, dos homossexuais. Eles já estão indo pras ruas, mostrando a cara. Acho bom, para podermos identificar quem são, vigiá-los e denunciá-los. É bom não deixar passar nada”, declarou.

O negro no trabalho de Chico César

E não é só nos discursos que Chico César expressa sua negritude e o apoio à raça. O negro é constantemente apresentado na sua arte, como nas músicas “Respeitem meus cabelos, brancos”, “Mama África”, “A alma não tem cor” e “Negão” e também no nome do disco “Cuscuz Clã”, uma referência à Ku Klux Klan (KKK), organização americana declaradamente racista. Segundo o cantor, uma forma de combater todo esse preconceito é através da educação.

“Sempre canto a negritude. Neste disco mesmo, canto "Negão", com o grande cantor baiano Lazzo Matumbi. Penso que a Educação com "E" maiúsculo é o melhor caminho. Trazer os temas da herança africana e indígena para dentro da sala de aula desde cedo, desde a escolinha, o jardim da infância. E acho que também seria bom levar os filhos da elite, os herdeiros das capitanias hereditárias para fazer estágios no trabalho braçal. Quem sabe assim eles aprendem a valorizar, percebem a importância das pessoas que o fazem quotidianamente”, sugeriu.

Ele relatou ainda de onde vem a inspiração para fazer suas músicas e, principalmente incluir o negro em seu trabalho.

“Eu não vejo a questão do negro separada - vejo num bojo, num pacote injusto. Minhas maiores influências são homens negros nordestinos: Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, João do Vale. Penso que o forró, que tanto traduz o Nordeste, é música negra. Trio Nordestino, Pinto do Acordeon, Os três do Nordeste. É tudo negro! Eles me influenciaram não apenas com a música, mas principalmente com a coragem de desafiar o predomínio do Sudeste branco nos meios de comunicação, na indústria. Isso me influencia muito”, relatou.

Ele ainda listou outras personalidades negras que o inspiram.

“De cara penso em João Balula, minha prima Bidia (líder do movimento negro em Catolé do Rocha, uma nega zoadenta!), Escurinho, Pedro Osmar, Paulo Ró. Tenho saudade de Mestre Carboreto, que me tratava como irmão. Eu queria muito bem a ele, até fizemos um trabalho junto”, disse.Escurinho 230313RafaelPassos 02

O negro na sociedade

Para Chico, o negro já conquistou muito espaço na sociedade, mas ainda falta avançar muito mais. Ele cita que em alguns lugares isto já está mais avançado em relação a outros.

“Acho que ainda falta muito. Até os Estados Unidos já elegeu seu presidente negro. Falta isso em Salvador, em João Pessoa, Em Recife. E pensar que até São Paulo já teve seu prefeito negro. O importante é que os negros se coloquem nos pólos de decisão, na indústria, nas gestões, no planejamento, nas finanças, nas universidades”.

E no dia em que se comemora a Consciência Negra (marcada pela morte de Zumbi dos Palmares), Chico César deixou um recado para todos. Segundo ele, o primeiro passo é se ter uma consciência humana.

“Primeiro deve vir a consciência de que somos humanos e de que o que reivindicamos é a humanidade que nos roubaram e que nos negam até hoje”.

Afinal de contas, como cantou o próprio Chico: “Percebam que a alma não tem cor. Ela é colorida. Ela é multicolor”.

Números

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2014 a Paraíba tinha 263 mil pessoas negras em todo o estado. No Brasil, são 17.430 milhões de negros. De acordo com o Mapa da Violência de 2014, na Paraíba, para cada branco que morre vítima de homicídio, morrem 13 negros na população total. Muito mais ainda na população jovem. Para cada jovem branco assassinado, morrem 22 jovens negros, praticamente o dobro que na população total, evidenciando os sérios problemas enfrentados pela juventude negra do estado.

Em relação às mulheres negras, o Mapa da Violência 2015, divulgado neste mês, mostrou que em 2013, 12 mulheres brancas foram assassinadas. Já quando se trata de mulheres negras, o número é de 104 homicídios, o que representa uma diferença de 866,66%.

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