quinta, 18 de julho de 2019
Paraíba
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Vidas perdidas na BR-230 e a dor de quem ficou para trás

Ainoã Geminiano / 28 de abril de 2019
Foto: Assuero Lima
O trecho que fica entre os quilômetros zero e 20 da BR-230, que liga João Pessoa e Cabedelo, já esteve várias vezes entre os mais perigosos das rodovias federais do Brasil, em análises de acidentes e mortes feitas pela Polícia Rodoviária Federal (PRF). Dados da PRF mostram que, nos últimos quatro anos, incluindo o primeiro trimestre de 2019, aconteceram 52 atropelamentos no trecho, com 68 feridos (casos com uma ou mais vítimas) e 10 mortes. A maioria das vítimas moram de um lado da pista e trabalham ou têm afazeres do outro lado, precisando atravessar a rodovia todos os dias, indo para estabelecimentos e residências nas praias de Cabedelo, na Região Metropolitana da Capital.

Na ida ou na volta, acabam perdendo a vida para veículos em alta velocidade ou em manobras mal feitas, dentro dos contornos. Vítimas que deixaram mulheres, maridos, pais, mães e filhos órfãos, muitos deles que hoje passam até fome, após perder o único mantenedor da casa. Dados do Hospital de Emergência e Trauma de João Pessoa mostram que, somente no primeiro trimestre deste ano, 11 pessoas deram entrada, vítimas de atropelamento na BR-230, nove deles no município de Cabedelo.

Indo para aula sem almoço.Lucas (fictício) tem cinco anos de idade e não são poucas as vezes que vai para a escola sem fazer nenhuma refeição, porque não tem comida em casa. O menino é um dos quatro filhos de Cristiane Martins da Silva, de 33 anos que, abandonada pelo ex-marido, foi morar com o pai, Pedro Paulino da Silva, de 52 anos. Vendo a filha desamparada, o estivador a acolheu e assumiu todas as despesas da filha e dos netos. “Ele tinha todo o cuidado e trabalhava duro, fazendo até serviço extra, pra não deixar faltar nada pra gente”, lembrou a jovem mãe.

Mas a vida de Cristiane e dos filhos sofreu mais um duro golpe, no dia 24 de fevereiro de 2013, quando Pedro Paulino morreu atropelado na BR-230. Cuidadoso que era com os netos, saiu de casa em uma tarde de domingo, indo da comunidade do Jacaré, até uma farmácia em Cabedelo, comprar um medicamento para o neto. “Ele entrou na pista sentido Cabedelo-João Pessoa e pegou o contorno para tomar o destino certo. Nisso vinha uma caminhonete de João Pessoa para Cabedelo e bateu nele. Saiu arrastando ele na pista e o matou com tanta violência que foi preciso quatro homens pra conseguiu tirar o corpo dele das ferragens debaixo da caminhonete”, contou José Paulino da Silva, irmão de Pedro e único membro da família que foi ao local do atropelamento.

Do acidente, as duas filhas de Pedro receberam a indenização do DPVAT, de R$ 13 mil. “A minha parte eu investi na casa que morava com ele, que tava precisando de muitos reparos. Só que essa casa ficava em um terreno invadido e, pouco tempo depois, a prefeitura despejou todos os moradores. Passei a receber R$ 200 de auxílio aluguel, da própria prefeitura, mas a única renda que eu tinha era R$ 300 do Bolsa Família. Não tive mais como alugar casa e fui morar em um barraco de tábua e papelão. Comecei a catar lixo pra fazer reciclagem e estou até hoje com isso”, relatou Cristiane.

Passados alguns anos, ela e os quatro filhos foram acolhidos pela mãe e ex-mulher do falecido. Maria da Luz Silva auxilia a direção de uma igreja evangélica e mora em um espaço de um cômodo, nos fundos da igreja, na comunidade Jardim Oceania 6. No mesmo espaço agora vivem ela, a filha e os quatro netos. “É muita dificuldade.

Como eu faço um trabalho voluntário com a comunidade, recolhendo alimentos e fazendo um sopão para distribuir, parte desses donativos servem para o nosso sustento. Mas há dias que não tem o que comer e nossa saída é mandar as crianças para a escola, onde eles terão a merenda pelo menos”, disse. Mesmo separada de Pedro, Maria disse que ele não deixava faltar nada para os netos, mas que a situação de desamparo veio com a morte do ex-marido.

“Meu mundo desabou”



“Vai fazer três anos que só durmo à base de remédio e ainda não consegui voltar a trabalhar. Meu mundo desabou. Minha vida está arruinada”. É o desabafo da diarista Maria da Glória da Silva, de 54 anos, divorciada e que recebia do filho mais velho, Marcelo Silva de Araújo, de 20 anos, o apoio que deixou de ter após o fim do casamento. Marcelo também tinha um papel importante na vida dos irmãos mais novos, até ser morto atropelado por um carro, quando voltava do trabalho.

O filho de Maria da Glória trabalhava como garçom em um bar que fica à beira-mar, na praia de Camboinha II, município de Cabedelo, Zona Norte da Região Metropolitana da Capital. A casa da família fica no mesmo bairro, sendo que do outro lado da BR-230, o que obriga os moradores que trabalham na praia, a exemplo de Marcelo, a atravessar a rodovia pelo menos duas vezes por dia. Por volta das 17h20, do dia 17 de outubro de 2016, o garçom voltava pra casa, montado em sua bicicleta, quando viu uma oportunidade de fazer a travessia. O veículo que avistou, um BMW 320i, estava distante, mas ele não imaginava que vinha a 140 km/h, avançando 40 metros a cada segundo.

“Ele já tinha entrado na faixa de desaceleração de um contorno que existia no local e apenas o pneu de trás estava na faixa de rolamento da pista. O carro pegou nesse pneu de traseiro e jogou meu irmão no para-brisa. Ele morreu na hora”, lembrou Matheus Silva, o irmão do meio, que estava com 17 anos quando aconteceu o atropelamento. “Meu irmão estava fazendo o curso da Marinha Mercante. Ele queria trabalhar embarcado em navio e já estava perto de concluir, com boa perspectiva de emprego. Mas o sonho foi interrompido”, lamentou.

A morte de Marcelo mexeu com a estrutura de toda família, obrigando os irmãos mais novos a trabalhar antes do previsto e tirando o tempo que até então era dedicado aos estudos. Aprovado em Direito pela Universidade Federal da Paraíba, Matheus agora estuda à noite e trabalha o dia todo. A mãe, também vive as sequelas da tragédia, com sucessivas crises de depressão e tomando medicamento para conseguir dormir.

Sobre ajudas após perder o principal mantenedor da casa, a família de Marcelo recebeu apenas o valor de R$ 13 mil do seguro DPVAT. “Estamos esperando a conclusão da investigação, para que a pessoa que atropelou seja punido. Não entendo porque ele não está preso, porque criou dificuldade no processo a ponto de que a primeira audiência só veio acontecer quase dois anos após o atropelamento. Ele mudava propositadamente de endereço. Esperamos que justiça seja feita”, disse Maria da Glória. O processo tramita na comarca de Cabedelo.

Urbanização e adequações



Desde 2015, estudos colocam o trecho da BR-230, de Cabedelo a João Pessoa, entre os mais perigosos do País. Em 2016, em matéria publicada pela revista Exame, a PRF colocou o trecho entre os 20 mais perigosos. Em 2017, a Confederação Nacional dos Transportes (CNT) publicou um ranking, no qual o trecho aparece na 66ª posição, entre os 100 mais perigosos do país.

Na avaliação do engenheiro Pablo Sousa, especialista em Trânsito e professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), a estrutura da rodovia, apenas com pista de rolamento e contornos não contempla a mobilidade de todas as pessoas.

“Não podemos afirmar que os atropelamentos tenham sido necessariamente causados pela infraestrutura da rodovia, porque é preciso analisar cada caso, com suas particularidades. Também é importante ressaltar que, quando a rodovia foi construída, não existia essa demanda de estabelecimentos e moradias que existe hoje, nos dois lados da pista. Mas no cenário atual, com ocupação dos dois lados, é necessário se fazer intervenções para construção de travessias, elevações, de forma que crie espaços separados para veículos e pedestres”, disse.

Polêmica da fiscalização eletrônica



A infraestrutura da BR também inclui a discussão sobre os redutores eletrônicos de velocidade. No início deste ano, todas as lombadas e radares existentes na BR-230 foram retirados, por conta do fim do contrato entre a empresa fornecedora dos equipamentos e o Governo Federal.

Um novo contrato foi feito com outra empresa, mas o presidente da República anunciou o fim das lombadas e radares em todo País, com exceção dos lugares em que ficar comprovada a efetiva necessidade dos equipamentos, para impedir acidentes. A decisão gerou polêmica, com especialistas em trânsito defendendo a permanência da fiscalização eletrônica. Por outro lado, o presidente Jair Bolsonaro diz querer acabar com uma suposta indústria de multas, operada pelos equipamentos.

Na Paraíba, o Dnit já havia instalado 31 lombadas eletrônicas no interior da Paraíba, quando a decisão presidencial foi anunciada. Até o início desde mês, os equipamentos no Sertão já estavam funcionando e aplicando multas. Já no trecho entre Cabedelo e João Pessoa foram instaladas 10 novas lombadas mas, de acordo com o Dnit, esses equipamentos não aplicarão multa, até uma decisão final do Ministério da Infraestrutura.

Viadutos e passarelas



Em abril de 2017, o Departamento de Infraestrutura de Transportes (Dnit) iniciou a triplicação e na execução do projeto inclui a construção de 13 viadutos, 14 passarelas de pedestres e 35 quilômetros de ruas laterais, com passagem por baixo dos viadutos, separando o trânsito local do trânsito da BR. A primeira etapa do projeto, que vai de Cabedelo até o viaduto da Pedro II, próximo à UFPB, tem previsão para ser concluída em fevereiro de 2020.

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