quarta, 20 de janeiro de 2021

Policial
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Dava casa e comida e depois matava envenenada

Renata Fabrício / 11 de abril de 2017
Foto: Divulgação
Quatro mortes misteriosas entre dezembro e março, na zona rural de Itabaiana, Agreste, levaram investigadores a prenderem nesta terça-feira (11) a agricultora Vânia Maria da Silva, 44. Ela é apontada pela Polícia Civil como a única suspeita de ter envenenado duas crianças, uma adolescente e uma mulher utilizando o agrotóxico conhecido comumente como chumbinho.

O veneno era colocado em alimentos e oferecido às vítimas, que pouco tempo depois apresentavam náuseas, vômitos, dificuldades para respirar entre outros sintomas característicos. Em três dos quatro corpos, a perícia apresentou laudos conclusivos com a presença do pesticida em grandes quantidades.

Os casos narrados pela Polícia, de como as vítimas eram envenenadas, lembra o sombrio conto de fadas de João e Maria, em que os irmãos aceitaram doces de uma senhora desconhecida. No caso de dona Vânia, a suspeita conhece muito bem as vítimas. Ela é madrinha de uma das crianças e vizinha das demais, no sítio Cariatá. Além disso, à única vítima adulta segundo a Polícia, Vânia ofereceu hospedagem e comida, mas a mulher também acabou morrendo.

De acordo com o delegado seccional de Itabaiana, Felipe Luna Castelar, a investigação conseguiu colocar a suspeita em todos os locais em que as vítimas estavam quando começaram a passar mal. “No primeiro caso, da Ana Gabriele, dona Vânia forneceu alimentos para uma festa de criança que a vítima participava e ingeriu um desses alimentos. Quando retornou para casa começou a passar mal e faleceu no mesmo dia. Cerca de uma semana depois, a segunda criança, o Samuel a auxiliou na busca de uma chave, já que são vizinhos. Quando voltou para casa começou a passar mal apresentando os mesmos sintomas da outra criança. O caso de Ana Leticia aconteceu quando ela retornava com a irmã da escola e na estrada encontrou dona Vânia, que ofereceu para ela um biscoito. As duas crianças pegaram o biscoito, mas só a Letícia ingeriu. Ao retornar para casa, uma hora depois, começou a passar mal”, explicou.

Foi a partir das circunstâncias analisadas com a morte de duas crianças e uma adolescente, ocorridas em menos de 15 dias, que a Polícia vinculou também o caso de uma quarta vítima, morta em dezembro do ano passado, à agricultora. “Começou a chamar a atenção um caso ocorrido em dezembro do ano passado, com a vítima Ana Maria. A Polícia conseguiu vincular que Ana Maria também consumiu um alimento na casa de dona Vânia no dia do ocorrido, pouco tempo antes de passar mal”, disse.

Segundo a chefe do Núcleo de Laboratório Forense (Nulf) da Polícia Científica, Raquel Azevedo, foi a partir do resultado das análises, nos corpos das vítimas, em que foi levantada a hipótese de homicídio. “A substância encontrada é um fosforado. O início da ação é muito rápida, e em menos de uma hora já começa a apresentar os sintomas. É muito letal, tanto que todos que ingeriram vieram a óbito. A sintomatologia apresentada bateu com a fornecida pelo hospital, e a medida em que as análises foram sendo feitas, todas apresentaram a mesma substância”, afirmou.

Em apenas um dos casos, o da menina Letícia, 12, a perícia não conseguiu concluir a presença do pesticida, mas credita a isso o fato da vítima ter ficado internada por vários dias. “O caso de Letícia, em que ainda não conseguimos identificar a substância, foi a única que ficou hospitalizada, então isso interfere totalmente na detecção da substância ainda no corpo dela. Ela foi hospitalizada inicialmente em Itabaiana, e depois transferida para o Trauma, onde ainda continuou por cinco dias. Mas as características clinicas eram de intoxicação e exames realizados no hospital caracterizam clinicamente indícios de envenenamento”, ressaltou a perita.

As provas são circunstanciais, mas foram o suficiente para o juiz da audiência de custódia decretar a prisão temporária de Vânia. Ela foi encaminhada à Penitenciária de Recuperação Feminina Júlia Maranhão, em João Pessoa. As investigações do caso vão prosseguir para tentar confirmar a linha de investigação da Polícia, que não foi divulgada.

Advogado acredita na inocência

O advogado de defesa da agricultora, Rômulo Bezerra, citou o caso da Escola Base de São Paulo ocorrido nos anos 90, para pedir que a sociedade não condene Vânia antes da justiça. “Dona Vânia nega veementemente que tenha cometido tal crime. Inclusive, é preciso que a sociedade e a imprensa não antecipem o julgamento das coisas. Você só é condenado a partir de uma sentença condenatória em transitado e julgado. Dona Vânia terá direito á ampla defesa e contraditório, onde será arguida a sua tese. Cito aqui como caso, há quinze anos o casal de japoneses que tinha a Escola Base em São Paulo, acusado de molestar crianças em São Paulo e teve a vida acabada, mas ao final do processo foi absolvido”, lembrou.

Cronologia dos crimes

10 de dezembro de 2016 – morre primeira vítima. Ana Maria Dias, 20, estava hospedada na casa de Vânia e ingeriu um alimento pouco antes de passar mal.

19 de fevereiro – Ana Gabriele Evangelista da Silva, 9, comeu alimentos fornecidos por Vânia a uma festa na escola.

25 de fevereiro – Samuel Alexandre da Silva, 6, foi ajudar a vizinha a procurar um objeto perdido e voltou para casa passando mal.

6 de março - Letícia Firmino de Sousa, 12, era afilhada de Vânia e comeu biscoitos oferecidos pela suspeita no caminho de volta da escola. Ela morreu quatro dias depois no Hospital de Trauma de Campina Grande.

8 de março – A Secretaria Estadual de Saúde anunciou investigação às mortes ocorridas na comunidade.

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