quarta, 14 de novembro de 2018
Policial
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Um mês após o ataque ao presídio PB-1 obras de reparo estão paradas

Ainoã Geminiano / 10 de outubro de 2018
Foto: Rafael Passos
Pouca coisa mudou no presídio PB1, em Jacarapé (João Pessoa), um mês após a unidade ser invadida por bandidos, que resgataram quatro presos e permitiram a fuga de outros 88 detentos. O presídio de segurança máxima não ofereceu resistência ao ataque e, em cerca de 20 minutos, 92 presos saíram por um dos portões principais. Após a fuga, representantes do Governo do Estado falaram em providências para reforçar a segurança do presídio, mas o acesso à unidade continua com muita facilidade.

Segundo o secretário executivo de Administração Penitenciária, João Paulo Barros, o PB1 está recebendo reforço na estrutura frontal, com construção de paredes de concreto para evitar perfurações de tiros de grosso calibre, como aconteceu no dia do resgate. “Também mudamos o armamento dos policiais que ficam nas guaritas e estamos reforçando a iluminação no entorno do presídio”, disse. Quanto ao efetivo, o secretário disse que o número já é suficiente para fazer a segurança da unidade.

Em uma visita ao PB1, a reportagem do Correio constatou que, de fato, está sendo construída uma parede com cerca de 40cm de espessura e um vão preenchido de concreto. No entanto, nos locais onde a parede já foi concluída e está sendo pintada com a cor do prédio, o reforço tem pouco mais de um metro de altura. Em outro trecho a parede chega a cerca de dois metros de altura, revestindo a estrutura original.

No alojamento dos policiais militares que fazem a segurança externa do presídio e os plantões das guaritas, a construção do reforço na parede está paralisada. Sem se identificar, um dos militares contou que faltou material e não há previsão de quando o serviço será concluído. “O que percebemos é que eles estão em suas casas, em segurança com suas famílias e não estão preocupados com a vida dos pais de família que estão aqui. Estamos pedindo ao nosso comandante assuma esse serviço e providencie material para terminar, porque corremos muito risco aqui no dia da fuga”, reclamou.

O alojamento foi a parte do presídio que ficou mais vulnerável aos tiros disparados pelo bando que atacou a unidade. É o primeiro compartimento visto por quem chega ao local. Na parte de cima do muro, onde ficam as guaritas e uma passarela entre elas, não foi feito nenhum reforço. Essa parte foi onde mais os bandidos atiraram durante o ataque. Um policial precisou deitar no chão, por quase 20 minutos, para não ser atingido pelos tiros, que atravessaram as paredes.

O armamento utilizado nas guaritas foi trocado pela PM, por armas mais modernas, mas os policiais ainda reclamam da pouca quantidade.

“No dia da fuga a gente só tinha o “pau de fogo” (apelido do FAL - fuzil automático leve, que precisa de acionamento de um ferrolho para cada disparo a ser feito). Agora trouxeram esse fuzil 556, que também não dá rajada de tiro, como acontece com o armamento dos bandidos. Mas pelo menos é semi-automático. O problema é que só tem um por guarita e cada guarita só tem 90 munições. Aqui no dia da fuga, foram recolhidos mais de mil cartuchos. Além disso, quando vamos trocar de serviço, entregamos o fuzil para o companheiro que assume e descemos para o alojamento só com a pistola”, contou outro militar, que também não quis ser identificado. O armamento das guaritas é de responsabilidade da PM e a reportagem não conseguiu contato com o comando do 5º Batalhão, responsável pelo policiamento do PB1.

No portão por onde os presos fugiram, escolhido estrategicamente pelo bando por ser o acesso mais frágil, nada foi modificado. Por ele, usando apenas um alicate tesoura, semelhante ao que foi usado na fuga, é possível entrar no presídio e ir até os pavilhões. “Os tiros e a explosão do portão principal foram apenas para intimidar o efetivo que fazia a guarda do presídio. Porque para entrar e resgatar os presos, eles precisaram apenas desse alicate”, explicou um PM.

No acesso ao presídio também não houve mudança, como instalação de barreiras físicas que impeça veículos de trafegar em alta velocidade. O secretário João Paulo disse que isso ainda está sendo estudado.

Medo de novo ataque

Um mês após o ataque, o clima é de apreensão entre os policiais que fazem a guarda do presídio. Segundo informação de um dos PMs, confirmada também por um agente penitenciário, que não quis se identificar, a Secretaria de Administração Penitenciária decidiu juntar no PB1 todos os assaltantes que têm ligação com o bando que atacou a unidade e resgatou os presos. “Tinha aqueles que foram presos aqui na orla, que ajudaram no resgate e outros que estavam presos em Campina Grande foram transferidos para cá. Temos uns 30 assaltantes de banco aí dentro”, disse um PM.

Por conta disso, existe um temor que aconteça um novo resgate. Nesses 30 dias, homens já foram vistos dentro da mata, olhando para o presídio. “Dia desses a cachorrinha que vive aqui começou a latir para a mata. Um companheiro se aproximou e viu que tinha um grupo no mato. Efetuou três disparos e ouvimos barulho de motos saindo em velocidade. Acionamos a viatura da área que cercou pelo outro lado e ouvimos quando as motos passaram de volta, fugindo da viatura. Já nos chegou informações de que haveria outro resgate. Estamos aqui esperando”, disse.

Relembre

A presídio de Segurança Máxima Doutor Romeu Gonçalves de Abrantes (PB1), localizado em Jacarapé, João Pessoa, foi atacado na virada da noite do dia 9 para o dia 10 do último mês de setembro. Um grupo estimado em 15 homens, armados com fuzis e uma metralhadora calibre ponto 50, instalada em cima de uma caminhoneta, cercou a unidade e atirou, durante cerca de 20 minutos, nas guaritas e na torre de vigia, que fica acima da entrada principal. Também explodiram o portão principal da unidade prisional. Enquanto isso, parte do bando, usando um alicate tesoura, cortou os arames da cerca de fora, os cadeados do portão lateral, por onde veículos de suprimentos, cortaram a cerca interna e chegaram aos pavilhões, onde abriram os cadeados com o mesmo alicate.

Fazendo esse caminho inverso, 92 presos fugiram, quatro deles integrantes de uma quadrilha que pratica roubo a bancos, presos no município de Lucena, Litoral Norte do Estado, após roubar um carro-forte, no mês de agosto. Esse grupo era o alvo do resgate. Os demais presos aproveitaram a abertura das celas para escapar.

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