terça, 11 de maio de 2021

Religião
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Descubra o que mudou na Páscoa após milhares de anos

Francisco Varela Neto / 14 de abril de 2017
Foto: Arquivo
Semana Santa ou simplesmente Páscoa. A data em que os cristãos lembram a paixão, crucificação, morte e ressurreição de Jesus Cristo, por meio de diversos ritos religiosos sofreu diversas transformações ao longo dos milhares de anos que já se passaram. Desde a vinda de Jesus, os rituais e devidas homenagens ao Senhor têm mudado e sofreram alterações diversas, seja por interesses comercias, ou por imposições das religiões que seguem o cristianismo. Para a maior religião seguidora do cristianismo, que é o catolicismo, as mudanças não foram tantas. No entanto, essa visão vai de encontro com a de estudiosos que relatam que as transformações são inúmeras.

Segundo o professor e fundador do curso de Ciência das Religiões na Universidade Federal da Paraíba, Severino Celestino, a Páscoa não é cristã. De acordo com ele, é uma data judaica e é preciso entender a história para que fique claro todos os acontecimentos e as mudanças que ocorreram.

Primeiro é importante lembrar que a Páscoa não é cristã, a Páscoa é judaica. A palavra pêssarr em hebraico, que significa passar por sobre, e está lá no Êxodo capítulo 12, significa ar, que é o que se chama a décima praga do Egito, aonde os hebreus pintaram suas casas com sangue, porque quando o espírito de Deus viesse passaria por sobre aquelas casas e não destruiria os primogênitos. Por isso que o povo recebeu a liberdade do Egito depois de 400 anos de escravidão, então aí começou o êxodo, que tem origem exatamente nesta palavra pêssarr”, explicou.

De acordo com o professor Severino, as comemorações no judaismo, diferente das outras religiões, mantêm as mesmas tradições ao longo da história. “O judeu ainda hoje comemora, ao contrário da era moderna, que mudou muita coisa, eles comemoram com o que chamam de seder, que significa ordem em hebraico. Então é uma comemoração, um ritual que relembra aquela época. Tem o ovo, tem um osso inteiro que não pode ser quebrado, porque o carneiro tinha que ser comido com a família, também com o pão sem fermento, que é o pão ázimo em hebraico”, explicou.

Transformação ao longo do tempo

O professor Celestino conta também que a comemoração da última Páscoa judaica foi feita na presença de Jesus Cristo e explicou a transformação que foi feita ao longo do tempo pela Igreja Católica. “Jesus como era judeu comemorou a última Páscoa judaica com os discípulos. Se você pegar lá no evangelho, os discípulos dizem assim: mestre onde vamos comemorar a festa dos ázimos? Porque a festa dos ázimos é a festa do pêssarr ou da páscoa judaica. Então Jesus comemorou a páscoa judaica", relatou.

Ele ainda segue questionando. "Agora o que é que a igreja transformou? O que acontece é que Jesus comemorou aquela páscoa no sentido de que o espírito de Deus passou sobre o Egito e libertou os seus ancestrais da escravidão. Agora a igreja diz que a páscoa significa passagem da morte de Jesus para a sua ressurreição, este é o conceito cristão”, afirmou.

E a análise feita pelo professor é que isso aconteceu porque Jesus introduziu coisas novas naquela páscoa. “Ele introduziu o lava-pés, mostrando que nós precisamos ser humildes, porque o lavar os pés era um símbolo natural daquela época em que os senhores que chegavam de viagem, e como as estradas eram poeirentas e eles andavam de sandália, então o escravo vinha lavar os pés dele, e Jesus como se fosse escravo de todos eles, pegou uma toalha, lavou os pés dos discípulos e disse: eu faço isso para que vocês também façam uns aos outros", relembrou.

Para Serverino Celestino, Jesus usou uma festa tradicional judaica para inovar uma mensagem de humildade, de fraternidade e de servidão para os seus discípulos. "Ele também comemora o vinho, mas o vinho não é como a igreja introduziu. No judaísmo a primeira benção é com o vinho, que eles dizem uma mensagem em hebraico, que significa: graças ó Deus nosso Senhor, porque nos desse o fruto da videira. Essa é a oração do judeu. Primeiro a oração do vinho e depois do pão, que o pão é partido, molhado no sal e distribuído, isso na judaica. No cristianismo, se inverteu. Primeiro é o pão, a bênção da hóstia depois o vinho. O judeu comemora sua festa no sábado, a igreja criou o domingo, então a partir da origem já tem diferença’’, explicou.



Interesses comerciais interferindo

De acordo com o professor, um dos fatores que alterou as tradições ao longo dos séculos foi o econômico e, segundo ele, o verdadeiro significado da páscoa foi ficando esquecido. Dentro desse contexto ele fez uma análise de duas das tradições mais populares da páscoa atualmente, que é o fato de não comer carne e a tradição dos ovos de chocolate.

“Aí vem a questão do mercantilismo na páscoa. Na minha época de criança, não se podia comer carne, que foi uma indução da igreja católica, porque não tem nada no evangelho que se proíba comer carne, muito menos Jesus. O judeu tem o ritual para comer carne, ele não come é sangue, mas a carne ele come. Então isso foi uma coisa que foi surgindo com o tempo, com os costumes, e com os interesses comerciais, porque a páscoa é uma festa espiritual, que não era para ser envolvida com ovo nem muito menos com coelho. Aonde é que coelho põe ovos? Então são muitas coisas que as pessoas nem se preocupam de refletirem e acabam adotando, porque o interesse é puramente comercial”, afirmou o professor.

Ovos de páscoa

O professor também fez uma explicação do tão tradicional costume de comprar ovos de chocolate na páscoa. De acordo com ele a tradição vem do Egito e de Roma.  “Os egípcios, os romanos, já pintavam ovos e davam de presente as pessoas, mas isso não tinha nada a ver com páscoa. No ocidente surgiram lendas, porque o ovo que está lá, o ovo cozido que tem na cerimônia da páscoa judaica, simboliza a oferta no tempo, mas o ovo que tem na páscoa cristã tem outro significado, que as pessoas copiaram aquela ideia de pintar ovos pra dar de presente, e aí tem várias lendas. A principal é que eles deixaram aqueles ovos em um canto e um coelho passou e espalhou os ovos e todo mundo achou que o coelho que tinha posto os ovos, aí ligaram o ovo de chocolate ao coelho da páscoa, mas isso são inovações comerciais”, disse.

Verdadeiro significado

Para o professor, mais do que seguir tradições e costumes, é preciso para quem é cristão, acima de tudo seguir aqueles valores que foram propostos por Jesus Cristo nos primórdios. “Para nós cristãos, páscoa não é simplesmente a passagem da morte para a ressurreição. Essa é uma visão da igreja católica. Agora eu falando como cientista e como cristão que sou, que aquela mensagem de Jesus é uma mensagem de mudança, que aquele acontecimento no cenáculo é uma marco entre judaísmo e cristianismo que a partir dali nós teríamos uma mensagem nova, de amor, de servidão de perdão, de compreensão e entendimento entre os seus sucessores e não simplesmente a ressurreição física dele porque isso nós sabemos que cientificamente é impossível”, ressaltou.



Padre acredita em poucas mudanças

Para a igreja católica, as mudanças não foram tão drásticas, o que vai de encontro com o que o professor diz. De acordo com o padre Rui da Silva Braga, da Catedral Basílica de Nossa Senhora das Neves, as mudanças que aconteceram na Semana Santa no decorrer dos anos foram mínimas. Para ele, o que aconteceu é que algumas celebrações é que mudaram.

“Eu acho que algumas maneiras de se celebrar é que mudaram. Por exemplo, o confessionário, que é uma peça de museu hoje. O confessionário é aquele móvel de madeira onde o padre ficava ali dentro com a cortina roxa escondendo o rosto do padre, onde ele não via o penitente e o penitente não via o padre, e hoje a gente tirou, ficou uma peça de museu e a gente se senta frente a frente com o penitente e a gente toca, pega na mão, bota a mão na cabeça, pergunta o nome. Então se a gente quiser considerar isso como uma mudança, eu consideraria como um avanço porque a gente tira uma barreira entre o confessor e o penitente e aproxima essas duas criaturas, aquele que dá o perdão em nome de igreja e aquele que pede o perdão. Eu acho que chegar mais perto das pessoas isso já é até um bálsamo, um alívio para aquele que vem tão carregado de pecado”, enfatizou.

O pároco também falou sobre a tradição de não comer carne, assunto o qual alguns bispos e arcebispos já se mostram mais flexíveis. Para o padre Rui, não adianta seguir uma tradição e não colocar em prática tudo aquilo que a igreja prega, por isso alguns líderes eclesiásticos já se perguntam se essa tradição é mesmo necessária.

“A gente vai refletindo sobre a importância da atitude do cristão. Não adianta não comer carne e não mudar de vida. É isso que a igreja reflete hoje, não que a igreja diga para você não fazer seu jejum, a sua abstinência. Não é isso que a igreja prega. O que ela prega é o seguinte: não adianta fazer jejum de penitência se o meu coração não muda, não é um pedaço de carne que vai fazer eu mudar de atitude, de maneira de ver as pessoas e de me converter, não é deixando de comer algo, uma comida, mas é deixando de praticar aquilo que é nocivo aos ouvidos de Deus e de seus relacionamentos com as pessoas", esclareceu.

De acordo com o sacerdote, a igreja nunca disse que seus fiéis não deveriam comer carne, para ele o que não se deve fazer é não comer apenas por tradição, o mais importante é a reflexão.

“Em momento algum a igreja disse não coma carne na Quarta-feira de Cinzas, na Sexta-feira Santa. Ela nunca disse isso! Ela apenas diz que não coma carne apenas por tradição, mas se tiver que fazer que seja por um exercício espiritual, capaz de mudar a sua vida, se não muda, coma quantos quilos de carne você quiser. Agora se a tua abstinência provoca em você uma mudança espiritual, continue fazendo, porque a penitência, o jejum, a caridade, é exatamente para que o nosso espírito se eleve, não é unicamente para você dizer que cumpriu a tradição, de forma alguma, a igreja continua dizendo, praticar jejum, praticar a caridade, as mesmas coisas, agora a reflexão sobre esta prática é que talvez tenha avançado", declarou padre Rui.

Verdadeiro significado na visão da igreja católica

O padre Rui ainda fez uma explicação do que significa a Páscoa na visão da Igreja Católica. “A páscoa é a festa maior do nosso calendário. Nós temos de 33 a 34 domingos por ano que a gente chama de o Ano Litúrgico, e todo dia a gente chama a Páscoa cotidiana de Jesus e no domingo, a Páscoa Dominical, a Páscoa semanal e uma vez por ano a gente celebra a Vigília Pascal, que é a festa do grande acontecimento que é a ressurreição de Jesus na madrugada do domingo, por isso a vigília, do sábado para o domingo", falou.

E a mensagem deixada por Jesus crucificado é a maior de todos os tempos, de acordo com o pároco. "É o filho de Deus, mesmo incompreendido pelos homens,  que se submete a passar pela cruz, morre e antes de três dias, ele ressuscita. Então a grande festa se dá exatamente nessa perspectiva que a gente guarda e que a gente acredita que vai acontecer, que é a gente morrer e ressurgir para a vida. Esse é o grande motivo de nós celebrarmos a Páscoa de Jesus. Não é um acontecimento lá de dois mil e poucos anos atrás, mas é uma certeza que cada cristão deve nutrir dentro de si, que morrendo, a morte é vencida e a gente ressuscita como o próprio Cristo prometeu”, finalizou.

Tradição católica permanece em muitas famílias



Apesar de tantas evoluções que ocorreram na história nas comemorações da páscoa, algumas famílias ainda trazem as tradições de suas gerações passadas e insistem em mantê-las e passá-las inclusive para seus filhos. É o caso da professora Luciene Balbino, que durante todas as páscoas, jejua, não come carne na Sexta-feira Santa e passa os dias em oração e retiro espiritual. Segundo ela, os costumes vêm de seu pai, que era um homem muito devoto.

“A tradição vem da minha família, da criação do meu pai que era um homem muito devoto e temente a Deus e nos ensinou todos os princípios que a igreja determina, que é o jejum, o fato de não comer carne, não reclamar da vida, sempre perdoar, viver uma vida em paz e principalmente fazer o bem sem olhar a quem”, disse.

A professora também explicou como era a tradição em sua casa nos “dias santos”. “Nós já seguíamos as tradições desde a quarta-feira, com orações e sem comer carne. Na quinta-feira já começávamos o jejum e na sexta-feira, ficávamos em abstinência de tudo e não podíamos nem tomar banho até as 11 horas da manhã. Depois segundo a tradição só podíamos comer até o limite de saciar a fome e desde que não fosse carne vermelha, comíamos peixe e se não tivesse dinheiro para o peixe, que é muito caro na Semana Santa, meu pai comprava frango, e durante todo o dia seguíamos em oração, seja por outra pessoa ou por penitência pessoal", conta a professora.

E o ápice de tudo era, sem dúvida, o domingo, dia da ressurreição de Cristo. "Já no Domingo de Páscoa, a família já podia fazer um banquete, com frutas, muita comida, tudo isso em homenagem a Jesus que ressuscitou no domingo. E até hoje é assim na minha casa com os meus filhos”, relatou.

Luciene também justifica o motivo de até hoje seguir os costumes e passá-los a seus filhos. “Eu resisto em mudar pela questão da fé, que é a base da nossa sobrevivência, e eu passo para os meus filhos. Todo ano eu relembro para eles para que entendam o significado da Páscoa e sigam a tradição também”, explicou.

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