quarta, 12 de maio de 2021

Paraíba
Compartilhar:

Novo tratamento ajuda casais com HIV a ter filhos

Beto Pessoa / 16 de dezembro de 2018
Foto: Rafael Passos
Adriano e Marta (nomes fictícios) são casados. Ele tem HIV. Ela não tem. Mas juntos, desejavam um filho biológico. Semana passada conseguiram engravidar, com praticamente zero chances de transmissão do vírus tanto para ela quanto para o bebê que virá, graças ao tratamento via Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), que na Paraíba está sendo ofertado há quatro meses via Sistema Único de Saúde (SUS) pelo Complexo de Doenças Infecto-Contagiosas Clementino Fraga, em João Pessoa.

A PrEP é a combinação de dois medicamentos: tenofovir + entricitabina, que juntos bloqueiam alguns “caminhos” que o HIV usa para infectar o organismo. Tomando diariamente, a medicação pode impedir em mais de 90% dos casos que o HIV se estabeleça e se espalhe no corpo, possibilitando que quem o tome tenha relações sexuais sem uso do preservativo. Uma rotina sexual ou reprodutiva sem grandes limitações, graças à tecnologia farmacêutica.

A diretora do Clementino Fraga, Thaís Matos, disse que foi o primeiro caso de gravidez de pessoas em uso da PrEP na Paraíba, um avanço quando se pensa em relações sexuais de pessoas sorodiscordantes. “É um planejamento. Comemoramos no hospital esta semana esta gravidez, porque ela atinge uma das metas da PrEP, que é a possibilidade de engravidar num casal sorodiscordante. Ele tem HIV, com uma carga viral indetectável; ela não tem HIV e está tomando a PrEP”, disse.

No total, 69 pessoas fazem uso da PrEP na Paraíba, segundo dados do Clementino Fraga. Destas, 47 são pessoas com parceiro sorodiscordante (sendo 30 delas pessoas heterossexuais e 17 homossexuais); 20 são homens que têm relações sexuais com homens; 6 são profissionais do sexo; e 1 pessoa trans.

Artur Silva (nome fictício), 26 anos, também utiliza o medicamento todos os dias. Por duas vezes, teve relações sexuais sem preservativo com pessoas de sorologia desconhecida. E por duas vezes ficou na janela imunológica, período de 30 dias utilizado pelo Ministério da Saúde para detectar a infecção pelo vírus HIV. Para não correr mais riscos, resolveu iniciar o tratamento por PrEP.

“Eu não consigo transar com camisinha. É mais fácil transar correndo o risco do que com camisinha. Já tentei várias vezes e para mim nunca foi bom. Quero ter uma vida sexual que me satisfaça, mas não quero correr o risco de pegar o HIV. Sei que tem tratamento e que hoje se vive normal, mas ainda assim não tem cura e quero ficar tranquilo ao transar. Estou tomando o medicamento e me sinto melhor comigo e com a experiência do sexo, mesmo sabendo que posso pegar outra doença”, disse.

Não é para todos

Nem todo mundo pode tomar a PrEP. Segundo o Ministério da Saúde, os médicos prescrevem o medicamento para pessoas que tenham maior chance de entrar em contato com o HIV por não usar preservativos nas relações sexuais, principalmente anais. Os públicos prioritários para PrEP são as populações-chave, que concentram o maior número de casos de HIV no País: homens que fazem sexo com homens (HSH); pessoas trans; trabalhadores(as) do sexo e parcerias sorodiferentes (quando uma pessoa está infectada pelo HIV e a outra não).

O simples pertencimento a um desses grupos, porém, não é suficiente para prescrição da PrEP, que poderá ser indicada para pessoas pertencentes aos grupos prioritários citados, que realizaram sexo anal ou vaginal sem preservativo nos últimos seis meses e/ou apresentaram episódios frequentes de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) ou uso repetido da Profilaxia Pós-Exposição (PEP).

O atendimento para PrEP é eletivo e o interessado precisa ir ao Clementino Fraga, de segunda a sexta e agendar uma consulta, que será realizada nas terças pela manhã ou quinta à tarde.

No dia do atendimento, que dura mais de uma hora, a pessoa conversa com um assistente social ou psicólogo, onde são passadas as orientações, bem como analisado se a pessoa está apta ao tratamento. Decidido dar continuidade, o usuário faz a consulta com o infectologista, que vai passar exames laboratoriais que mostrem que aquela pessoa está apta a usar a PrEP. Saúde dos rins e fígado são alguns dos pontos analisados.

Críticas são contestadas

Uma das críticas voltadas ao uso da PrEP, sobretudo por grupos sociais e políticos mais conservadores, é que ela poderia provocar uma maior exposição às outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST). Ao saber da existência de um método que impede a contaminação por HIV, as pessoas abandonariam de vez o preservativo, afirmação contestada por quem está próximo dessa realidade.

A diretora do Complexo de Doenças Infecto-Contagiosas Clementino Fraga, Thaís Matos, é uma delas. Ela disse que o que tem percebido é que, ao iniciar a PrEP, as pessoas se tornam mais responsáveis pela própria saúde, criando para si uma nova cultura de cuidado, segurança e responsabilidade.

“Por incrível que pareça, quem faz o uso da PrEP, com o passar do tempo, consegue ter no seu cotidiano aquilo que a gente chama de ‘cultura de segurança’. A pessoa passa a ter mais acesso a médicos, exames e passa a se cuidar mais, inclusive usando mais preservativo. As próprias indicações do Ministério da Saúde já diziam isso e é o que estamos avaliando: a cultura de cuidado aumenta, porque a pessoa consegue conversar mais com o profissional de saúde, tem o retorno ao médico. Cada vez mais elas chegam com a vontade de entender a própria saúde, fazer os exames e se cuidar”, disse.

Quem quer ter relações sexuais sem preservativo – mesmo conhecendo os riscos do ato, mesmo tendo acesso ao método, dizem os especialistas – , continuará sem camisinha. A PrEP chega para conter o risco de contaminação por HIV, uma vez que sozinho o preservativo não tem conseguido diminuir estes novos casos.

Só na Paraíba, nos últimos dez anos, cresceu em mais de 174% o número de jovens (15-39 anos) que contraíram o vírus, segundo dados da SES.

Remédio pode abrir guarda

O Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA), no Cais de Jaguaribe, em João Pessoa, é outro espaço que realiza o teste rápido para HIV e outras IST na Paraíba, além de fazer os encaminhamentos para o tratamento das doenças. Lá, a Coordenação de Enfermagem não notou crescimento de casos de IST desde que a PrEP passou a ser ofertada, mas entende que a situação não é impossível. “Ainda não temos trabalho que confirme e associe o crescimento no índice das Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) ao uso da PrEP, mas este é um temor. Há um temor que de certa forma o uso da PrEP abra guarda para que as pessoas não busquem a prevenção das outras doenças, como Sífilis, gonorreia e outras”, disse a coordenadora de Enfermagem do SAE/CTA, Sara Lucrécia.

A pesar do temor, a especialista acredita que a PrEP vem somar na luta contra o HIV. “Ela é destinada às pessoas que por alguma razão falham no uso do preservativo. Quando fazemos alguns aconselhamentos, antes de aplicar um teste de HIV, vemos a vulnerabilidade destas pessoas, que têm a consciência da necessidade do uso do preservativo nas relações sexuais, mas mesmo assim não utilizam por vários fatores. Essas pessoas, que têm a consciência, mas mesmo assim abrem guarda, usam a PrEP, para não ter um índice crescente em relação ao HIV”, disse Sara Lucrécia.

CG e Patos terão PreP

Na Paraíba, a PrEP só é ofertada no Complexo de Doenças Infecto-Contagiosas Clementino Fraga, em João Pessoa, com 69 usuários ativos. A partir do próximo ano, a expectativa da Secretaria de Estado da Saúde (SES) é que o medicamento também esteja disponível em Campina Grande e Patos, Sertão paraibano, no Serviço de Atenção Especializada (SAE).

A gerente operacional de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) e Aids da SES, Ivoneide Lucena, destacou que o medicamento tem o objetivo de tratar uma realidade que não se pode fugir: as pessoas seguem tendo relações sexuais sem preservativo, apesar de todas as campanhas educativas e fácil acesso ao método.

“Ele reduz em mais de 90% as chances de contrair o vírus HIV. Várias pesquisas já foram feitas mostrando a eficácia do medicamento, a primeira delas em Paris. Existem pessoas que não usam camisinha, é uma realidade, tanto que já temos uma lista de espera, sobretudo de casais sorodiferentes, quando um tem HIV e outro não, mas querem ter relação sexual sem preservativo. A partir do momento que eles fazem outros testes, como sífilis e hepatite, e veem que não têm risco real, ou seja, que nenhum deles têm essas doenças, usam a PrEP para que o que não tem HIV não absorva do seu companheiro”.

A PrEP, ressalta a representante da SES, é uma nova tecnologia, que faz com que populações com perfil muito específico fiquem protegidas. “Não podemos falar que é uma nova ‘pílula do dia seguinte’. É uma nova forma de prevenção. O ideal é a prevenção combinada, quando se tem várias atitudes para se prevenir. A cada seis meses fazer teste HIV, tomar a vacina de Hepatite B, usar preservativo, usar a PrEP ou PEP, são atitudes diárias que você pode estar definindo para se proteger do HIV e IST”, disse Ivoneide Lucena. BP

Adriano e Marta (nomes fictícios) são casados. Ele tem HIV. Ela não tem. Mas juntos, desejavam um filho biológico. Semana passada conseguiram engravidar, com praticamente zero chances de transmissão do vírus tanto para ela quanto para o bebê que virá, graças ao tratamento via Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), que na Paraíba está sendo ofertado há quatro meses via SUS pelo Complexo de Doenças Infecto-Contagiosas Clementino Fraga, em João Pessoa. Na edição impressa do Jornal CORREIO deste domingo (16) você pode ler outras histórias.

A PrEP é a combinação de dois medicamentos: tenofovir + entricitabina, que juntos bloqueiam alguns “caminhos” que o HIV usa para infectar o organismo. Tomando diariamente, a medicação pode impedir em mais de 90% dos casos que o HIV se estabeleça e se espalhe no corpo, possibilitando que quem o tome tenha relações sem uso do preservativo. Uma rotina sexual ou reprodutiva sem grandes limitações, graças à tecnologia farmacêutica.

Diretora do Clementino Fraga, Thaís Matos disse que foi o primeiro caso de gravidez de pessoas em uso da PrEP na Paraíba, um avanço quando se pensa em relações sexuais de pessoas sorodiscordantes. “É um planejamento. Comemoramos no hospital esta semana esta gravidez, porque ela atinge uma das metas da PrEP, que é a possibilidade de engravidar num casal sorodiscordante. Ele tem HIV, com uma carga viral indetectável; ela não tem HIV e está tomando a PrEP”, disse.

No total, 69 pessoas fazem uso da PrEP na Paraíba, segundo dados do Clementino Fraga. Destes,  47 são pessoas com parceiro sorodiscordante (sendo 30 delas pessoas heterossexuais e 17 homossexuais); 20 são homens que transam com homens; 6 são profissionais do sexo; e 1 pessoa trans.

Artur Silva (nome fictício), 26 anos, também utiliza o medicamento todos os dias. Por duas vezes, teve relações sexuais sem preservativo com pessoas de sorologia desconhecida. E por duas vezes ficou na janela imunológica, período de 30 dias utilizado pelo Ministério da Saúde para detectar a infecção pelo vírus HIV. Para não correr mais riscos, resolveu iniciar o tratamento por PrEP.

“Eu não consigo transar com camisinha. É mais fácil transar correndo o risco do que com camisinha. Já tentei várias vezes e para mim nunca foi bom. Quero ter uma vida sexual que me satisfaça, mas não quero correr o risco de pegar o HIV. Sei que tem tratamento e que hoje se vive normal, mas ainda assim não tem cura e quero ficar tranquilo ao transar. Estou tomando o medicamento e me sinto melhor comigo e com a experiência do sexo, mesmo sabendo que posso pegar outra doença”, disse.



Onde a PrEP é aplicada na Paraíba:



Complexo de Doenças Infecto-Contagiosas Clementino Fraga



Endereço: R. Esther Borges Bastos, 599 – Jaguaribe. João Pessoa



Telefone:(83) 3218-5415



Consultas PrEP: Terças e quintas, manhã e tarde.



Acesso ao PEP: Todos os dias, porta de urgência.



A médica infectologista do Hospital Universitário (HU) da UFPB e do Complexo Hospitalar Clementino Fraga, Joana D'Arc fala sobre o tratamento



Existe o risco de banalização do sexo após implantação da PrEP?



A banalização do sexo e o aumento do risco de se pegar outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) não tem ligação com a PrEP. Para implantar o medicamento aqui no Brasil, foram observados diversos estudos de pessoas em uso de PrEP e a possibilidade de contaminação por infecções sexualmente transmissíveis e não se observou, nestes grupos, aumento de casos quando comparado com a população em geral, que não usa a PrEP.  Isso deixa claro que não é o medicamento que vai favorecer o aparecimento de outras doenças de transmissão sexual.



Mas ainda há muita irresponsabilidade nas relações sexuais?



A gente percebe que existe de um modo generalizado de um comportamento, sobretudo de pessoas jovens, que não se preocupa com a proteção no ato sexual, sobretudo porque não viram a cara da AIDS nos anos 80 e 90, quando a doença era grava. Então essas pessoas têm uma preocupação muito menor com o HIV e com a exposição a outras doenças de transmissão sexual.



As taxas de novos casos de HIV seguem crescendo. Onde estamos errando?



N a minha observação o que tem falhado é que o comportamento sexual ele precisa ser trabalhado desde muito cedo. Não é esperar a pessoa ter atividade sexual para poder divulgar e tentar sensibilizar para práticas sexuais seguras. Isso precisa acontecer no final da infância e início da adolescência, para que a pessoa inicie a atividade sexual com essa consciência. Mas mudar comportamento sexual das pessoas é muito difícil.



A PrEP então é um meio de tentar diminuir isso?



Sim, a própria estratégia da PrEP é tentar diminuir o número de casos. Porque você vai trabalhar as populações vulneráveis à contaminação. Quanto menos pessoas infectadas, menos transmissão. Neste aspecto, tanta a estratégia de PrEP, quanto de PEP  (Profilaxia Pós-Exposição de Risco) são muito importantes.



Ao meu ver, parecem medicamentos de ponta... 



Sim… Os dois medicamentos representam uma grande evolução. São antivirais combinados que tendem a agir muito rapidamente para não permitir que o vírus entre na célula. Do ponto de vista tecnológico e científico é um grande avanço. Ela trata antes de acontecer a infecção. A PEP já é ofertada em vários países, mas a PrEP ainda são poucos que adotam.



Ofertar a PrEP e PEP coloca a Paraíba num certo pioneirismo?



No contexto de Brasil, a gente percebe que existe sim um protagonismo da Paraíba nessas ações, uma vez que vários outros Estados do país ainda não conseguiram efetivamente implantar. Isso envolve toda uma dinâmica de serviço de referência, que tenha diversos profissionais treinados para esse serviço, porque não é só um médico, mas sim uma equipe multidisciplinar. A Paraíba está ofertando em João Pessoa é muito importante e mostra seu protagonismo na área de HIV.



Patos e Campina devem ofertar próximo ano. Qual importância disso?



É muito importante, isso precisa ser expandido. Na verdade há uma dificuldade de acesso dos pacientes dos municípios mais distantes de acessarem esses tratamentos. O que observamos é que a maioria das pessoas que estão em PrEP são pessoas com escolaridade maior e com melhor acesso à informação. Isso é em todo o país. Então precisamos isso precisa ser levado também para as pessoas com menor condição social e cultural para que elas entendam do que se trata a PrEP, daí a importância para que ela se interiorize.



Leia Mais

Relacionadas