quinta, 03 de dezembro de 2020

Cidades
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Professor João Trindade fala sobre sintaxe do artigo em sua coluna semanal

João Trindade / 07 de fevereiro de 2016
Sintaxe do artigo

Pesquisa realizada por mim constatou que os jornais de João Pessoa estão empregando, inadequadamente, o artigo; geralmente, usando o definido no lugar do indefinido. Por esse motivo, resolvemos abordar o tema na coluna.

1. Artigo definido: aplica-se para seres conhecidos ou já mencionados:

O professor veio cumprimentar-me pela minha vitória.

2. Artigo indefinido: aplica-se para seres desconhecidos, ainda não citados:

Um homem foi preso em Mandacaru.

3. O artigo, antecipando o nome, caracteriza-lhe o gênero e o número:

A cal; os lápis; a dinamite; o sósia.

4. O artigo transforma em substantivo qualquer palavra:

Ela me disse um não constrangedor.

5. Nem sempre os nomes aceitam a determinação do artigo:

Deus; minerva.

6. Dentre os nomes próprios geográficos, a língua distingue:

a) os que rejeitam o artigo:

Portugal, São Paulo, Copacabana, Atenas, etc.

b) os que aceitam o artigo; geralmente, nomes comuns:

o Rio de Janeiro, a Bahia, o Porto, etc.

c) os que se apresentam com ou sem artigo:

O Recife ou Recife.

d) nomes de continentes, países, regiões, montes, rios, mares, constelações, etc. usam-se com artigo:

A América, o Brasil, Os Andes, a Via- Láctea, etc.

Obs: Quando os locativos vêm modificados por adjunto adnominal (qualificação), passam a exigir o artigo:

A Roma imperial; o velho Paraguai.

7. os nomes próprios personativos são determinados pelo artigo no plural:

Os Homeros; os Caxias.

OBs: Não se usa artigo singular antes de nomes próprios, mas, em algumas regiões, na linguagem coloquial, tal uso é admissível, para transmitir afetividade:

O João saiu muito cedo hoje.

8. casa, significando lar, não sofre determinação, não aceitando, portanto, artigo:

Cheguei a casa, logo cedo.

No entanto, havendo determinação, usa-se o artigo:

Saí da casa dela lá pela meia noite.

9. Diz-se sem artigo:

Foram autuados todos três.

Mas com artigo:

Foram autuados todos os três envolvidos.

10. Omite-se o artigo:

a) antes de pronomes de tratamento:

Dependo de vossa senhoria para comprar a casa.

c) entre o pronome cujo e o substantivo:

O garoto cujo pai é advogado vai fazer Direito também.

(Observe que é errado dizer: o garoto cujo o pai é advogado (...))

d) diante de superlativos relativos, em frases com esta:

Os mestres mais competentes estavam na solenidade.

Obs.: a repetição do artigo (os mestres, os mais competentes) constitui galicismo.

É válido, porém, dizer:

Ouvi mestres os mais competentes ou

Ouvi os mais competentes mestres.

e) Em provérbios e máximas:

Tempo é dinheiro.

PADRE ARISTIDES E A FOLHA DE SÃO PAULO

No livro “Os Mártires de Piancó”, padre Manuel Otaviano, escritor paraibano e, na época, vigário daquela paróquia, conta um episódio envolvendo o padre Aristides (legendário sacerdote que enfrentou a Coluna Prestes, na Paraíba).

A cena aconteceu no Seminário em que os dois estudavam.

Certo dia, a poetisa (e não, poeta!) Auta de Souza visitou o Seminário. Foi formada uma fila de seminaristas para cumprimentar a ilustre visitante. Padre Aristides, ao cumprimentá-la, afirmou:

- Como vai a ilustre poeta?

Foi o bastante para os colegas do padre fazerem chacota. A poetisa deu-lhe um “carão”, e a direção do colégio deu uma advertência oficial.

Fosse esse episódio nos dias de hoje, e a Folha de São Paulo teria dado um prêmio ao sacerdote em questão.

É que a “Folha de São Paulo” não usa o feminino poetisa: só usa poeta. E diz mais, no Manual dela: “Não use poetisa. Use a poeta”. Só que a “Folha” não explica por quê.

Ora, não se pode simplesmente extirpar sufixo da língua. A “Folha” extinguiu o sufixo “Isa” do feminino da palavra poeta.

Então, de acordo com o “Manual de Redação” da “Folha”, deveríamos escrever a profeta (e não, profetisa), a papa (e não, papisa)? Durma-se com um barulho desse!

ABUSO DO POSSESSIVO SEU

A escola brasileira tem negligenciado o ensino da semântica. Confunde-se ensinar Português com ensinar regras de gramática. O desprezo da primeira prática tem como consequências erros semânticos em textos de profissionais, sobretudo na área jurídica.

Assistimos, atualmente, ao abuso do possessivo “seu” (e flexões), algo deveras condenável.

Por ser pronome de terceira pessoa, “seu” dá, muito geralmente, ambiguidade ao texto e, quando isso não acontece, “enfeia” a frase.

Tomemos o seguinte exemplo:

O acusado teria assassinado a vítima no seu apartamento. (no apartamento de quem? Do acusado ou da vítima?).

Ainda quando não dá ambiguidade, o pronome “seu” geralmente é desnecessário. É muito comum ouvirmos de profissionais do Direito:

“O Código penal, no seu artigo 3º afirma (...).

Ora, por que o seu? É desnecessário. Puro vício. Bastaria dizer:

O código penal, no artigo 3º, afirma (...)

Até a próxima, querido leitor!

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