domingo, 17 de fevereiro de 2019
Paraíba
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Paraíba terá novo espaço para preservação do peixe-boi marinho

Aline Martins / 10 de fevereiro de 2019
Foto: Nalva Figueiredo
A Paraíba vai abrigar o segundo cativeiro do Nordeste para a reintrodução do peixe-boi marinho na natureza. O Estado, que possui no Litoral Norte a Área de Proteção Ambiental (APA) da Barra do Rio Mamanguape, terá nesse novo espaço o tratamento adequado para possibilitar que os peixes ganhem condições adequadas e sejam reintroduzidos ao meio ambiente. A previsão para a conclusão da obra do cativeiro é até o final de abril deste ano, segundo a coordenação do Projeto Viva o Peixe-Boi Marinho.

O médico veterinário e pesquisador João Carlos Gomes Borges, coordenador do Projeto Viva o Peixe-Boi Marinho – realizado pela Fundação Mamíferos Aquáticos e patrocinado pela Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental –, comentou que o cativeiro será de extrema importância para a conservação da espécie no País.

“Dentro da estratégia nacional de conservação do peixe-boi marinho, estão previstas as reintroduções dos espécimes que encalharam e posteriormente foram reabilitados. Atualmente, no Nordeste, só existe uma estrutura semelhante a esta que estamos construindo e está localizada em Alagoas. Este cativeiro da Barra do Rio Mamanguape vai então agregar e otimizar os esforços em prol da soltura dos animais no Nordeste brasileiro. Uma vez construído o cativeiro, daremos maior celeridade a este processo de reintegração de peixes-bois aos ambientes naturais”, frisou João Carlos Gomes Borges.

Vanessa Araújo Ribeiro, médica veterinária do Projeto Viva o Peixe-Boi Marinho, também comentou que o local poderá no futuro ser visitado por turistas, logo após a atuação de um projeto voltado para um turismo de observação já que está sendo montada uma torre de observação para pesquisadores e uma plataforma para o público. Ela destacou que o local é importante para o processo de adaptação das espécies. Nisso também será possível fazer todo o acompanhamento clínico dos peixes-bois marinhos e toda a evolução naquele ambiente. Somente em seguida será colocado no ambiente natural, mas para isso será colocado um cinto com o equipamento de monitoramento via satélite para acompanhar o seu processo de adaptação a habitat. Os animais vivem na água salgada, mas quando precisam de água doce se deslocam para o rio. Por conta disso, quando são soltos no ambiente natural, eles mapeiam onde há o que precisam para sobreviver.

De acordo com João Carlos Gomes Borges, o cativeiro atenderá dois ou três peixes-boi que passarão por uma preparação – um processo de adaptação ao meio ambiente natural com alimentação e água doce – antes de serem reintroduzidos na natureza. A estrutura está sendo montada pelas equipes do Projeto Viva o Peixe-Boi Marinho, da APA da Barra de Mamanguape e da Área de Relevante Interesse Ecológico (Arie) da Barra do Rio Mamanguape, Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Marinha do Nordeste (Cepene) e voluntários da comunidade local estão trabalhando na construção de um cativeiro para readaptação de peixes-bois marinhos, espécie que atualmente está em perigo de extinção no Brasil.

Como chegar à Barra de Mamanguape vindo de JP



Saindo de João Pessoa, pegar a BR-101 em direção a Natal. Seguir em frente às placas com indicações de Natal. Porém, a entrada para a Barra de Mamanguape fica antes, do lado direito da rodovia federal. Ao lado da placa Barra de Mamanguape, haverá também uma placa com o nome Projeto Peixe-Boi. Ao entrar, pegar uma estrada de canavial para chegar à base da Fundação Mamíferos Aquáticos e ao estuário (onde vivem os animais). No caminho, haverá placas verdes com o nome do Projeto Peixe-Boi. É só seguir as placas. Esta estrada tem em torno de 30 km. O trajeto leva mais ou menos 50 minutos para ser concluído.

Vida harmônica



A Unidade de Proteção Ambiental (APA) é um local importante para a conservação da flora e da fauna. A bióloga e analista ambiental da APA da Barra do Rio Mamanguape, Thalma Veloso, explicou que se trata de uma unidade de uso sustentável, ou seja, admite residências com pessoas e também proteção ambiental das espécies animais e vegetais daquele espaço. “É uma unidade que você tem que lidar com pessoas e com a conservação com o manejo da fauna e da flora. Nós temos que lidar com o socioambiental. Quem gere uma APA tem que ter uma facilidade e um conhecimento na área socioambiental, pois é necessário cuidar do social tanto no que se refere a qualidade de vida das pessoas quanto as pessoas respeitarem o meio ambiente e não degradarem. Tem sempre que fazer um trabalho de educação ambiental”, frisou.

Veloso comentou que a APA da Barra do Rio Mamanguape trabalha diretamente com as comunidades residentes.



“Nós somos município de Rio Tinto, somos uma Unidade de Conservação que tem partes marinhas e terrestres e o grande número de pessoas residentes faz parte de comunidades ribeirinhas: de marisqueiros e pescadores. Existem outros grupos: os veranistas, mas é um número menor. O nosso trabalho é voltado para essas pessoas de baixa renda e que nesse sentido a gente trabalha diretamente com geração de renda para eles, trazendo a consciência ambiental”, disse Veloso.





O principal objetivo do local é a preservação e conservação do peixe-boi marinho. “Foi descoberta aqui na Paraíba, quando o animal entrou em extinção, que aqui haviam as maiores populações de peixe-boi marinho Indaiá. Ainda estamos como uma das unidades de conservação com as maiores populações de peixe-boi marinho. Ele foi o carro-chefe de tudo”, afirmou.

Com a preservação desse animal marinho, outras espécies foram conservadas como o peixe-mero, o cavalo-marinho, além dos ecossistemas recifais, as dunas, as partes terrestres e o estuário como todo que agrega a biodiversidade local.



Referência no Brasil. A APA da Barra do Rio Mamanguape é conhecida por apresentar atributos ecológicos que propiciam a existência do peixe-boi marinho. É um dos poucos lugares no Brasil onde a espécie pode ser encontrada, sendo este o principal atrativo de turistas de dentro e de fora do País, que procuram a região para ver de perto os animais na natureza.

Animais monitorados via satélite



O grande atrativo da Área de Proteção Ambiental (APA) da Barra do Rio Mamanguape, que fica no município de Rio Tinto, no Litoral Norte paraibano, é o peixe-boi marinho . No local há quatro sendo monitorados via satélite (medida inédita) pelo Projeto Viva o Peixe-Boi Marinho que é realizado pela Fundação Mamíferos Aquáticos. “Zelinha”, “Mel”, “Puã” e “Yara” como são conhecidos, foram animais reintroduzidos na região por meio do projeto.

A rotina diária da equipe do Projeto Peixe-Boi Marinho é verificar a tábua de marés, abrir o mapa de localização dos aminais reintroduzidos monitorados gerado pela tecnologia satelital conectada à plataforma do sistema e ao Google Maps para obter as coordenadas emitidas pelo satélite e em seguida ida a campo para acompanhamento.

O CORREIO acompanhou esse trabalho de perto. O ecólogo Sebastião Silva, coordenador de monitoramento do Projeto, é responsável por essa verificação e contou que a cada três horas é emitida a localização dos quatro mamíferos aquáticos. “Hoje usamos três horas, mas é uma programação que podemos ir mudando de acordo com as nossas necessidades. Vimos que para peixe-boi é um tempo bom”, comentou, destacando que a coordenada satelital pode ser acessada tanto em um site específico, endereço eletrônico (e-mail) ou celular, por meio de um aplicativo.

Com os dados satelital, é possível verificar em que trechos os peixes-bois marinhos preferem ficar com frequência, o que indica que naquela área há indícios propícios para sua sobrevivência. Com a atividade de campo, é possível comprovar isso. Para a atividade de campo, além dos equipamentos de telemetria satelital e VHF, a equipe utiliza uma sonda multiparâmetros.

Por meio do equipamento de GPS, a equipe do Projeto marca a localização e a hora exata da averiguação. Do barco, épossível fazer as medições com a presença do animal monitorado, registrar a temperatura da água, o grau de salinidade, o comportamento do animal (alimentação e repouso), intervalo de tempo de respiração. Tudo anotado em uma planilha e que servirá de base para estudos sobre a biologia e ecologia do peixe-boi marinho voltados para a conservação da espécie, assim como estudos sobre a adaptação dos animais em vida livre.

Além disso, a veterinária Vanessa Araújo Ribeiro, pode fazer o acompanhamento clínico dos animais, identificando possível alteração comportamental, clínica ou patológica, bem como realizar intervenções veterinárias quando necessário.

Além do acompanhamento diária tanto por satélite quanto em campo, a veterinária Vanessa Araújo Ribeiro, informou que a cada seis meses é feita uma expedição de captura dos mamíferos aquáticos monitorados. “Levamos os animais para o manejo que é realizado em terra são coletadas diversas amostras biológicas. Elas vão para um laboratório, avaliação clínica do animal e fomento em pesquisa em diversas universidades, instituições de pesquisa pelo País. Os animais da região da Paraíba estão bem e ‘Astro’ – que é o peixe-boi marinho que frequenta a área de Jandaíra, Mangue Seco, na Bahia, também está tudo bem por enquanto”, frisou.

Recepção. Durante a vista do CORREIO a APA da Barra de Mamanguape, conhecemos “Zelinha”, que tem 19 anos de vida, e que estava na praia de Coqueirinho Norte, em Marcação. O nome foi dado em homenagem a Marizélia de Brito, funcionária do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e moradora do Rio Grande do Norte, que resgatou o animal Ela passou por adaptação e introduzida no meio ambiente na Paraíba.



Incentivo ao turismo de observação



Além da atividade de monitoramento e acompanhamento dos peixes-bois marinhos, a Fundação Mamíferos Aquáticos desenvolve educação ambiental para a população ribeirinhas, turistas e estudantes. Há um trabalho especial para a valorização do turismo de observação dos peixes-bois marinhos, no âmbito de base comunitária, de forma responsável e dentro das normativas estabelecidas na região. A finalidade é sensibilizar os turistas para a conservação da espécie, assim como estimular a comunidade local a abraçar a causa do animal “em perigo” de extinção. Com isso também há uma valorização da cultura local, já que são desenvolvidas ações como canoada (uma vez que vários utilizam a canoa como transporte de pesca), lapinha, entre outros.

A Fundação Mamíferos Aquáticos também oferece uma proposta de roteiros para turismo eco pedagógico voltado para escolas e universidades, com circuitos terrestre e aquático voltados para a observação científica da biodiversidade e com palestras de educação ambiental.

A coordenadora de Educação Ambiental do Projeto Viva o Peixe-Boi Marinho, Daniela Araújo, informou que serão feitas palestras nas escolas ou podem ser feitas na APA. É só agendar por telefone e ver a disponibilidade da equipe.

Souvenirs. Aqueles que visitam a APA da Barra de Mamanguape podem comprar pelúcia de peixe-boi marinho (o cinza encontrado na região litorânea da Paraíba) e o amazônico (preto), o boto rosa e a baleia-franca – todos ameaçados de extinção. Eles são produzidos pelas funcionárias da Oficina Peixe-Boi & Cia. Há 22 anos, a Fundação Mamíferos Aquáticos desenvolve uma ação de cunho socioambiental junto à comunidade da Barra do Rio Mamanguape (PB) visando o desenvolvimento comunitário e empoderamento feminino. O objetivo é promover a geração de renda sustentável para mulheres da comunidade local. Os bonecos, patenteados, são produzidos artesanalmente e vendidos para todo o Brasil. Por mês são fabricados, 500, mas a estimativa é dobrar o número.

SAIBA MAIS



O peixe-boi marinho (Trichechus manatus) é um mamífero aquático da ordem Sirenia que pode chegar a pesar 600 kg e a medir até 4 metros. Apesar de toda a robustez, é um animal herbívoro, que se alimenta de capim-agulha e vegetação aquática. Como todo mamífero, sua respiração é pulmonar. Em um ambiente saudável, livre de ameaças, o peixe-boi pode viver até os 60 anos. No Brasil, infelizmente, a espécie está “em perigo” de extinção. De acordo com pesquisas desenvolvidas pela Fundação Mamíferos Aquáticos, a Universidade Federal de Pernambuco e a FURG, estima-se que existam aproximadamente apenas 1.000 peixes-bois marinhos no litoral nordestino (numa área compreendida de Alagoas até o Piauí). A orientação para caso alguém encontre um animal desta espécie é: manter distância, não tocar, não alimentar e nem oferecer bebida.

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