segunda, 25 de janeiro de 2021

Paraíba
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O preço do mangue: jornada exaustiva e situação de trabalho insalubre afetam marisqueiras

Katiana Ramos / 05 de março de 2017
Foto: Assuero Lima
As marcas da profissão estão na pele de Maria da Luz, nos punhos e nas costas de Maria José e nos pés de Maria Luiza. A beleza do mangue de onde ‘as mulheres do marisco’, como são conhecidas em suas comunidades, localizadas na Grande João Pessoa, retiram o sustento da casa, contrasta-se com a dureza da profissão. Sem reconhecimento oficial, a maior parte dessas pescadoras é vítima de doenças ocupacionais crônicas e vive à margem das garantias trabalhistas.

O esforço praticamente diário de carregar caixas que pesam, em média, 60 quilos, e a série de movimentos repetitivos para a pesca do marisco renderam à Maria José Silva dos Santos inflamações crônicas que limitaram a movimentação dos dois punhos. “No inverno é quando dói mais. Têm dias que eu não consigo segurar uma escova para pentear os cabelos”, contou a pescadora de 38 anos, que trabalha na comunidade Renascer III, em Cabedelo.

Sem o amparo dos direitos trabalhistas para se ausentar da função, que garante o sustento dos seis filhos, para procurar tratamento para as lesões, Maria José vive a base de antinflamatórios na esperança de amenizar as dores. “Têm mais de 10 anos que trabalho com isso e, durante muito tempo, carreguei essas caixas pesadas. Quando adoeci e procurei o INSS vi que não temos direito a nada. São dores intensas que sinto nos ossos e nos músculos. Têm dias que eu não consigo me abaixar de tanta dor na coluna. Mas, é o jeito ir para o mangue, às vezes, para pegar um quilo de marisco”, lamentou Maria José.

Enquanto observa o relato da amiga, Maria Luiza dos Santos mostra nas unhas das mãos e dos pés os sinais do trabalho exaustivo da pesca do marisco. As unhas e dedos um pouco atrofiados indicam as conseqüências do esforço repetitivo durante a catação do marisco. Com 56 anos e no ofício há 12, ela conta que sofre das mesmas dores musculares de Maria José, e se queixa ainda de micoses por ter os pés e mãos o tempo todo expostos a lama do mangue.

“Pego marisco, ostra, peixe. O que vier, eu tô pescando. Aqui é o sustento da minha casa, dos meus filhos, meus netos e de quem mais vier. A gente esquece a dor e vai pro mangue. O trabalho é pesado? É. Mas é honesto”, revelou a marisqueira.

Marisqueiras vivem epidemia de LER, diz pesquisador

As complicações relacionadas às Lesões por Esforço Repetitivo (LER) são as principais doenças que acometem as marisqueiras. A constatação é do médico do trabalho e pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Paulo Gilvane Lopes Pena, após dez anos pesquisando o tema. Segundo ele, os problemas são decorrentes da carga horária exaustiva dessas trabalhadoras, que têm uma jornada média de 90 horas semanais, somada a até 11 mil movimentos repetitivos por hora no desempenho da função.

A situação é tão grave que o pesquisador afirma que as marisqueiras vivem uma epidemia de LER. Sem condições para o tratamento adequado, muitas têm o quadro evoluído para doenças sérias, como Síndrome do Punho de Carpo, bursite e tendinites. “Para se ter uma ideia do problema, a NR-17 estabelece o limite, ao digitador, de 8 mil toques por hora. Elas têm uma exposição a esses movimentos muito excessiva, somados ainda ao trabalho em casa. Somente no Hospital das Clínicas aqui da UFBA nós atendemos mais de mil casos de mulheres marisqueiras com esse tipo de lesão”, lembrou o pesquisador.

O câncer de pele e o envelhecimento precoce também estão na lista das doenças ocupacionais que vitimam as marisqueiras, segundo Paulo Gilvane Pena.

 Força feminina e representatividade

A situação de trabalho e condições sociais das marisqueiras que vivem nas comunidades ribeirnhas da Grande João Pessoa é alvo de pesquisa do pós-doutor e professor da FPB, Emanuel Silva.

Ele lembra que a pesca artesanal, ao longo da história do País, foi construída pelas mulheres e que essas profissionais desempenham um papel fundamental nas lideranças comunitárias e representatividade. No entanto, permanecem à margem da sociedade e sem o reconhecimento necessário.

“As mulheres tem um papel pedagógico na arte da sobrevivência. Os filhos e gerações posteriores aprendem com essas mulheres a extrair da natureza de forma equilibrada, proporcionando o desenvolvimento sustentável”, explica o professor.

Ele lembra ainda que as marisqueiras, na maioria das vezes, são as mantenedoras de suas famílias e levam uma tripla jornada, o que agrava ainda mais as condições de saúde dessas trabalhadoras. “O trabalho dessas mulheres começa em casa, com os filhos. Digo que é um trabalho que vai da casa ao mangue. A mulher tem o trabalho triplicado, mantem a casa, é chefe de família. Mas, não são reconhecidas por seus companheiros. É uma luta gigantesca, um trabalho constitutivo e ontológico”, frisou Emanuel Silva.


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