terça, 19 de janeiro de 2021

Policial
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Gravidez para driblar a barreira do ‘raio-x’ nos presídios

Bruna Vieira / 30 de abril de 2016
Foto: Assuero Lima
A tecnologia (scanner corporal, raquetes, banquetas e detector de metais) está ajudando a combater a entrada de materiais ilícitos no sistema prisional da Paraíba. Mais equipamentos, que serão utilizados nas Olimpíadas do rio, deverão chegar até o fim do ano, como doação ao Estado, para apertar ainda mais a fiscalização. Mas, a criatividade do crime parece não ter limites. Segundo o secretário da Administração Penitenciária da Paraíba, Wagner Dorta, as mulheres dos presos estão engravidando, para serem dispensadas dos exames de raio-x. Celular e maconha são o alvo dos desejos dos detentos. Somente nos três primeiros meses deste ano, foram 566 aparelhos telefônicos apreendidos.

Somente nos três primeiros meses deste ano, já foi apreendido mais da metade de toda a droga do ano passado. Segundo a Seap, as prisões femininas têm crescido pelo fato de as mulheres tentarem ingressar com materiais ilícitos. Elas podem receber suspensão de visitas por até seis meses. “Foram presas 16 grávidas este ano e notadamente, as mulheres dos presos começaram a engravidar. as gestantes não passam pelo scanner corporal, por recomendação do Conselho Nacional de Energia Nuclear. Caso haja fundada suspeita, elas são levadas a um hospital para fazer a revista clínica com um médico. Não é um procedimento rápido, mas, é a norma”, contou Dorta.

O Róger (João Pessoa) e o Serrotão (Campina Grande) são os campeões de apreensões no Estado. Com um aparelho eletrônico em mãos, os criminosos permanecem no mundo lá fora, seja apenas para manter contato com os familiares ou continuar ordenando crimes. As principais vias de entrada são os arremessos por cima do muro e a as companheiras durante as visitas.

Tecnologia de ponta

Segundo o secretário, as operações são planejadas a partir do trabalho de inteligência, que aponta os locais que requerem maior atenção. As operações de segurança ocorrem dentro e fora dos presídios, com auxílio da polícia militar nos arredores. A prática do arremesso é comum. “Diariamente ocorre, principalmente no Roger e Serrotão. Quando identificados, as pessoas são autuadas e presas e isso inibe outros que pretendem praticar. Notamos uma redução nas apreensões, pelo aumento da vigilância na entrada e a tecnologia. Os boddy scanners (imagem também detecta material orgânico) são caros, poucos aeroportos internacionais do país têm. Mesmo assim, ainda tem gente que tenta passar e é preso”, informou Dorta.

Novos equipamentos serão inseridos esta semana, como as raquetes manuais e banquetas detectoras de metais e, os bag scanners, que além de metal, detecta material orgânico, como drogas. “Desde 2000, com a legislação que proíbe a revista manual, ela só é realizada sob fundada suspeita, com informes da inteligência. A corrupção dos agentes é mínima, quando ocorre eles são presos. No ano passado foram dois casos. Este ano, um. Eles respondem a processo administrativo e a justiça determina se vão ficar presos. Um foi demitido, dois estão em andamento, mas,provavelmente também serão. Não há condições de uma pessoa com essa conduta voltar a exercer a função. Eles relatam ameaças, mas, penso que é fraqueza de formação familiar. Desonestidade vem de berço. Eles já adentram com ânimo para a corrupção. É uma atividade estressante, lidar com quem está à margem e eles cooptam pelo crime. Mas, a remuneração está na média brasileira”, justificou o secretário.

O material apreendido vai para o depósito da Seap. Celulares e chips são periciados e ficam à disposição do setor de inteligência sendo monitorados e investigados. As armas, espetos e outros objetos são destruídos. As drogas, cachaça artesanal e medicamentos proibidos são incinerados ou descartados.

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Apreensão = rebelião

O secretário da administração penitenciária, Wagner Dorta, explicou que desde o início do ano passado tem intensificado o trabalho disciplinar nos presídios, o que permitiu que a maioria dos objetos ilícitos seja interceptada antes mesmo de chegarem até às celas. “Não adianta o Estado dialogar com facções e líderes do crime. As operações estão mais fortes para acabar com as regalias dos presos. Por isso ano passado houve rebeliões, porque teve muita apreensão. A rigidez incomoda os presos, a falta da droga gera tensão. O foco é maior no PB1, Roger e Serrotão. A lógica da unidade prisional é que se está tranquilo ou o diretor é elogiado pelos detentos, algo está errado. Se eles reclamam, é porque o sistema está trabalhando. Houve muitas mudanças no quadro também”, revelou.

 Presente das Olimpíadas

Após as Olimpíadas, mais 12 aparelhos de Raio X e 40 portais serão doados aos presídios paraibanos, para complementar os que já vem sendo utilizados há um ano. Para fugir do aperto, os presos até matriculam filhos e conseguem comprovantes de endereços em cidades pernambucanas. Dessa forma, eles alegam que a família mudou e pede transferência para o estado vizinho. “Foram 40 solicitações de líderes do crime, principalmente, do PB1. Nenhum conseguiu. Eles não querem ficar aqui. Seria mais fácil transferir e nos livrar dos mais perigosos. Mas, não é isso que fazemos, pois, eles continuariam comandando crimes e toda a sociedade paraibana sofreria”, revelou Dorta.

Bloqueio de celular

Wagner Dorta acredita que o bloqueio de sinal de celular não é uma alternativa viável.  “Nos estados que têm essa legislação, as operadoras não cumprem, como Santa Catarina. É tecnicamente inviável porque os grandes presídios estão nas cidades. Penso que não tem como desligar só naquele perímetro sem prejudicar a comunidade em volta. Existe um equipamento de bloqueio (jammer) que está em fase de estudo para aquisição. Mas, não é 100% confiável. Ele emite uma frequência que confunde o aparelho celular e não capta o sinal da operadora. Quando a população reclama porque também é afetada com o problema, a empresa aumenta a frequência e volta a pegar celular”, ressaltou.

Grávidas dizem que revista vexatória continua

No Roger, as mulheres dos presidiários relataram que a máquina de scann melhorou, pois evita o constrangimento da revista íntima. Porém, elas questionam o uso. “Chegou e demorou para começar a funcionar. De vez em quando quebra e todo mundo vai para a revista. Uma vez passou um mês sem funcionar. Acho que é por cara mesmo, porque às vezes elas dizem que a imagem está distorcida e manda tirar a roupa. Acho que desligam porque querem”, disse uma delas que não quis se identificar.

Outra reclamou de outros procedimentos. Chinelo só se for de cor branca, sutiã sem enchimento. “Misturam higiene e comida. Mete a faca no desodorante aí mete na comida. A gente pega fila aqui fora, pehga fila para ir para a máquina. Demora. Já chego aqui de madrugada para entrar cedo. Outras dormem na calçada”, disse.

Dezenas de grávidas entravam para a visita. Todas elas relataram que passam pela revista, já que não podem ir para o bodyscann. “A gente tira toda a roupa e se abaixa no espelho que está no chão, tem que abaixar até o fim e para quem carrega um barrigão não é fácil. Te que se abrir toda, isso é constrangedor. E vai ser assim até o bebê nascer, duas vezes por semana”, declarou uma das mulheres aos quatro meses de gestação.

Apreensões este ano

1.093 comprimidos

463 baterias

266 carregadores

263 chips

204 espetos

107 facas

“As apreensões tem influência direta na redução dos assassinatos. No primeiro trimestre houve queda de 6% no Estado. A retirada dos celulares tira da criminalidade o poder de determinar homicídios de dentro dos presídios. Isso é impactante” – Wagner Dorta, secretário da administração penitenciária da Paraíba.

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Droga apreendida

48 kg de maconha

3 kg de cocaína

R$ 480 mil foram investidos em equipamentos de revista, em parceria com a Polícia Federal.

Tecnologia utilizada:

16 portais detectores de metais

3 boddy scanner (PB1, Roger, Serrotão)

40 banquetas detectoras de metal

6 bag scanner (de bagagem)

145 operações em 2015

3 mil celulares

3 mil unidades de psicotrópicos

100 kg de drogas

602 litros de líquido fermentado semelhante à cachaça artesanal. Além de dezenas de facas artesanais e espetos.

População carcerária

Sentenciados no regime fechado: 4.792

Provisórios no regime fechado: 4.709

Regime aberto: 568

Regime semi-aberto: 1.283

 

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