sábado, 21 de setembro de 2019
Paraíba
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Mais de 400 meninas entre 11 e 14 anos de idade tiveram filhos no ano passado

Lucilene Meireles / 17 de fevereiro de 2019
Foto: Assuero Lima e Nalva Figueiredo
A adolescência é um período de mudanças, um momento de transição entre a infância e a fase em que o corpo começa a ganhar novas formas e sensações. Nesta etapa, ocorre a primeira menstruação e, a partir daí, vem uma série de transformações. Surgem as curiosidades, a busca por informações e o despertar da sexualidade cada vez mais cedo. É fato que as meninas amadurecem rápido, mas elas têm antecipado – e muito - o ciclo natural da vida. Para se ter ideia de como têm sido precoces, só em 2018, quase dez mil meninas foram mães na Paraíba e destas, 456 tinham idade entre 11 e 14 anos, segundo a Secretaria de Estado da Saúde (SES).

Além das transformações físicas, ser mãe com tão pouca idade traz mudanças drásticas no dia a dia de uma criança ou adolescente, muda a rotina interrompendo – muitas vezes - a ida à escola, o hábito de dormir a noite inteira e de acordar tarde, adia sonhos, desvia o foco, transforma a mente e, na maioria das vezes, impede a realização de objetivos traçados.

Especialistas destacam que pode haver riscos para a saúde das meninas na gravidez, que é considerada de risco. Entre as consequências, estão a hipertensão, aborto, nascimento prematuro e até a morte materna, dependendo das condições de cada gestante. A primeira semana de fevereiro, inclusive, é lembrada como Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência, alertando para todas as questões acerca da gravidez de adolescentes.

Para elas, no entanto, apesar dos riscos, ser mãe antes da idade adulta é uma experiência positiva, de crescimento, amadurecimento e consciência da responsabilidade que a nova condição exige.

Amadurecimento. Maria Íris Pereira Teixeira tem 17 anos e já é mãe de duas meninas, Ester Vitória, de um ano e meio, e Maria Elloá, recém nascida, que nasceu prematura, com apenas 32 semanas e está na UTI há quase um mês.

“Minhas duas filhas nasceram de parto normal e, para mim, ser mãe é maravilhoso. É uma experiência muito boa tê-las comigo”, declarou Íris, que mora no município de Rio Tinto.

Apesar de saber todas as informações sobre como prevenir a gravidez, ela confessa que as duas aconteceram por descuido. Morando atualmente com a mãe, avó das meninas, ela conta que os pais de ambas são presentes e contribuem para o sustento das crianças.



Deixei a escola no 7º ano, deixei para depois os cursos que pretendia fazer e, além disso, não posso trabalhar. É complicado, mas eu acredito que vai dar certo. Por enquanto, eu apenas adiei alguns sonhos”, afirmou a adolescente que pretende voltar a estudar e se especializar na área de estética.





Ainda com dificuldade para caminhar após o parto cesariana realizado há um mês, Joyce Vieira Nascimento dos Santos contou que foi bem difícil quando, aos 16 anos, engravidou pela primeira vez. “Hoje tenho 18 anos e estou mais tranquila com Eric, meu segundo filho. Mas, na primeira gestação, muita coisa passou pela minha cabeça. Eu não sabia como iria ser e deu um pouco de medo”, admitiu.

No entanto, quando Evelyn, a mais velha, nasceu, tudo mudou na vida da jovem mamãe. “Sei que amadureci antes do tempo, mas mesmo com algumas dificuldades, é uma fase que está sendo muito boa”, declarou a jovem, que mora na Comunidade do ‘S’, em João Pessoa.

Para ela, ser mãe de duas crianças tão cedo trouxe uma experiência de vida bem diferente do que era seu cotidiano. “Tenho tido novas descobertas a cada dia. Às vezes, eu penso que poderia ter deixado para mais adiante, mas estou muito feliz com meus filhos”, garantiu.

“Parei de sair”. Acostumada a ter liberdade para sair de casa e se divertir com as amigas, a adolescente Mickaely Bezerra Rodrigues, 14 anos, teve que mudar drasticamente sua rotina quando soube que esperava um bebê. Mal havia saído da infância e descobriu que seria necessário pular algumas fases da vida.

Na época, cursando o 3º ano do ensino fundamental, ela decidiu parar de estudar e passou a se dedicar exclusivamente à espera de Driely Hadassa, que completou cinco meses de vida.

“Desde que eu engravidei, a responsabilidade pesou mais. Cuidar dela é minha obrigação. Deixei de fazer muita coisa, como sair à noite para dançar, passear, mas está sendo bom”, declarou a menina que conta com o apoio da família para cuidar do bebê.

O pai da criança, segundo ela, ajuda, mas atualmente eles mantêm apenas uma amizade. “Sempre fui muito de pensar no presente. Nunca pensei no amanhã. Agora, eu quero mudar isso, tentar voltar a estudar, ter uma profissão para poder garantir o futuro da minha filha. Gostaria de ser uma médica”, confidenciou a adolescente.



A estudante Tatiane Alves Antunes de Siqueira, 15 anos, está na reta final da gestação. A última ultrassonografia aponta que ela alcançou 37 semanas e meia, e a criança deve nascer nos próximos 30 dias. Ansiosa, a adolescente contou que não vê a hora de ver o rosto da filha, cujo nome já escolheu: Ketlyn Sofia. Porém, a descoberta da gestação foi um susto.

“Eu e minha mãe pensamos que eu estava doente quando começaram os enjoos. Eu só piorava e procuramos atendimento médico. Foi aí que descobrimos que eu estava grávida”, contou.

Tatiane, que mora no município de Itapororoca, tinha poucas informações sobre o assunto e engravidou sem usar nenhum método contraceptivo. Ela não soube dizer com quantas semanas descobriu que estava esperando um filho. “Eu vi a barriga crescendo. Aí, a gente fez o exame e deu positivo”, contou.

A adolescente garante que está bem e, apesar da gravidez ter sido inesperada, ela encarou bem a realidade, principalmente porque conta com o apoio incondicional do pai da criança, que mora com ela.



Sei que poderia ter deixado a gravidez para quando estivesse mais velha, mas já que aconteceu, estou muito ansiosa e sei que vou conseguir dar conta. Estou preparada. Tenho experiência de cuidar dos meus irmãos e isso vai me ajudar. Estou deixando de ser criança para cuidar da minha filha”, afirmou ela, que tem sete irmãos. A mãe, que teve o primeiro filho com 15 anos, acabou de ter o caçula.





Por causa da gravidez, Tatiane também abandonou a escola, mas diz que planeja retomar os estudos assim que a filha Ketlyn Sofia puder ficar numa creche. “Quero dar um futuro bom para ela”.

Grávida aos 14 anos. Vinte e nove semanas se passaram desde que a adolescente Aline Vitória França de Souza, 15 anos, descobriu que iria ser mãe. A barriga de seis meses mal aparece na menina franzina, com aparência de criança, mas ela afirma que já se sente completamente envolvida com a maternidade.

Agora, a situação está tranquila e ela passa alguns dias no hospital para tratar de uma anemia e infecção urinária. Porém, a tensão tomou conta da adolescente na hora de contar a notícia para os pais. “Meu maior medo não foi nem descobrir que estava grávida, mas da reação dos meus pais. Fiquei bem assustada porque não sabia como eles iam receber a notícia. Engravidei com 14 anos, completei 15 em dezembro. Sei que é cedo demais, mas agora quero cuidar do meu filho”, declarou.

A família acolheu a menina e, passado o susto, Aline disse que se sente mais segura agora. Apesar da pouca idade, ela afirmou ter experiência como babá. “Sei dar banho, fazer mingau, trocar fralda”, orgulhou-se a menina que estava cursando o 8º ano. “Estou matriculada e, assim que for possível, volto a estudar”, ressaltou.

O sonho da garota que viu as perspectivas de vida mudarem do dia para a noite é ser enfermeira ou técnica de enfermagem. Enquanto isso, espera Whackslon, que deve nascer dentro de três meses. O pai, apesar de não manter mais relacionamento com Aline, acompanha de perto a gestação, assim como o atual namorado da adolescente.



Educação sexual nas salas de aula



A educação sexual é um dos temas que a Secretaria de Estado da Saúde aborda no Programa de Saúde na Escola (PSE), que desenvolve em parceria com a Secretaria de Educação. Esse programa existe desde 2007 e tem como objetivo contribuir para a formação integral dos estudantes por meio de ações de promoção, prevenção e atenção à saúde, com vistas ao enfrentamento das vulnerabilidades que comprometem o pleno desenvolvimento de crianças e jovens da rede pública de ensino. O programa é essencialmente intersetorial de qualificação das políticas públicas.

Risco. Para gestações a partir de 14 anos, sem risco, o atendimento às mulheres é feito na atenção básica, ou seja, nas Unidades de Saúde da Família (USFs). Aquelas que são consideradas de risco, incluindo as que têm idade abaixo de 14 anos, são acompanhadas nos ambulatórios das maternidades - Instituto Cândida Vargas, Frei Damião ou Hospital Universitário Lauro Wanderley (HULW).De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de João Pessoa, através das áreas técnicas de saúde da criança e do adolescente e da saúde da mulher, são realizadas ações preventivas nas escolas e nas unidades de saúde com orientação e palestras educativas. Em caso de gravidez são acompanhadas conforme recomenda os protocolos de atendimento a gestante.

Acompanhamento psicológico



No Instituto Cândida Vargas (ICV), maternidade de referência em gestação de alto risco em João Pessoa, todas as adolescentes grávidas são acompanhadas pelo setor de Psicologia. “Quando as adolescentes dão entrada na maternidade, elas vão para o setor do pré-parto ou para a Unidade de Cuidados à Gestante (UCG), que é para tratamento clínico. Nesses setores, tem psicóloga que fica fazendo o atendimento diariamente”, explicou.



As psicólogas observam como a gestante está emocionalmente. “A gente dá o suporte quando necessário, quando estão desestabilizadas emocionalmente, quando têm dúvidas em relação ao tratamento. Trabalhamos muito a questão da psicoeducação”, disse Ângela Menezes, psicóloga do ICV.



De acordo com ela, o setor também faz o link entre a gestante e a equipe. “O trabalho é oferecer o bem estar à gestante enquanto ela estiver no hospital. Isso diminui o nível de ansiedade, porque elas têm informação sobre todo o quadro dela, sobre a saúde do bebê. Conseguindo se comunicar com a equipe e sabendo de suas condições, elas ficam bem mais tranquilas”.



Além das psicólogas, as gestantes são acompanhadas por uma equipe multiprofissional composta por enfermeiro, médico, técnico de enfermagem, fisioterapeuta. Em casos especiais, também há nutricionista para mulheres com DEG (doenças da gestação) que geralmente são hipertensão ou diabetes, geralmente ocasionadas no final da gestação. 





Pais devem ter controle



“A questão da gravidez na adolescência tem uma relação direta com a educação que os pais ofereceram, do controle deles sobre os filhos que deixou de existir.



A libertinagem que existe hoje do adolescente com relação a pai e mãe é total. Os pais pensam que se disserem não à criança, ela vai deixar de gostar deles. São certos fatores que começam em casa, com os pais, e terminam com o mundo”, enfatizou o médico Quintino Régis de Brito Neto .



Em sua análise, a televisão é um fator predisponente. “Influencia para o lado errado, incentivando a criança e o adolescente à liberdade sexual. Namorou, está na cama. Marido e mulher não se resguardam mais à fidelidade. A mulher, que tinha um preconceito maior em relação à fidelidade, deixou de ter por influência de organismos externos que chegam na sua casa todo dia. E não adianta os pais dizendo que o certo é esse se, por outro lado, tem outra coisa dizendo que não é”, completou.



Desencontro com a identidade



“Falar de meninas no estágio pré-púbere é muito relativo, primeiro porque a gente não sabe qual foi a educação que a ela foi imposta, o cenário familiar que convive, a maneira como ela entende o que é ser mãe, o que é praticar essa maternagem.



Enquanto terapeuta, já vi situações de meninas nessa fase que me surpreenderam positivamente e, obviamente que uma grande maioria, que ainda está presa à fase de liberdade, da própria independência, da autonomia e a dependência que envolve dos pais, da casa e até mesmo dependendo do que está convivendo com a vida, com os estudos. E aí, realmente, é um desencontro com essa identidade”. A análise é da psicóloga clínica da Interser, Danielle Diniz. .



Ela considera que toda a situação depende muito de como a menina, adolescente foi educada, de como ela adentrou na vida afetiva e sexual. “Depende muito de vários itens e não necessariamente da própria maternagem, mas de valores, de princípios, de sociabilidade, da forma como ela se relaciona com ela mesma, com as pessoas que estão próximas”.



Para a psicóloga, às vezes, a gravidez precoce é uma consequência da irresponsabilidade de manter uma relação sexual, inclusive porque muitas nem desejam estar grávidas, enquanto outras, sim.



“Eu considero que a condição social tem influência numa gravidez precoce, uma vez que a falta de informação, de diálogo, até mesmo do próprio estímulo educacional acerca das informações que envolvem a sexualidade, a gravidez precoce, faz com que muitas delas caiam nessa vida de bebida, de cigarro, festinha, influência de amigos, até mesmo de outras coisas que não estão dentro de um contexto adequado social e familiar”, observou Danielle Azevedo.





Tudo vai depender muito de como essa família introduz esses valores. Infelizmente, não levando em consideração o preconceito, mas nas famílias com baixa renda, um pouco menos capazes a nível hierárquico, a gente consegue enxergar mais essa realidade”, concluiu.



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