quarta, 19 de dezembro de 2018
Paraíba
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Memórias da Paraíba se desfazem com os trilhos

Beto Pessoa / 04 de novembro de 2018
Foto: Alessandro Potter e Sintefep
O Sol apareceu há pouco tempo no céu do Sertão paraibano, mas Martins Rodrigues, 68 anos, já está na antiga Estação Ferroviária de Sousa. Desde muito jovem, ele circula por aquela região, onde, nos anos 80, instalou seu pequeno comércio de venda de sopas e caldos. Antes, o calor sertanejo se misturava ao fervor das centenas de pessoas que circulavam naquele espaço, no entra e sai dos vagões que chegavam de Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte. Hoje, poeira e vazio se mesclam às memórias de um equipamento que não tem sido perdoado pela ação do tempo.

“É um sentimento de tristeza. Um patrimônio deste tamanho, que movimentava nosso Centro, assim, abandonado. Aqui tinha um quadro de 140 funcionários, pessoas que movimentavam a economia da cidade. Aí hoje está desse jeito, entregue aos vândalos. A Energisa cortou a luz, então os refletores que iluminavam a estação deixaram de existir. A estação foi invadida, roubaram os birôs, documentos históricos e hoje muita gente usa o lugar para consumir drogas. Para gente, que viveu isso aqui, é doloroso”, lamenta o aposentado comerciante.

Os trens, que na época serviam para encurtar distâncias, transportavam pessoas e cargas, desembarcando na Estação de Sousa experiências e histórias. No final dos anos 80, o local foi perdendo viagens e hoje está sendo vencido pelo tempo que não perdoa, quando não há cuidado. Paredes rachadas, portas quebradas e estruturas deterioradas, memórias que vão apagando dia a dia, misturadas às pichações, lixos e restos de materiais usados para consumo de drogas. Entre as duas edificações, resiste a barraquinha de Martins Rodrigues, o último suspiro de vida naquele espaço.

“Hoje tô praticamente ‘enjaulado’. Tive que colocar grade em tudo, porque já arrombaram várias vezes. Até pelo teto já entraram, acredita? A gente tem medo, mas não posso abandonar isso aqui. Isso representa tudo para mim. Quando abri meu negócio, na época da ditadura militar, eu não tinha nada, só uma esposa e uma geladeira. Daqui, consegui comprar um terreninho e construir minha casa, consegui formar minhas duas filhas, uma assistente social e uma fisioterapeuta, e meu filho pode estudar e passar em concurso público. Hoje ele é maquinista, no Ceará”, disse o comerciante.



A Estação de Sousa é uma das 22 estações espalhadas Paraíba adentro, segundo dados do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias no Estado da Paraíba (Sintefep). Ela recebia trens vindos do Recife, Fortaleza e Mossoró, tanto transportes de passageiros quanto de cargas. O primeiro modal deixou de funcionar no final dos anos 80. O segundo, interrompeu operações há aproximadamente sete anos atrás. Hoje, a empresa responsável pela administração da malha ferroviária paraibana encerrou CNPJ no Estado, segundo do Sintefep.

“Vinha muita gente das cidades vizinhas, da zona rural, conhecer a estação. Aqui era um ponto de encontro, coisa bonita de se ver. As maria-fumaça, o povo que vinha para conversar, para ver o trem pela primeira vez. Era bonito de se ver... Quando resolvi investir aqui, nos anos 80, consegui a permissão para abrir meu negócio por tempo indeterminado. Mas não podia vender álcool, porque podia causar algum acidente entre os passageiros e trens. Até hoje não vendo, continuei vendendo só minhas sopas e meus caldos, preferi manter como sempre foi”, destaca Martins Rodrigues, preso a um passado que não sabe se volta.

Paraíba era rica em malha ferroviária



Nos anos 60, a Paraíba vivia uma eferverscência ferroviária. Um entrocamento, na cidade de Itabaiana, permitia que passageiros e cargas, vindos de Pernambuco, seguissem para o Ceará ou Rio Grande do Norte. O trem que partia para o primeiro Estado cruzava estações nas cidades de Ingá, Galante, Campina Grande, Pocinhos, Soledade, Juazeirinho, Assunção, Areia de Baraúna, Patos, Malta, Pombal, São Domingos, Sousa e São João do Rio do Peixe; o que decidisse ir para o Rio Grande do Norte, seguia a partir da estação Paula Cavalcanti, em Cruz do Espírito Santo.



A Paraíba possui ainda estações nas cidades de Cabedelo, João Pessoa, Santa Rita, Duas Estradas, Sapé, Mari e Guarabira. Membro da diretoria do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias no Estado da Paraíba (Sintefep), Anselmo Tavares lembra como o Estado já foi rico em malha ferroviária, cenário que destoa do que é visto atualmente.

“Hoje só funciona a ferrovia da Região Metropolitana de João Pessoa. Nem Campina Grande, que é a segunda maior cidade do Estado, conservou o espaço. Apesar dela estar numa área central, tem um grande território que é desabitado, sem iluminação. Fica um buraco negro imenso entre o bairro do Centenário e o bairro da Liberdade. Você tem uma cidade grande, com um patrimônio daquele, e não se faz nada”, lamentou.

O representante dos ferroviários no Estado explica que este cenário é o mesmo em diversos outros equipamentos. “A única estação que estava operando até 2012 foi Itabaiana. Nossa ferrovia, que chegou muito antes da CBTU, foi inaugurada em 1957, e tinha dois modais: passageiro e carga. Nós tínhamos o trem que vinha de Pernambuco até o Ceará, o chamado Asa Branca. Era um trem de longo percurso, saía de Recife. Era uma máquina grande, com vagão para restaurante, modelo que vemos até hoje em cidades europeias, mas que na Paraíba e boa parte do Brasil foi colocado de lado, até que desapareceu”, disse.



Em 2017, a Sintefep estudou a viabilidade da ampliação do transporte ferroviário de pessoas. A CBTU passaria a operar de Santa Rita até Guarabira. Por falta de apoio político, o projeto não andou e hoje o transporte público ferroviário só alimenta a Grande João Pessoa. Hoje são 30 km de ferrovia, que vão de Cabedelo até Santa Rita.





Ao passo que o país seguia investindo em rodovias, seguindo um modelo de desenvolvimento norte-americano, as ferrovias foram deixadas de lado no Brasil. Na Paraíba, o abandono foi intensificado entre os anos 70 e 80, até chegar ao cenário atual, onde só a Região Metropolitana tem vivos seus trilhos.

“A FTL (Ferrovia Transnordestina Logística) encerrou o CNPJ na Paraíba. Ela não tem mais operação alguma aqui, não tem mais funcionários e não devolveu o trecho, por questões contratuais. Ela é ligada a CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), que comanda as ferrovias em sete Estados, dos quais deixou de operar em Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte”, explicou o representante do Sintefep.

Em 2015, o Sintefep entrou com uma ação no Ministério Público Federal (MPF) contra a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), a União, a Transnordestina Logística SA (TLSA e a FTL (Ferrovia Transnordestina Logística). No documento, denunciam o abandono da malha ferroviária paraibana.



“Em 1998, a Companhia Ferroviária do Nordeste (CFN), empresa do grupo CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), assumiu a malha ferroviária da região. Em 2008, a CFN passou a se chamar Transnordestina Logística SA (TLSA). Em 2014, houve uma cisão: a TLSA ficou com novas obras ferroviárias e nasceu a ‘moribunda’ FTL, que ficou com a malha antiga, entre elas a Paraíba. Em outubro de 2017, FTL encerrou o CNPJ no Estado, dando fim a todas atividades operacionais”, Anselmo Tavares - Sintefep





Municípios podem assumir





Hoje, as estações ferroviárias têm tombamento temático pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Para fazer uso desses equipamentos, o órgão precisa ser provocado e, junto com os interessados, monta um projeto de requalificação da área. É o que deve acontecer na maior cidade do Sertão paraibano, Patos.

Em entrevista ao CORREIO, a presidência da Fundação Cultural de Patos (Fundap), órgão ligado à Prefeitura Municipal, disse que um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) foi firmado com os responsáveis pelo Patos Shopping, em construção na cidade, após aprovação do Iphan. O empreendimento ficou responsável pela reforma e requalificação do entorno e do edifício da estação ferroviária da cidade. O espaço, depois de pronto, será administrado pela gestão do município, que criará um centro cultural.



O transporte de cargas que cortava a Região Metropolitana de João Pessoa utilizava a mesma linha hoje usada pela CBTU, entretanto as viagens eram realizadas a noite, quando não existia transporte de pessoas.





Também no Sertão, o Iphan será o responsável pela reforma e requalificação das estações de Sousa e São João do Rio do Peixe, segundo informações do superintendente do órgão na Paraíba, José Carlos de Oliveira. “Temos um recurso, do DNIT, na ordem de R$ 1,2 milhão para esse investimento. Esse recurso já entrou e saiu várias vezes das nossas contas, por falta do projeto de requalificação. Desde que assumi a superintendência estamos trabalhando para finalizar e iniciar as intervenções”, disse.

A reportagem buscou a Prefeitura de Campina Grande (PMCG) para saber se há projetos de reforma e requalificação da Estação Ferroviária da cidade, mas até o fechamento desta edição não teve pronunciamento da Secretaria de Comunicação da cidade.

Na avaliação do superintendente do Iphan, recuperar as estações de trem é retomar à memória histórica e afetiva do Estado e suas cidades. “No momento em que requalificamos a estação, criamos um ambiente propício às recordações de um tempo de crescimento daquele lugar. É um espaço para repensar a história de crescimento do futuro com base no passado, retomando o crescimento econômico, social, político e humano desses lugares. Há cidades, como Sousa, com fortes potenciais turísticos. A requalificação destes espaços irá desenvolver ainda mais essas regiões”, disse.



União Europeia aponta que 71% das emissões totais de CO2 são dos transportes rodoviários. Os transportes marítimos e aéreos são responsáveis por 14% e 13% das emissões, respectivamente, e a navegação por vias interiores produz apenas 2%. O transporte ferroviário é o menos poluente, com emissões inferiores a 1%.



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