quinta, 27 de junho de 2019
Paraíba
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Volante moderna contra o novo cangaço

Renata Fabrício / 19 de fevereiro de 2017
Foto: Chico Martins
O Nordeste do início do século XX foi marcado por ações violentas de cangaceiros nos sertões da Caatinga. Antônio Silvino, o Rifle de Ouro, e Virgulino Ferreira da Silva, o famoso Lampião, atuaram à frente de grupos de homens armados que invadiam fazendas, realizavam saques e forçavam pequenos camponeses a fornecerem abrigo e comida. Historiadores atribuem a atuação violenta dos cangaceiros à necessidade de sobrevivência numa época de fome e seca, mesmo com ações fora da lei.

Foi na década de 20, segundo o pesquisador Ruberval de Sousa Silva, autor de “Parahyba nos tempos do cangaço”, que as polícias criaram forças militares especializadas no combate a esses bandos. As chamadas “volantes do cangaço” atuavam em cidades do interior de Estados nordestinos afetados por ações de cangaceiros. “As volantes eram um grupo especial da Polícia para o combate ao cangaço. Surgem quando o cangaço toma proporções gigantescas com a figura de Lampião, nos anos de 1922, 1923 com um quadro operacional no Nordeste”, explica.

A volante do cangaço mais conhecida na Paraíba, foi a Tenente Benício, de Princesa Isabel. Diferentemente dessa volante, que não tinha quartel ou contingente específico, as volantes modernas são bem mais organizadas e inteligentes. Em Pocinhos, Agreste da Paraíba, o Comando Geral da Polícia Militar criou no ano passado uma divisão especializada do 10º Batalhão para atuar em cidades do interior. A Companhia de Operações em área de Caatinga, inaugurada no ano passado, abrange 19 cidades do Brejo ao Sertão, mas assim como as antigas volantes que se movimentavam para outros locais, podem ser destacados de forma especial para outras cidades.

Os policiais são treinados para atuar em todos os cenários possíveis e previsíveis no combate ao crime, principalmente em casos de ataque a bancos.

Se na época de lampião o transporte mais utilizado pelas volantes eram os lombos dos jumentos, ou em casos mais especiais iam a bordo de caminhões Ford de Bigode, hoje as polícias estão habilitados para agir a pé, a cavalo, a bordo de uma embarcação ou aeronave. Todo o contingente passa por 40 dias de treinamento em áreas de Caatinga apreendendo a operar em situações extremas.

Um mapeamento de cidades em vulnerabilidade é constantemente monitorado. Foi assim, que no início de dezembro do ano passado, policiais da Companhia prenderam duas pessoas com armas, coletes balísticos, grampos e explosivos dentro de um carro em Remígio. O material seria utilizado em um ataque a banco ou agência dos Correios.

"É outro tempo, mas o modus operandi é o mesmo. O que não se pode comparar são os armamentos, os carros potentes, as vias que se tem, as telecomunicações, as dinamites e o aparato que os bandidos hoje têm em mãos" - Ruberval de Sousa, pesquisador. 

PMs com preparação específica

Segundo o comandante da Companhia e coordenador do curso, capitão Wherick Felicio de Lima, que já comandou três operações da Força Nacional no Brasil, a criação da tropa especial foi feita também para dar apoio às polícias que atuam em pequenas cidades do interior, alvo primário dos bandidos que cercam os destacamentos dos municípios onde escolhem atacar. “O comandante Euller Chaves autorizou um novo curso já no intuito de montar uma tropa voltada a essas ações. Não propriamente ações de bancos, mas também de suplementação nas cidades pequenas. São policiais que conheçam esses territórios, que saibam operar em viaturas, com emprego de GPS, com cavalo e, se necessário, com todo meio de transporte disponível na Polícia Militar: moto, helicóptero, embarcação, na parte de operação ribeirinha na busca de roça de maconha nos grandes açudes. Os policiais são habilitados para atuar em vários cenários”, destacou.

Cadetes em treinamento. Enquanto as antigas volantes do cangaço passavam até três meses “embrenhadas” no mato em busca de cangaceiros, as volantes modernas treinam o corpo, a mente e a técnica para surpreender criminosos. No último curso, dos 30 policiais formados, dois eram da Polícia Nacional Paraguaia, um da PM da Bahia, e outro da PM do Rio Grande do Norte.

Uma turma do Curso de Formação de Oficiais (CFO) que se forma em dezembro, esteve durante a semana, passando por um treinamento base de seis dias em uma mata fechada de cerca de 40 hectares. Eles serão os primeiros oficiais a saírem da Academia de Polícia com esta experiência. No local, eles aprenderam técnicas de sobrevivência como manusear fogo, vegetais nativos da Caatinga para matar a fome e a sede, construir um pequeno abrigo, administrar o sono e atirar com precisão em terrenos declives e acidentados, em períodos de altas temperaturas e ambientes noturnos. São 14 horas por dia expostos ao meio ambiente.

A cadete Ana Vieira, uma das três mulheres da turma, carrega uma mochila de 10 quilos nas costas. Cada compartimento conta com utensílios essenciais para a sobrevivência fora da base. Colchonete para dormir, cantil de água, canivete, blocos de anotação, uma espingarda 12 e munições para treinos. Ela será a primeira militar da família. Um sonho de criança que ela vê crescer desde que ingressou no Centro de Educação da PM, em 2015.

Água na Caatinga. Sob o sol castigante da Caatinga, os cadetes sobem um lajedo no qual encontram uma pequena porção de água. A cor esverdeada mostra que a água encontrada não está própria para consumo. O instrutor é o sargento Olivino. Ele ensina técnicas de purificação da água através da fervura, se disponível, ou cloro.

Os cadetes aprendem a detectar a vegetação local e se utilizar dela. Em operações longas, os policiais podem utilizar cactáceas como a ‘coroa de frade’ ou a raiz do umbuzeiro para matar a sede. Outra forma de obter água é através de evapotranspiração, uma técnica utilizada em árvores com folhas lisas. Demonstrações foram feitas com as folhas de aroeira e umbuzeiro.

Para fazer parte deste grupo especial de policiais não é necessários somente ter o conhecimento. Cada policial formado precisa ter didática para repassar as técnicas a outros policiais e assim formar novas equipes. “Temos provas teóricas e provas práticas. Se o policial chega aqui e não consegue me descrever o fuzil que ele utiliza, para nós ele não serve, porque ele também não vai servir como instrutor. É preciso ter confiança no policial que a gente treina, porque da mesma forma que a gente está ali, em meio aos alvos, confiando na precisão do nosso policial, é o cidadão que estará na rua. Então não é só a carga física”, descreve capitão Wherick.

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