domingo, 19 de maio de 2019
Paraíba
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João Pessoa ruma para o Sul, mas com sacrifícios

Katiana Ramos e Lucilene Meireles / 09 de dezembro de 2018
Foto: Assuero Lima
Nos últimos oito anos, conforme dados da Secretaria de Planejamento do Município (Seplan), o crescimento habitacional da Zona Sul de João Pessoa aumentou em 280%, chegando a cerca de 423 mil moradores. Entre programas de habitação social e construções particulares, o novo desenho urbano da região pessoense revela um crescimento urbano que une a malha urbana da Capital aos municípios de Alhandra e Conde, na Região metropolitana. Contudo, esse ‘espalhamento da cidade’ nem sempre vem acompanhado de infraestrutura básica.

Nos conjuntos mais antigos, como José Américo, Ernesto Geisel, Valentina Figueiredo e Mangabeira, a disponibilidade de poucos lotes para novas construções tem dado lugar à verticalização nessas localidades com preços nem sempre atrativos para quem opta por financiamentos mais populares. Na contrapartida, são centenas de hectares cobertos por vegetação em bairros como Colinas do Sul, Gramame, Paratibe, Cidade dos Colibris, Portal do Sol e Bairro das Indústrias, com espaço de sobra para continuidade da expansão urbana da cidade. De acordo com informações da Seplan, são 100 loteamentos mapeados na região da Zona Sul.

Nos loteamentos novos, sobretudo nos conjuntos construídos pela Prefeitura de João Pessoa e governo do Estado, as ruas que circundam as edificações são calçadas, mas o restante do bairro parece alheio a tudo isso.

Visando o futuro. Todos os projetos que são aprovados na Região Sul de João Pessoa passam por uma rigorosa análise, segundo José Rivaldo Lopes, diretor de Controle Urbano, da Secretaria de Planejamento da Capital.

“A Prefeitura sempre vai lá e autua para que seja regularizado o que não está. Do ponto de vista do crescimento, a Prefeitura de João Pessoa está iniciando agora um programa de desenvolvimento urbano integrado e sustentável. Ele planeja e projeta a cidade de João Pessoa para os próximos 30 anos e, com certeza, nesse grande projeto estará também essa inclusão”, afirmou.

O projeto trará toda a modernização da legislação, a regulamentação de uso do solo, a questão da mudança do clima. “Tudo está na dimensão sustentável ambiental e de mudança de clima. Com essa dimensão vai estar também esse ordenamento do solo da cidade de João Pessoa”.

Em relação à ocupação de imóveis públicos, o diretor afirmou que a Prefeitura trabalha de forma integrada e sustentável. O trabalho começou pelo Centro Histórico, passando pela Praça da Independência, Avenida Getúlio Vargas que foi totalmente revitalizada, chegando ao Parque da Lagoa, Praça João Pessoa, Pavilhão do Chá, Praça 1817, com a integração do Hotel Globo, Villa Sanhauá. “Essas obras não só trazem habitação para dar vida à cidade, mas também a questão institucional”, destacando que a ocupação dessas áreas é importante.

Sacrifícios diários





Foi longe de conjuntos habitacionais públicos e entre as dezenas de lotes oferecidos com parcelas de R$ 500 mensais, em média, que a dona de casa Cícera Pereira deixou o bairro do Valentina Figueiredo, onde morava pagando aluguel, e se mudou para o Gramame com a família. O sonho da casa própria está sendo realizado, mas, os sacrifícios são muitos, como o acesso aos serviços de saúde e uma escola mais próximo de casa para matricular o filho, que estuda no Colinas do Sul. “Aqui não tem posto de saúde. Para vacinar o bebê tive que ir no posto do Geisel. Todos os dias ando quase meia hora para levar e pegar meu filho que estuda no Colinas. Foi bom vir pra cá porque a gente saiu do aluguel. Mas, o bairro não tem nada”, reclamou a dona de casa.

Os problemas relatados por ela não são novos. O aposentado José Felipe, que mora no bairro de Gramame há quase 40 anos revela que a única vantagem na chegada de novos moradores é ver a localidade mais habitada e sem a ‘cara de zona rural’. “É a única coisa boa. Quando eu vim morar aqui era tudo granja, sítio. Era bom porque era mais tranquilo. Mas, com essas construções novas a gente esperava que fosse melhorar. Só que até agora nada. Até o posto de saúde que a gente tinha foi transferido para o Colinas do Sul. E essa rua principal é só promessa de calçamento”, desabafou o aposentado.

No Colinas do Sul, para onde Cícera vai diariamente deixar o filho na escola, Aldenira dos Santos reclama da demora em receber os encaminhamentos das solicitações de exames e consultas que faz no posto de saúde. “A gente precisa de uma consulta com psiquiatra, é três, quatro meses para conseguir. Se é pra mostrar um exame, daqui que chegue o encaminhamento para fazer e depois retornar pro médico são mais dois três meses. Quer dizer, a gente não tem como se cuidar direito e vai levando”, disse a dona de casa, que mora no bairro há seis anos.

Demora no transporte público



Quando tem um compromisso e não pode se atrasar, Yannick Vieira já sabe que precisa sair de casa com pelo menos duas horas de antecedência. O motivo: a demora na espera do ônibus que o leva para o Centro da cidade. A insuficiência no transporte coletivo reclamada pelo jovem, que mora no Colinas do Sul, se repete nos bairros do Gramame, Paratibe, Nova Mangabeira e Gervázio Maia, visitados pela reportagem, e é um dos principais problemas que afetam os moradores que vivem na expansão da Zona Sul de João Pessoa.

“Moro aqui há cinco anos e já me acostumei com a demora dos ônibus. Quase todos os dias eu preciso pegar o ônibus das 3 horas para ir até o José Américo e depois pegar outro ônibus para ir até Mangabeira. Sei que se eu perder esse das 3 horas, só passa outro lá pelas 5 da tarde”, lamentou o jovem.

Moradora do condomínio Nice Oliveira, no bairro de Paratibe, Eduarda Santos revela que, apesar das ruas calçadas e de uma infraestrutura básica no condomínio e arredores, as duas únicas linhas de ônibus (118 e 1008) que servem os moradores do conjunto habitacional passam na via principal do bairro e não entram na rua do condomínio. “A gente tem que andar até a principal para pegar o ônibus. Isso para quem sai com criança de colo, para os idosos é complicado. Outro problema é que a noite é muito esquisito pra andar nessa área”, relatou a moradora.

Outra queixa dos usuários dos transportes é com relação à falta de abrigo nos pontos de ônibus. Em todos os pontos somente uma placa fixada nos postes sinalizam a parada. Faça chuva ou faça sol, cabe aos usuários esperar sem nenhuma proteção.

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