terça, 22 de outubro de 2019
Paraíba
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Projetos desenvolvidos ao ar livre incentivam à leitura

Aline Martins / 09 de junho de 2019
Foto: Assuero Lima
Deitado em uma rede, sentado no banco de uma praça ou mesmo aguardando atendimento médico. Em qualquer dessas situações, o livro é um instrumento bem-vindo. Debruçar-se sobre a leitura e viajar no mundo da imaginação é algo cada vez menos observado na contemporaneidade, principalmente no grupo de jovens e adultos. No entanto, com o intuito de resgatar o hábito pela leitura, o gosto por folhear as páginas de uma obra de qualquer tamanho ou gênero literário, educadores, bibliotecários, demais profissionais e sociedade em geral, em João Pessoa e também em municípios como Caiçara (no Agreste paraibano) e Santa Luzia (na região Borborema) realizam projetos de valorização da leitura, da cultura e da sustentabilidade.

Era apenas um terreno que servia para acumular lixo e o mato crescer. Mas isso inquietava bastante os moradores do entorno durante anos. Até eles decidiram se reunir para planejar mudanças para o local, que era público, mas esquecido. Foi aí que criaram a Eco Bosque, no bairro Jardim Oceania, em João Pessoa. Um espaço que foi recuperado, implantado balanços para as crianças e demais brinquedos. No entanto, um ponto chamava a atenção, uma Livroteca. Uma cabine com livros, que ainda será inaugurada, mas que tem despertado o interesse, principalmente do público infantil. Todos os dias, Alice Silvestre, de 4 anos, pede para a mãe, a dona de casa Natasha Silvestre, ir para a Eco Bosque. Além de se divertir nos brinquedos, ela gosta bastante dos livros. “Gosto de escrever o nome da minha mãe, de ler e dos bichinhos”, comentou a pequena.

Para Natasha Silvestre, o incentivo à leitura acontece sempre com as duas filhas e a implantação da Eco Bosque trouxe inúmeros benefícios para os moradores da área. “Acho muito bom ter um espaço como esse porque estimula ler. Em casa nós já incentivamos a leitura, mas ela pede para vir. Aqui também tem a oportunidade de interagir com outras pessoas. Ela gosta de ler, de escrever e de ver os bichinhos. Alice gosta de aguar as plantas. O lugar é bem agradável e tem muitas crianças que gostam”, ressaltou.

Esse despertar da leitura e cuidado com o meio ambiente ajudou a população de outras formas. “Moro aqui há mais de 30 anos e não conhecia todas as pessoas. Com essa iniciativa, muitas pessoas começaram vim para esse espaço”, comentou a aposentada Rejane Montenegro, que destacou que embora a população visse o potencial do local, ninguém tomava nenhuma iniciativa de mudar. Surgiu uma reunião e todos apresentaram possibilidades de transformar aquele espaço ‘desvalorizado’.

Além das mais de 70 árvores plantadas pelo grupo, há várias placas com frases poéticas espalhadas pelo terreno de mais de um hectare. Um dos idealizadores do projeto, o professor de Filosofia da UFPB Severino Dutra, comentou que havia uma preocupação antiga dos moradores. “Nessa área o pessoal depositava lixo, os carroceiros pedras e restos de construção. O mato era muito alto. Com essa preocupação, decidimos reunir os moradores. Foram feitas inicialmente quatro reuniões. Fizemos oficinas onde as pessoas foram incentivadas a dizer o que desejam fazer para aproveitar aquela área. Houve um consenso. Como o local tem uma vocação arbórea deveria ter árvores e trilhas, bancos e espaços de convivência”, relatou. Em seguida o interesse foi colocar uma livroteca, pois o espaço é propício para a leitura. Hoje, as crianças são as que mais procuram os livros, embora o local conte com diversos gêneros literários.

Valorização. A Eco Bosque ainda conta com trilhas como a do Gavião – um animal frequente no local –, Massaranduba e Angelim. Todas estão ligadas a flora e a fauna local ou ainda ao escritor homenageado por uma das frases espalhadas pelo espaço. Ainda de acordo com o professor Severino Dutra, dentro da proposta de valorização da leitura, da cultura, no próximo mês deve ser inaugurado o espaço dentro da Eco Bosque, o Recanto do Canto Paraibano onde terá placas com letras de compositores e escritores paraibano. Além disso, também foi doado uma Geodésia que será instalada na área.



Pioneira na Capital



Bem próximo a Eco Bosque, tem a Eco Praça Jardim Oceania, que foi a primeira implantada pela população cujo objetivo era transformar um terreno pequeno em um espaço cultural, de leitura. No mesmo espaço, em abril deste ano, foi inaugurada a Ecoteca Paulo Freire. De acordo com o pedagogo Jefferson Palmeira, que é um dos idealizadores do projeto, a ideia surgiu a partir das discussões sobre o patrono da Educação brasileira, Paulo Freire. “Decidimos homenagear aquele que criou o método de alfabetização e que causou um impacto na educação. Por conta disso colocamos o nome dele na Ecoteca que visa estimular a leitura de criança, buscar resgatar o interesse pela leitura nos dias de hoje”, afirmou.

Ainda de acordo com o pedagogo, agentes de leitura estão sendo capacitados para ser voluntários. Há vários livros de Paulo Freire, mas também de filosofia, espiritualidade, história, pedagogia, literatura, meio ambiente. Algumas pessoas estão sendo qualificadas e para exercer essa função voluntariamente.

O pedagogo ainda informou que toda a montagem da estrutura, cadeados, madeiras, entre outros, contaram com o apoio de várias pessoas. Ainda de acordo com o pedagogo e gestor de escola estadual. Geralmente mais crianças do que adultos frequentam a Ecoteca. Ainda se pretende realizar lançamento de livros e diálogos com escritores.

“As pessoas começaram a sair dos edifícios, dos apartamento, do espaço fechado, é como se estivem encontrando a rua. As pessoas se conhecendo. Há 20 anos moro aqui consegui descobrir que é também da universidade, que não se conhecia, e hoje é um grande amigo meu. As pessoas se conhecendo. Quem quiser doar pode ir até o local e doar. Geralmente fica aberto pela manhã e final de tarde”, disse Severino Dutra, morador, professor e um dos idealizador es do projeto.



USF também é lugar para leitura



Uma casinha marrom com o teto rosado e na porta a seguinte frase: ‘Leia livro’. Instalada na porta de três unidades de saúde, o equipamento tem chamado a atenção de crianças, jovens e adultos. Desde novembro do ano passado, o Grupo ‘Voluntários’ inciou um projeto de implantação de mini casinhas para armazenar livros. A ideia já existe na Bahia e foi copiado para a Capital paraibana. O primeiro local a ser implantado foi na Unidade de Saúde da Família (UFS) São José, que fica no bairro de mesmo nome.

A ideia se expandiu e já é encontrado em três unidades de saúde (comunidade Santa Clara, no Castelo Branco; UPA Oceania, Manaíra; USF São José). No entanto, já há propostas para ser instalado na zona Sul da cidade, segundo informou Roseano Nascimento dos Santos, um dos idealizadores do projeto. Ele conta com o apoio da empresa onde trabalha, Supera – Ginástica para o cérebro, que serve de receptor das doações que posteriormente irá abastecer os pontos de leitura.

Aos 10 anos de idade, cursando o 5º ano do Fundamental I, Maria Clara Valente, não perde a oportunidade. Todas as vezes que o Grupo ‘Voluntários’ reabastece a casinha da USF São José ela é uma das primeiras correr e pegar o livro, pois mora bem próximo. “É minha praia, meu hobby. Gosto de poesia. Gosto de escrever histórias do cotidiano”, disse Clara, que é boa em Português e as tias e a avó, com quem mora é quem mais incentiva a leitura.

Ela tem mais quatro irmãos, mas são mais ligados ao celular. “Achei muito interessante o pessoal trazer isso para perto das pessoas. Gosto mais de ler e de ver TV”, revelou, destacando que leu ‘Direito do Consumidor’ e ‘Diário de um Banana’.

Roseano Nascimento dos Santos tem filhas e sobrinhos pequenos e percebeu que inúmeros adolescentes e jovens têm deficiências de leituras, notas baixas em vestibulares, por exemplo. “Queria que todas as crianças também tivessem a oportunidade de participar, de mudar o futuro delas”, afirmou.

Kaline Felipe Martins, é orientadora social do Centro de Referência em Assistência Social (Cras) do bairro, e sempre leva as crianças para a momentos de leitura na UPA São José. “Todas as vezes trago para que elas possam ter acesso a leitura. Incentivo a ler, pois ultimamente as crianças e os adolescentes estão mais ligados ao celular e esquecendo de ler”, revelou.

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