segunda, 14 de outubro de 2019
Policial
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Casos de feminicídio registrados na Paraíba mobilizam prefeitas

Ainoã Geminiano e Katiana Ramos / 23 de abril de 2019
Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil
Faltando ainda uma semana para terminar o mês, o número de feminicídios registrados em abril já superou o total do mesmo mês do ano passado e é quase duas vezes a média registrada nos três primeiros meses deste ano. Até o domingo de Páscoa, seis mulheres foram assassinadas e seus companheiros são os suspeitos, na Paraíba, sendo quatro casos somente na semana passada. Na avaliação do Centro da Mulher 8 de Março, ainda são poucas e tímidas as políticas públicas voltadas à conscientização dos homens agressores. A entidade também vê falhas no atendimento da polícia às mulheres vítimas de violência, no interior do Estado. Há cerca de um mês, o Governo do Estado divulgou um balanço de ocorrências policiais, comemorando redução de feminicídios do Estado.

De acordo com os números divulgados pelo Governo do Estado, 11 mulheres foram assassinadas nos meses de janeiro, fevereiro e março deste ano, o que representa uma redução de 63% no número de feminicídios, comparando com os casos registrados no mesmo período de 2018. Porém, a curva descendente mudou no mês de abril. Embora a estatística oficial não tenha sido divulgada, o Centro da Mulher 8 de Março, que cataloga os crimes contra mulheres, com base no noticiário da imprensa, já contabiliza seis feminicídios no mês ainda incompleto, um a mais que em todo o mês abril de 2018.

Em dois dos seis casos registrados o marido matou a mulher e se matou em seguida. Um deles ocorrido em Campina Grande, que vitimou a secretária de Educação do município de Boa Vista, Dayse Alves, de 40 anos e outro em João Pessoa, que teve como vítima a gerente de uma loja de carros, Tâmara Valêncio, de 37 anos. No caso de Ana Priscila Viana, de 31 anos, morta em Mangabeira e de Marilene da Silva, morta com 30 facadas em Santa Rita, os maridos foram presos. Já nos casos da agricultora Fabiana Ferreira da Silva, de 30 anos, morta em Sousa e da dona de casa Luciana Silva Santos, de 33 anos, encontrada morta na cidade de Belém, os maridos e principais suspeitos continuam foragidos.

Embora comemore os avanços conquistados na defesa das mulheres, Irene Marinheiro, a coordenadora do Centro 8 de Março lamenta a pouca eficiência das políticas públicas, no objetivo de conscientizar os homens da não agressão.

Irene também destacou que o atendimento da polícia às mulheres vítimas de violência é ruim nas regiões do interior do Estado. “Temos conseguido avanços nos grandes centros urbanos, mas no interior a polícia demora a chegar, os efetivos são pequenos e nem sempre há policiais disponíveis para atender”, disse. A coordenadora, no entanto, lembrou que a violência contra a mulher não é só decorrente de falta ou pouca estrutura. “É um problema nacional, influenciado por muitos fatores, até mesmo essa intolerância política que tá espalhada pelo país, onde as pessoas se desentendem com outras apenas porque pensam diferente. No meio disso, o homem agressor encontra mais um pretexto para violentar a mulher”, concluiu.

"Precisamos falar mais sobre o tema, sobre o respeito às mulheres e ao ser humano com um todo. Mais inciativas na mídia, para ver se a sociedade também se conscientiza de que ela pode intervir nessa violência, acionar as forças de segurança e denunciar, sem precisar que o denunciante se envolva na ocorrência." - Irene Marinheiro, coordenadora do Centro 8 de Março

Ações contra a violência



Por conta dos últimos casos de feminicídio na Paraíba, a Comissão da Mulher da Assembleia Legislativa da Paraíba (ALPB), presidida pela deputada Camila Toscano (PSDB), vai realizar uma audiência pública para discutir ações que possam ser desenvolvidas para reduzir os casos de violência.

Prefeituras. Prefeitas paraibanas integrantes do Movimento de Mulheres Municipalistas (MMM), que é ligado a Federação das Associações de Municípios da Paraíba (Famup), se reúnem quinta-feira, às 9h, em um hotel, em João Pessoa, para discutir políticas públicas voltadas às mulheres. Na pauta, encontra-se o aumento dos casos de feminicídio no Estado. O encontro terá a presença da fundadora do MMM no Brasil, Tânia Ziulkoski.

Segundo a presidente do MMM na Paraíba, a prefeita de Monteiro Anna Lorena, a participação das gestoras é essencial para que se desenvolva e fortaleça uma rede de proteção às mulheres, tanto as que são vítimas de violência, como as que necessitam de oportunidades para garantir o sustento da família.

Para fundadora do Movimento de Mulheres Municipalistas, Tânia Ziulkoski, a iniciativa criada com o apoio da Confederação Nacional de Municípios (CNM), que é o primeiro movimento de mulheres municipalistas apartidário brasileiro, tem como um de seus objetivos empoderar as mulheres para que cada vez elas se engajem e sejam destaque no meio municipal.

"Vamos discutir desde o aumento nos casos de feminicídio como políticas públicas voltadas ao empreendedorismo." - Anna Lorena, presidente do MMM na Paraíba e prefeita de Monteiro

Não obteve contato



A reportagem do CORREIO procurou, por telefone, a coordenadora das Delegacias da Mulher no Estado, Maísa Félix, para comentar os últimos casos de feminicídio ocorridos na Paraíba e o atendimento às vítimas de violência doméstica prestado nas delegacias especializadas e no interior do Estado. Mas, até o fechamento desta edição, as ligações não foram atendidas.

Achados mortos



Dois apenados foram encontrados mortos, na madrugada de ontem, na Penitenciária Desembargador Flósculo da Nóbrega, o Presídio do Róger, em João Pessoa. Um dos presos era o acusado de atropelar e matar o motoboy Marcos dos Santos Ferreira, na madrugada da última sexta-feira, no bairro de Cruz das Armas.

De acordo com o gerente da Secretaria de Administração Penitenciária do Estado (Seap), João Paulo, a direção do Presídio do Róger ainda aguarda o resultado da perícia nos corpos constatando a causa e circunstância das duas mortes. Contudo, há suspeita de que José Tadeu, apontado como o motorista que atropelou o motoboy, tenha sofrido um infarto. Já o outro apenado, Vinicíus Gabriel Ferreira Viana, que estava preso sob suspeita de ter matado a esposa afogada na praia do Bessa, em setembro de 2018, teria cometido suicídio.

Neste segundo caso, de acordo com a Seap, o apenado foi encontrado com um lençol envolto ao pescoço e com vida. O Samu foi chamado mas não conseguiu reanimá-lo. Os agentes penitenciários encontraram um bilhete, ao lado do corpo de Vincíus, onde ele alegava inocência e se despedia.

O caso

Vinícius Gabriel Ferreira Viana era suspeito de ter agredido Natália Donato, com quem era casado, e depois ter simulado o afogamento natural da jovem.

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