segunda, 24 de setembro de 2018
Religião
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Com base no Judaísmo, Páscoa traz velhos e novos significados no Cristianismo

Rammom Monte / 25 de março de 2016
Foto: Rammom Monte
A Páscoa, assim como várias outras comemorações, acontece todos os anos. Porém,  diferentemente de outras datas comemorativas, como Natal, Réveillon e outras, a Semana Santa varia de um ano para o outro. Mas por que isto acontece? A resposta está há a mais de 3.500 anos, mais precisamente por volta do ano de 1.500 A.C. Em suma, a Semana Santa se baseia de acordo com o calendário Lunar, que diferente do calendário Solar, tem os meses com 29 dias e 12 horas, o que dá a diferença de um ano para o outro. Enquanto o ano Solar tem 365 dias e seis horas, o Lunar tem 354 dias. Por isto, sempre há esta diferença. Mas por que seguir o calendário lunar e não o solar? É exatamente aí que entra a data citada acima.

De acordo com o professor e fundador do curso de Ciência das Religiões da Universidade Federal da Paraíba, Severino Celestino, isto começou na época de Moisés, aproximadamente no ano de 1500 A.C. Segundo ele, o que representa a Páscoa é o calendário seguido pelos judeus, que é o lunar. Ele explica que isto começou com a liberação do povo hebreu do Egito para a Terra Prometida, narrada no livro Êxodo, da Bíblia. Segundo ele, a partir daquele momento o povo hebreu passou a ter sua própria história e ter o seu calendário, que no caso, foi o lunar.

“O que define é páscoa judaica, que é definida pelo livro do êxodo. O 12º capítulo do livro do Êxodo, no versículo 2º, está escrito “Este deverá ser o primeiro mês do ano para vocês”. Então, eles marcaram o mapa astral, primeiro dia da libertação do povo hebreu e começou a contar o calendário a partir dali. O ano começou ali. Então o ano tem 12 luas, ou 12 meses de 29 dias e 12 horas. O primeiro dia do ano lunar é o dia da Páscoa, porque comemora exatamente a liberação do povo hebreu, tudo começa ali. Há aproximadamente 1500 A.C”, explicou o professor, que disse ainda que a escolha do povo hebreu pelo calendário lunar é porque eles se baseavam através da lua, por serem um povo do deserto.

Por conta de ter um ano com uma quantidade de dias menor em relação ao calendário solar (354 contra 365 e seis horas), alguns anos do calendário lunar precisam contar com o 13º mês, o que explica, por exemplo, que tenhamos uma Páscoa em março em um ano e no outro em abril, e vice-versa. Acompanhando a variação da Semana Santa, o Carnaval também varia, sendo a quarta-feira de cinzas sempre 40 dias antes do domingo de Páscoa, período este conhecido como Quaresma.

A Páscoa

Diferente do que muitos pensam, a Páscoa não surgiu com o Cristianismo. De acordo com o professor, toda a raiz da Páscoa é judaica.

“Essa páscoa, embora seja uma páscoa cristã, não deixa de ter uma raiz judaica. Jesus nunca foi cristão, nasceu, viveu e morreu como judeu. Quem transformou Jesus em cristão, fomos nós, mas ele viveu toda essa história dele entre judeus. E tudo isto é uma festa muito grande, embora nós gostemos e queiramos separar, mas quando você vai estudar a Ciência das Religiões vê que uma coisa é ligada à outra. Dizem que Jesus celebrou a páscoa, mas que páscoa, a cristã ou a judaica?”, disse.

Outro ponto que há interpretação dupla é sobre o termo “páscoa”. De acordo com o professor, o termo vem da palavra hebraica “Pessach”, que significa “passagem, passar além”. E aí surge outro questionamento: passar de onde para onde? Segundo o professor, cada religião tem a sua interpretação sobre o termo:

“Para nós cristãos, a passagem de Jesus, a Páscoa que Jesus celebrou foi diferente, porque para o cristianismo a passagem dele significa da morte para a ressurreição. Já o judaísmo não diz isto. Os judeus veem a passagem da escravidão para a liberdade, o cristianismo vê a passagem de Jesus da morte para a ressurreição”, afirmou.

Domingo de Ramos

No último domingo (20), os cristãos comemoraram o Domingo de Ramos, festa em que se comemora a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, um evento da vida de Jesus. Acredita-se, que este evento tenha acontecido sete dias antes da Páscoa. Porém, o professor Celestino afirma que não e explica o porquê.

“A gente está acostumado a dizer que Jesus entrou ovacionado em Jerusalém no Domingo de Ramos, que foi uma semana antes da páscoa. Mas para o calendário judaico não. Jesus como judeu que era, entrou ali em setembro. A festa do Tabernáculos, que Jesus entra em Jerusalém, montado em um jumento. Aqueles ramos, que aqui o chamamos de Domingo de Ramos, aquilo é a festa da colheita. Simboliza a colheita e não os ramos como a gente traduz. E a festa da colheita é no mês de setembro. Jesus entrou aproximadamente no dia 24 de setembro. Para a páscoa,então, são sete meses e não sete dias”, explicou.

pascoasMontagemRituais da Páscoa

A diferença entre a Páscoa Judaica e Cristã não fica apenas nos significados dos termos, mas passa também pelos rituais. O professor Celestino listou algumas diferenças.

“São muito diferentes (as duas páscoa). Hoje, eles (os judeus) começam catando tudo que é fermento que tenha dentro de casa. Destroem tudo que é fermento, e durante uma semana só se come aquele pão. Um pão quadrado, que tem gosto de azulejo assado, tem gosto de nada, chamado "Pão de Ázimo”. Parece uma bolacha grande, só que sem gosto. O pão simboliza a pressa que foi comemorada a última páscoa. Depois vem o cordeiro. O cordeiro tem que ser assado inteiro, sem ter nenhum osso quebrado. E se a família fosse pequena e o cordeiro fosse sobrar, tinha que chamar outra família para comer junto, porque não podia sobrar nada.  Tem que comer em pé, com cintos amarrados, cajados na mão e prontos para partir. Então, na páscoa judaica hoje tem, o ovo, que é o símbolo da vida, tem ervas amargas, para simbolizar a escravidão. Tem o osso de cordeiro, tem o pão sem fermento, tem o vinho, que simboliza a riqueza da colheita, da fruta. Então, tudo eles têm simbologia. Tem até uma obra chamada Hagadá de Pêssach, que significa Narrativa da Páscoa . Ali tem tudo. Família reunida, todos oram juntos, relembram a escravidão do povo, relembram a história do primogênito, relembram tudo”, explicou, acrescentando que a festa dura sete dias (podendo ser até oito) e tem seu ápice no sábado, conhecido como shabbat.

Enquanto na páscoa judaica há todos estes elementos citados acima, na páscoa cristã, as únicas coisas em comum são o vinho e o pão.

“A diferença da nossa Páscoa para a deles é que nós temos o domingo da ressurreição, eles não têm isto. A festa deles é no sábado. Vai de domingo a sábado. O domingo é o primeiro dia da semana e, para o judeu, se trabalha. Só não se trabalha no sábado”, disse.

Outra coisa dita pelo professor é em relação ao consumo de peixe durante a Semana Santa e o jejum de carnes vermelhas. Para ele, isto é apenas uma criação do Cristianismo e que em nada tem a ver com a  Páscoa dita original.

“Isso é criação da igreja, não tem nada a ver (comer peixe). Não tem nada na bíblia que remeta a isto. Consequentemente, o jejum de carne também não tem. Jejum é um princípio judaico, mas jejuar é mais o jejum do orgulho, da inveja. Jesus disse que não é o que entra pela boca que ofende, mas sim o que sai. É completamente diferente”, explicou.

A verdadeira Páscoa?

Para finalizar, o professor falou sobre a verdadeira identidade de Jesus e da Páscoa. Para ele, o verdadeiro Jesus se encontra no Judaísmo, já que foi onde ele foi criado e doutrinado.

“Jesus não pregou para cristão. É porque a gente está muito bitolado com esse anti-semitismo. Jesus ensinava para judeus, galileus. O linguajar dele é judaico. Eu costumo dizer que nós ocidentalizamos Jesus. Transformamo-nos de um oriental em um ocidental. E ainda criamos o verbo judiar como sinônimo de coisa pejorativa, e esquecemos que ele era judeu. É preciso que a gente dê uma mudada para a gente mudar as coisas e entender como Jesus era maravilhoso. Ele  não veio condenar ninguém, não veio pregar inferno, ele veio pregar amor, pregar perdão, solidariedade. A diferença de Jesus, na filosofia judaica é esta. Porque no tempo de Moisés, o povo temia a Deus e Jesus veio ensinar o povo a não temer e sim a amar”, finalizou.

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