domingo, 19 de maio de 2019
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Professores apelam para que pessoas não deixem animais na UFPB

Ainoã Geminiano e Beto Pessoa / 28 de março de 2019
Foto: Assuero Lima
“A ‘doença do gato’ não é do gato e sim do solo”. Foi o que afirmou a professora Renata Coelho, presidente da Comissão de Direito Animal da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), ao falar sobre as práticas criminosas de abandonar ou matar animais domésticos doentes na instituição de ensino, em João Pessoa, como forma de evitar a contaminação de humanos com a esporotricose. Além de alertar para a verdade sobre a doença, os professores da universidade estão lançando um apelo à sociedade para que parem de ‘jogar’ gatos no Campus I, em João Pessoa, onde já existe uma população de mais de 300 animais domésticos, sem os cuidados necessários ou sendo mortos de forma violenta.

A esporotricose vem sendo muito discutida no Nordeste, depois que a doença, que antes se concentrava no estado do Rio de Janeiro, começou ser notificada nos estados Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. “Após a chegada dessa doença aqui na nossa região, houve muita omissão do poder público em divulgar informações corretas sobre a doença e as pessoas começa a abandonar os animais, ao ver qualquer lesão de pele, que podem ser doenças simples como sarna ou alergia e são confundidas com esporotricose. E ao abandonar um animal doente, além de estar o condenando a uma morte horrível com a piora da doença, negar um tratamento que existe e tem cura, põe em risco todos os outros animais e o próprio ser humano que estiver no setor, que podem ser contaminado. Então nosso maior pedido é não abandonar animais que estejam com suspeita da doença”, disse a professora Renata Coelho.

No site da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), uma página foi criada para dar explicações sobre a esporotricose. A doença era conhecida como ‘doença do jardineiro’, porque o fungo Sporothrix spp habita na natureza, no solo, na palha, em vegetais, espinhos e madeira, afetando principalmente os jardineiros e outros profissionais como agricultores, que trabalham em contato direto com o solo. Porém, além dos humanos, animais silvestres e domésticos, como gatos e cachorros, que também vivem em contato com o solo, são contaminados pelo fungo. Os gatos, no entanto, adquirem uma forma grave e disseminada da doença, segundo a SBD. Quando o profissional ou cuidador tem contato com o gato, por meio de arranhões ou trato respiratório, ou ainda com a pele contaminada, pode adquirir a chamada ‘esporotricose zoonócia’.

Por esse motivo, as pessoas começaram a associar a doença apenas aos gatos, colocando os felinos domésticos como violões. “Na verdade os gatos são tão vítimas quanto qualquer outro ser humano, inclusive os seres humanos. Nós temos várias ONGs que fizeram parcerias com farmácias de manipulação para conseguir preços mais acessíveis. O Centro de Zoonoses do Município, que faz o exame gratuito de animais suspeitos, também informa quais instituições podem oferecer tratamento. Portanto existem várias alternativas para lidar com o problema. O que o cidadão não pode fazer é abandonar o animal, porque é ilegal, é imoral e é crime”, acrescentou Renata Coelho.

O professor de Direito Francisco Garcia, coordenador o Núcleo de Atenção Animal da UFPB lembrou que o crime de abandono do animal é ainda agravado se o motivo do abandono for o fato de o animal estar doente, ou sendo uma fêmea, por estar prenhe.

Foco potencial de esporotricose



Alguns locais públicos, como mercados, são mais procurados pelos donos, para abandonar seus animais domésticos. Em João Pessoa e nas cidades onde há campi, a UFPB tem sido vista como depósito de animais com suspeita de doença. Atualmente, o Campus I da UFPB, na Capital, tem uma população estimada de 300 gatos abandonados. Um ambiente com intensa circulação de pessoas, com potencial para se transformar em um foco de epidemia de esporotricose, caso ocorra contato de animais doentes com a comunidade acadêmica. Os professores também têm informações que os animais estão sendo deixados na UFPB não só por pessoas que moram no entorno do Campus. “Já foi flagrado um carro na pista que passa por trás do Campus, deixando uma gata com sete filhotes. Pela placa, conseguimos identificar a pessoa, que mora em um bairro muito distante daqui e fez um longo deslocamento só para deixar os gatos. Ela foi localizada e levada à polícia”, lembrou o professor Francisco.

Comissões cobram apoio. Em meio à discussão sobre a esporotricose, os professores Francisco e Renata cobraram apoio da Reitoria da UFPB, porque disseram pagar do próprio bolso despesas médicas e de medicamentos com animais. “Muitas vezes também temos que pagar lares temporários, por não termos mais como acolher. Já fizemos diversos pedidos nesse sentido e não tivemos resposta. A Resolução nº 4, de 2016, do Consuni, criou a Comissão de Direito e Bem-Estar Animal e Enfrentamento do Problema de Abandono de Animais Doméstico nos Campi da UFPB, mas somos só um pedaço de papel. Apoio para fazer o que as atribuições dessa comissão manda, até agora é zero”, disse Francisco Garcia.

Procurada pelo CORREIO, a reitora Margareth Diniz, disse que a UFPB não pode investir dinheiro público em tratamento de animais, porque é uma atividade que foge à função da instituição. “Eu até pensei em separar uma sala para dedicar o espaço ao tratamento desses animais doentes, mas fui alertada com muita veemência pelo reitor do Campus de Areia, onde existe o curso de Medicina Veterinária, para o risco de criar, com isso, um foco de contaminação de esporotricose. Além disso, não podemos usar dinheiro público para custear tratamento de animais, porque essa não é a função da universidade. Não podemos atrair para nós uma atribuição que é do Centro de Controle de Zoonoses”, explicou.

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