terça, 21 de novembro de 2017
Policial
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Reportagem especial: eles vivem nas microlândias e precisam de ajuda

Ainoão Geminiano / 03 de abril de 2016
Foto: Rafael Passos e Assuero Lima
"Como incomodam. como enfeiam. Deveriam ser arrastados daqui"... Quem nunca pensou assim ao passar pelos mendigos do Largo da Gameleira, na Capital?  Quando se trata de moradores de rua, transgressores em potencial das leis, são poucas as atitudes de caridade. Muitos se esquecem que uma vida recuperada se traduz em menos violência. A maioria das pessoas não faz nada e nem cobra políticas do poder público para essa gente. E a cidade ficando mais e mais insuportavelmente insegura.

O Observatório do Crack, uma ferramenta lançada pela Confederação Nacional dos Municípios (CNM), mostra que 78% das cidades paraibanas têm circulação de crack. O mapa retrata que 149 municípios, dos 191 pesquisados, enfrentam problemas com tráfico e consumo da droga. Em 20 deles, esses problemas estão em nível crítico. As outras cidades que não aparecem no mapa, não estão blindadas desse mal, apenas não forneceram informações completas à CNM.

Nas maiores cidades do Estado, um novo fenômeno identificado em pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz, toma conta das ruas: as mini-cracolândias. O estudo ainda será divulgado no próximo mês pela Secretaria Nacional Antidrogas. Em João Pessoa, três desses espaços comporta gente adoecida pelas drogas e chamam a atenção pela quantidade de usuários: o Mercado Central, o Beco do Mulungu, no Varadouro, e o Largo da Gameleira, na Praia de Manaíra.

O problema se repente em Campina Grande, Patos, Sousa, Cajazeiras...

Para os especialistas, o sucateamento dos espaços públicos e a política de exclusão adotada pela sociedade, junto com a omissão do poder público, são os principais fatores responsáveis pela proliferação dos espaços de consumo de drogas. Além disso, a falta de assistência aos dependentes químicos potencializa o problema, que uma hora irá retornar para a sociedade, em forma de violência.

8 em cada 10 usuários de crack utilizam espaços públicos, de interação e circulação de pessoas, estima estudo

Traficantes infiltrados

A principal estratégia dos traficantes, em João Pessoa, para se esconder nas minicracolândias, abertas ao público, é se passar por morador de rua. A tática já foi identificada pelos policiais da Companhia de Atendimento ao Turista (Ceatur), responsável pelo policiamento da orla da Capital.

“Há cerca de duas semanas, prendemos uma mulher que vinha do bairro do Valentina para a Gameleira e dava uma de mendiga, para ficar no meio dos usuários, vendendo pedras a eles”, contou o capitão Gladstone Cavalcanti, comandante da Ceatur.

Para dificultar ainda mais a abordagem da polícia,os traficantes disfarçam a posse da droga. “Eles não ficam com toda a mercadoria na mão, primeiro para não serem flagrados e depois para minimizarem o prejuízo, caso sejam pegos. Outro dia achamos 48 pedras de crack escondidas em uma árvore, perto da Gameleira. Não conseguimos identificar de quem era, porque a droga tinha sido apenas escondida no local”, lembrou Cavalcanti.

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Grupos menores. Para dificultar a fiscalização da polícia, os traficantes estão investindo em grupos menores de usuários que moram na rua e que formam as “minicracolândias”.

O fenômeno foi identificado durante uma pesquisa encomendada pela Secretaria Nacional Antidrogas (Senad) e feita pela Fiocruz. Para o pesquisador Francisco Inácio Bastos, coordenador do estudo, a cracolândia como é conhecida nas grandes cidades, tem assumido um formato dinâmico em outras regiões e até conseguido alcançar um número maior de usuários.

“Quando se fala de cracolândia, tem-se a ideia de um fenômeno macrourbano. Isto não é real. As cenas de consumo se redefinem, se reconfiguram e se partem. Então, a pessoa que estava ontem no Jacarezinho, por exemplo, é a mesma pessoa que encontramos no Morro do Cajueiro, outro dia em Madureira, outro na comunidade de Antares ou que estará no Parque União”, afirmou Bastos. A Fiocruz publicou em 2014 uma prévia da pesquisa e os dados finais, com a contagem de usuários por municípios deverá ser publicada no próximo mês.

"Sabemos que eles podem praticar furtos ou roubos para manter o vício, mas fazem isso em outras áreas, até mesmo porque seriam facilmente identificados se cometessem crimes no local onde vivem", lamentou o Capitão Gladstone Cavalcanti, comandante da Ceatur.

Exclusão potencializa problema 

O sociólogo Ariosvaldo Diniz, que tem especialização em segurança pública, disse que a situação dos moradores da Gameleira (suas queixas de exclusão) é fruto de uma política de exclusão adotada pela sociedade, como forma de se afastar dos problemas.

“Hoje, a ideologia das instituições oficiais é excluir para reformar o indivíduo que se desviou do padrão social. Perdeu-se o ideal de que era possível corrigir sem excluir. Na verdade, as pessoas querem garantir que estão afastadas do que é considerado perigoso” disse.

Segundo ele, essa estratégia acaba criando um problema ainda mais grave. “O sistema prisional é um exemplo clássico disso. Temos um depósito de pessoas que estão excluídas da sociedade e não irão sofrer nenhuma transformação. As pessoas se isolam em seus mundos e não estão nem aí. Uma hora aquela realidade atinge a todos, em forma de violência”, completou.

Danos na maioria das cidades

O Observatório do Crack, da CNM, classifica a situação do crack nos municípios brasileiros em cinco níveis: alto, médio, baixo, sem informação e sem problemas.

O mapa da Paraíba mostra que a maioria dos municípios tem problema com a droga, embora muitos ainda não tenham fornecido informações.

Os comandantes do policiamento das principais cidades paraibanas, em regiões distintas do Estado, apontam localidades com alta incidência do tráfico e algumas com registros de formação de minicracolândias.

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Internação compulsória

Para o psicólogo Deusimar Guedes, presidente da Comissão de Política sobre Drogas da OAB-PB, a internação compulsória pode ser uma solução para os dependentes químicos que vivem nas ruas, desde que não seja adotada como regra.

“As chances de sucesso de um tratamento são bem maiores quando a pessoa quer ser tratada e essa deve ser a regra geral. Agora, para as pessoas que estão nas ruas, correndo riscos em todos os sentidos, sujeitas a doenças oportunistas, em extrema vulnerabilidade, para preservar a vida das pessoas, que é o bem maior, defendo que sejam internados compulsoriamente por um período determinado” disse.

Ele completou afirmando que "essas pessoas não podem ser levadas para qualquer lugar. Precisam estar em ambientes bem aparelhados, humanizados, para depois migrar para um tratamento voluntário. Tudo deve ser acompanhado pelo Ministério Público, para garantir direitos".

Campina Grande

Os moradores denunciaram à polícia uma minicracolândia na Pirâmide do Parque do Povo. “Esse foi um dos locais mais reclamados da cidade. Montamos uma operação e os usuários mudaram de lugar. Ainda não temos informes exatos do novo ponto”, disse o major Gilberto da Silva, comandante do 2º BPM. Ele defende a criminalização do consumo e que a pena do usuário seja convertida em tratamento obrigatório para dependência.

Sousa

O comandante do Batalhão de Sousa, major Jurandir Pereira Monteiro, disse que a cidade não tem um local específico que reúna os dependentes químicos. Mas afirmou que existem vários, que vivem espalhados, perambulando pelas ruas, com uma concentração maior numa região chamada Aza Sul. “Muitos já foram presos por roubar para conseguir dinheiro. O tráfico é gerador de muitos crimes por aqui”, afirmou.

Cajazeiras

Em Patos, dois setores já são históricos por conta da presença de dependentes químicos, de álcool e outras drogas. Um deles, que fica no mercado do Centro da cidade, recebeu o apelido de CTI, pela grande quantidade de alcoólatras que vivem no local e já estão com a saúde comprometida. Outro ponto relatado pelos moradores é próximo à linha do trem, a 500 metros do ‘CTI’. “Nós não temos uma cracolândia tão ostensiva por aqui, porque os consumidores locais ainda se intimidam com a ideia de serem vistos consumindo. Mas, durante o dia, temos vários viciados que ficam pedindo ou furtando nas portas das lojas do Centro, para conseguir comprar droga”, disse o tenente-coronel Francisco de Andrade Campos, comandante do 3º BPM.

Histórias como as da gente

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Final de tarde de uma terça-feira e, com a queda da temperatura, os moradores de rua vão chegando à Gameleira. Uma viatura de portas abertas, sobre a calçada dá apoio a quatro policiais, que acabam de fazer uma revista nos mendigos. A cena é numa minicracolândia na orla da Capital, onde há pessoas que tiveram histórias de vida comuns a tantas outras que passam na pista de cooper ao lado, e pouco se importam com o problema.

Arionaldo de Oliveira Evangelista tem 33 anos e os últimos seis passou nas ruas de Manaíra, dormindo na Gameleira, de onde sonha sair. Diz que trabalhava tirando cocos, mas sofreu um acidente e ficou paraplégico. Mas a verdadeira história de ‘Naldo’ não se sabe ao certo. Dizem que levou um tiroque o deixou paraplégico e com uma sonda pendurada na barriga, por onde sai a urina. Atualmente, o sonho dele é voltar para o Rio de Janeiro, onde está a família, mas não tem recursos.

A esperança de Naldo, em voltar para junto da família no Rio de Janeiro só veio aparecer há alguns dias, quando ele conheceu os integrantes de uma ONG evangélica, que trabalha com moradores de rua. “Nós começamos esse trabalho com foco específico de tirar pessoas da rua. Em um ano, tiramos 45 pessoas, entre elas uma família inteira, com 12 membros. Agora vamos tirar o Naldo. Já marcamos a passagem dele e estamos trabalhando para conseguir o dinheiro para pagar”, contou João Paulo Rodrigues, presidente da Associação Manancial.

“Há alguns meses resolvi visitar essas pessoas e o encontrei com a sonda infeccionada. Consegui levá-lo ao um serviço médico, ele foi tratado e graças a Deus está bem. Mas se não tivéssemos vindo aqui, não sei o que seria dele”, contou a jornalista Eliane Lopes, voluntária na área.

Francisco Salles Sousa Neto, 37 anos, disse que era músico profissional e já tocou em bandas reconhecidas e cantores gospel consagrados. Mas, há quatro anos, está morando na Gameleira, após se tornar usuário de drogas e ser expulso de casa. “Meu sonho é conseguir minha família de volta ou um lugar para viver”, disse.

Mas Salles, tem a mesma reclamação dos colegas de rua: “Aqui ninguém liga pra gente. Nossa sorte é alguns grupos de igrejas que vêm aqui duas três vezes por semana, traz comida para a gente, um remédio, alguma coisa que precisamos”.

Nina não sai

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Maria Eunice Ramos Aparecida, a Nina, tem 68 anos de idade e 40 anos como moradora de rua. Em meio à lucidez parcial, graças a algumas horas sem beber, ela disse ter sofrido perda de parentes importantes, o que a teria motivado a abandonar a casa. Viciada em álcool, Nina disse que quer continuar na rua, onde tem colegas, mesmo se ganhasse uma casa de presente. Hoje ela está com sérios problemas dermatológicos. “Já tentamos com vários serviços públicos um tratamento para ela, mas até agora nada”, disse a jornalista Eliane Lopes.

130 moradores cadastrados

Segundo a Prefeitura de João Pessoa, existem pelo menos 130 moradores de rua cadastrados. E, apesar da reclamação deles, ela garante que o governo municipal oferece atendimento, começando com a abordagem do projeto Ruartes. “Nós somos a porta de entrada dos serviços de assistência. Temos um cadastro de moradores, que vivem em várias localidades e nosso papel é visitá-los, conhecer suas histórias e convencê-los a aceitar ajuda. Porque muitos não querem sair da rua”, contou a coordenadora do projeto, Maria do Amparo dos Santos.

Segundo ela, atualmente a prefeitura tem apenas uma casa-abrigo, com capacidade para acolher 40 pessoas e está lotada há algum tempo. “Estamos na expectativa da abertura de uma segunda casa, prevista para este mês de abril, com outras 40 vagas. Enquanto isso vamos fazendo o rodízio, com as vagas que surgem, a partir do momento em que conseguimos devolver essas pessoas à suas famílias ou encaminhá-las para sua própria. autonomia”, disse.

RUARTES

Em números

130 moradores cadastrados

21 pessoas retiradas das ruas

10 pessoas levadas para hospitais

38 crianças encaminhadas ao Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti)

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