sábado, 20 de julho de 2019
Cidades
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Projetos de universidades federais auxiliam na construção de políticas públicas

Beto Pessoa / 26 de maio de 2019
Foto: Assuero Lima
As universidades federais, além de referência em ensino e pesquisa, formando maior parte dos mestres e doutores do País, também têm uma série de projetos que auxiliam as gestões estaduais e municipais na construção de políticas públicas. Atuando como suporte técnico e intelectual, sobretudo nas cidades pequenas, elas têm desenvolvido ações que solucionam questões econômicas e sociais difíceis de serem resolvidas pelo poder público.

Secretário executivo da Federação das Associações de Municípios da Paraíba (Famup), Pedro Dantas, destaca que políticas básicas têm sido solucionadas pelas instituições de Ensino Superior Federal, como Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e Instituto Federal da Paraíba (IFPB).

“É de grande importância que tenhamos essas parcerias. Temos 135 municípios pequenos, de coeficiente 0,6. Nenhum deles tem corpo intelectual para pensar certas soluções. Quem pode potencializar isso é a universidade.

Esse laço é fundamental. Por isso nos preocupa esse bloqueio no orçamento das universidades, porque se hoje já está difícil com o orçamento que se tinha, imagine diminuindo ele. Cortando o orçamento com certeza irá impactar os municípios”, disse.

A partir destas parcerias que problemas básicos têm sido resolvidos, explica o representante da Famup. “O IFPB de Picuí, por exemplo, tem um trabalho de extensão que está trabalhando com resíduos sólidos. Estão transformando o coco verde e a poda de árvores em adubo. Desenvolveram essa máquia que está processando os resíduos e resolvendo o problema do lixo na região, sem que o prefeito precise gastar. Sem as universidades não podemos desenvolver novas práticas administrativas”.

Vislumbrando esses benefícios, a Famup tem trabalhado para reforçar as parcerias entre prefeituras e universidades. “O trabalho da Famup, principalmente nos últimos três anos, tem sido potencializar as parcerias. Muitas prefeituras não têm orçamento nem corpo intelectual para desenvolver estudos e soluções. Nosso trabalho tem sido tentar fazer as ideias que surgem nas universidades federais chegarem efetivamente nos municípios, construir um banco de boas ações e práticas, desenvolvendo ações e pesquisas em diversas áreas’, disse Pedro Dantas.

Potencialidades

Iniciar uma nova gestão sem entender muito bem as necessidades e os potenciais das cidades. Este cenário é mais comum do que se imagina. E é nesta frente que trabalha o projeto de Extensão ‘Diagnóstico Socioeconômico e Ambiental de Municípios Paraibanos’, coordenado pelas professoras Wanderleya Farias e Rejane Carvalho, do Departamento de Economia da UFPB. Em atuação desde 2013, o grupo, composto por 15 alunos, já trabalhou lado a lado com 15 Prefeituras, produzindo um diagnóstico socioeconômico e ambiental destas cidades.

“Na época fazíamos parte do Instituto de Desenvolvimento da Paraíba (Idep). Fazíamos visitas técnicas às Prefeituras no sentido de tentar entender o que enfrentavam de problemas no início da gestão. Ali entendemos que a Universidade Federal poderia contribuir para a melhoria dos indicadores. Muitos gestores não tinham noção do perfil de mercado de trabalho, atividades econômicas, vocações e potencialidades. Então começamos a trabalhar em fazer essa análise e desenvolver o diagnóstico”, explicou a professora Drª Wanderleya Farias.

Puxinanã, Bananeiras, Sertãozinho, Zabelê, Itapororoca, Lagoa de Dentro, Várzea, Alhandra, Nazarezinho, João Pessoa, Pitimbu, Lucena, Bayeux, Santa Rita e Cabedelo foram cidades já contempladas com o estudo, que hoje está atuando no Conde. O projeto de extensão está em conformidade com a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, proposta pelas Nações Unidas, a fim de municipalizar os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS).

A professora coordenadora do projeto explica que, com o diagnóstico em mãos, as gestões têm um ‘mapa’ para solucionar gargalos das cidades, podendo inclusive elencar as prioridades de investimentos.

Wanderleya Farias destacou que nestes seis anos de projeto tem identificado que, munidos das informações, os municípios conseguem propor transformações socioeconômicas práticas nas regiões. “Quando o gestor tem compromisso com a atuação dele enquanto prefeito, como ordenador de despedas e formulador de políticas públicas, é uma experiência muito rica. Muitas vezes ele percebe que concentrou muito dinheiro em determinadas áreas e deixou outras na mão. O diagnóstico permite observar isso. Com ele é possível planejar melhor e dar devida atenção em áreas importantes”.

"Geralmente os municípios carecem de índices que sirvam de suporte para a implantação de políticas públicas, como índice de pobreza, concentração de renda. Muitas têm graves deficiências de gestão fiscal. Nós apresentamos todos esses dados e orientamos como podem melhorar nestes índices, para inclusive ter acesso a convênios federais." - Wanderleya Farias, prof. da UFPB e coordenadora de projeto

Trabalho visa criar cidades inclusivas



O objetivo do trabalho é criar um panorama das condições sociais, ambientais, econômicas e fiscais das cidades, se tornando uma ferramenta objetiva para a formulação de políticas públicas e para a construção de cidades mais inclusivas. De um modo geral, explicou a coordenador do projeto, as condições socioeconômicas e ambientais de diversos municípios da Paraíba apresentam preocupante quadro de distorções que trazem prejuízos à inclusão social e ao fortalecimento das atividades produtivas locais.

Os problemas são de diversas naturezas: poucas oportunidades de trabalho formal; reduzida taxa de esgotamento sanitário; evasão escolar de alunos na faixa entre 14 e 17 anos; frágil provisão de serviços de saúde; baixo nível de investimento público e pouca efetividade de ações municipais nas áreas de Urbanismo, Habitação, Gestão Ambiental, entre outros.

"Parte expressiva da população dos municípios está exposta à vulnerabilidade social e à precária inserção no mercado de trabalho. Nesse contexto, os munícipes encontram dificuldades para alcançar a melhoria da qualidade de vida e o pleno exercício de sua formação cidadã." - Wanderleya Farias, professora da UFPB e coordenadora de projeto

Fortalecimento das vocações



Além de mapear e apresentar o diagnóstico das carências e potencialidades das regiões, outros projetos das universidades federais têm trabalhado no fortalecimento das vocações econômicas das cidades.

Exemplo disto foi desenvolvido por pesquisadores do Centro de Ciências Agrárias (CCA) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), na cidade de Areia, que conseguiram aumentar a produtividade do plantio da cana-de-açúcar em até 75%, a partir do manejo nutricional e da adaptação de genótipos da planta.

Esse é o primeiro resultado de pesquisas coordenadas pelo Grupo de Estudo Sucroenergético (Gesucro) da Universidade Federal da Paraíba , na Fazenda Experimental Chã de Jardim, no Campus II. Segundo Fabio Mielezrski, do Departamento de Fitotecnia e Ciências Ambientais do CCA, a correção do solo com calcário aumentou o número de Toneladas por Hectare (TCH) da cana-planta, como é chamada a cana de primeira colheita.

A maioria dos genótipos estudados apresentou aumento, alguns chegando até 50% de acréscimo.

“O resultado é promissor, considerando que a média produtiva na Paraíba é de 45,771 toneladas de cana por hectare (TCH), segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Alguns genótipos da pesquisa apresentaram produtividade média de 80 toneladas por hectare”, conta o pesquisador.

A pesquisa estuda também o manejo da população de plantas por hectare em plantio convencional, comparando a produtividade de baixas e de altas densidades de gemas, que no primeiro ano de cultivo apresentaram resultados semelhantes. Mielezrski explica ainda que a pesquisa foi realizado sob o método de colheita manual e o resultado pode ser diferente na colheita mecanizada. Além disso, as condições do solo e do clima no Brejo paraibano são diferentes de outras regiões da Paraíba. O tempo de estudo para resultados definitivos é de cinco anos, para que seja mais bem avaliado o comportamento da cana-soca, como é chamada a cana de segundo corte.

Benefício para trabalhadores rurais



Também focado no desenvolvimento econômico regional, um outro projeto tem trabalhado a vocação dos municípios. Por meio do Instituto UFPB de Desenvolvimento da Paraíba (IDEP/UFPB) está sendo criado um banco de sementes para produtores de mandioca na Paraíba, no município de Mari.

Nesta unidade conservadora de material genético de uso imediato ou com potencial de utilização futura, serão inseridas novas variedades do arbusto. A ação tem o objetivo de fortalecer o sistema produtivo da mandioca na cidade e na região. Trabalhadores rurais de Santa Rita, Pilar, Mataraca, Mamanguape, Alagoinha e Sertãozinho também serão beneficiados.

Tratos culturais adequados, articulação para a implantação de unidade de processamento e beneficiamento da mandioca e capacitação focada na agregação de valor aos seus derivados, com uso de técnicas para a ampliação da utilização das raízes, das folhas e dos resíduos, serão planejados em breve.

Atualmente, segundo o IDEP/UFPB, o município de Mari é o maior produtor de mandioca em termos de área cultivada. No entanto, sua produtividade é baixa, devido a técnicas de cultivo ultrapassadas e à ocorrência de uma nova praga ainda não identificada. A cidade já teve 32 casas de farinha e hoje só possui duas.

Os projetos de Extensão das universidades beneficiam a todos. A universidade faz porque precisa do trabalho em campo para se formar; os municípios precisam, porque encontram nas universidades corpo técnico e intelectual; e a população, que está na ponta, é quem é beneficiada com essas ações - Pedro Dantas, secretário executivo da Famup

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