sábado, 20 de julho de 2019
Paraíba
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Feridas para aliviar a dor: psicólogos registram casos de automutilação

Lucilene Meireles / 02 de junho de 2019
Foto: Assuero Lima
Espetar agulhas pelo corpo, puxar o próprio cabelo, arrancar a sobrancelha, cortar a pele, esfregar as mãos até sangrar. As atitudes são apenas alguns exemplos do que é a automutilação que, apesar de pouco discutida, é mais comum do que se imagina. O problema tem levado muita gente às clínicas psicológicas e psiquiátricas, embora nem todo paciente procure ajuda. Dentro de casa, no trabalho, na rua, as pessoas se ferem para aliviar dores psicológicas e se escondem atrás do silêncio. Mas, o que as estaria levando a esse ato extremo? O que buscam? À luz da Psicologia, automutilação é um meio de transformar a dor psíquica em dor física. É a tentativa – muitas vezes vã – de amenizar o sofrimento da alma, mas diferente da solução que as ‘vítimas’ querem encontrar, a autoagressão é uma condição que elas não conseguem resolver sozinhas.

Ainda não existem estimativas ou levantamento que apontem o número de pessoas com essa conduta, mas a lei 13.819, que institui a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio e deve entrar em vigor no mês de julho, prevê que esses casos passem a ser de notificação compulsória em todos os estabelecimentos de saúde. A medida vai permitir que o Ministério da Saúde reúna os dados do País e, a partir deles, tomar todas as medidas para prevenir e tratar os casos de autoagressão e, inclusive, de suicídio que podem ser uma consequência.

A psicóloga Marísia Oliveira da Silva, coordenadora da Clínica-Escola de Psicologia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), relatou que a instituição tem atendido e acompanhado casos de automutilação e demais situações envolvendo sofrimento psíquico na Clínica-Escola de Psicologia, que funciona desde a década de 1970, e destacou que o número de pacientes é cada vez maior.

“Temos observado ao longo de sua existência um aumento cada vez mais crescente de pessoas que buscam o atendimento da Clínica de Psicologia. Acredito que isso seja um reflexo do crescente adoecimento psíquico da população em meio a tantas turbulências, privações e angústias oriundas de uma sociedade desigual, preconceituosa e violenta como a nossa”, constatou. Ela destacou, inclusive, que a automutilação tem sido um fenômeno também produzido e incentivado por meio das ferramentas e comunicações virtuais.

O que é. Automutilação é o ato de se autoagredir fisicamente, de provocar dor por meio de cortes, queimaduras ou outros tipos de auto maus-tratos físicos. São condutas que, geralmente, deixam marcas no corpo. Estas, muitas vezes, ficam encobertas pelas roupas de mangas compridas, golas altas, entre outros recursos, o que dificulta a identificação do problema por outras pessoas.

Marísia Oliveira explicou que é importante entender que todo ato, gesto ou comportamento tem um sentido, uma intenção e revela algo que está sendo experienciado pelo paciente. “Em nossa cultura, e no contexto do mundo globalizado, este tipo de conduta revela sofrimento psíquico do sujeito. Ela sinaliza a necessidade ou o pedido de ajuda. Há sempre um tipo de sofrimento psíquico que precisa ser compreendido e cuidado”, constatou.

Evidências dão dicas



O diagnóstico pode ser feito a partir das evidências de que a automutilação está acontecendo com o paciente encaminhado aos serviços de atenção psicológica ou psiquiátrica. A coordenadora da Clínica-Escola da UFPB, Marísia Oliveira, observou que, no caso, dos serviços de atenção psicológica, existem várias abordagens e métodos específicos de avaliação psicológica pra definir um diagnóstico.

“Na perspectiva que eu trabalho, o mais importante é acolher a pessoa que está sofrendo e, por meio de uma escuta sensível e profunda, ir desvelando com o próprio sujeito as bases desse sofrimento no sentido de uma autocompreensão e autossuperação”, destacou. Para a psicóloga, a automutilação é apenas o sinal de que algo mais profundo precisa ser cuidado.

Ouvir o paciente. O acompanhamento psiquiátrico e psicoterápico deve ser regular nesses pacientes, segundo o psiquiatra Estácio Amaro, vice-presidente da Associação Paraibana de Psiquiatria. Ele explicou que, geralmente, a automutilação está relacionada a algum transtorno mental. O diagnóstico é feito pelo psiquiatra em a partir daí, é iniciado o tratamento farmacológico, psicoterápico ou os dois associados.

Além de entender o que desencadeou esse comportamento em alguém, a psicóloga Marísia Oliveira observou que é fundamental ouvir cada paciente em profundidade, demonstrando sensibilidade, acolhimento, respeito e empatia. Esse cuidado, segundo ela, dará segurança para o paciente.

“Fará com que a pessoa se sinta segura para entrar em contato com suas dores mais profundas e poder dar um novo significado a esse sofrimento. Que, assim, possa retomar sua vida numa direção mais construtiva e de crescimento”, disse Marísia Oliveira.

A psicoterapia é uma dessas terapêuticas que podem estar associadas ao tratamento medicamentoso e às Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) que envolvem florais, reiki, massoterapia, ioga, acupuntura, entre outras.

Estresse pode contribuir



O número de pacientes que se automutilam tem aumentado nos consultórios médicos e no atendimento público de saúde. Porém, conforme o psiquiatra Estácio Amaro, não é possível estimar o número de pacientes que sofrem com o problema.

“Geralmente, as pessoas não necessitam procurar serviços de saúde devido à automutilação. E, mesmo para quem procura um serviço de saúde, não há notificação da ação. Portanto, assim como o suicídio, os casos são subnotificados. Muitos negam a automutilação e a tentativa de retirada da própria vida”, declarou.

Na avaliação do especialista, o estresse tem contribuído para as pessoas chegarem a esse extremo. “A configuração estressora do nosso mundo contemporâneo tem levado as pessoas ao desenvolvimento de transtornos mentais, como ansiedade e depressão, que podem cursar com automutilação”, explicou.

Além disso, transtornos do neurodesenvolvimento, como o do espectro autista e deficiência intelectual com alteração comportamental também influenciam. “Quando se fala, em Psiquiatria, em automutilação, é um consenso pensar em um tipo de transtorno de personalidade borderline, que é aquela pessoa emocionalmente instável. E infelizmente existem grupos de redes sociais que são para pessoas que apresentam automutilação e que ensinam métodos para se automutilar”, enfatizou o psiquiatra.

Automutilação e suicídio. Quem se automutila, segundo o psiquiatra, geralmente não apresenta o desejo de se suicidar. A ideia é aliviar o sofrimento psíquico através da dor física ou mesmo autopunir-se. “É mais comum no gênero feminino que no gênero masculino e, cada vez mais, vem aumentando em adolescentes do sexo feminino”, constatou o psiquiatra Estácio Amaro.

Ele afirmou que existem alguns métodos de automutilação que, inicialmente, não são fatais, mas podem se tornar. Um exemplo citado pelo especialista é o paciente se enforcar por alguns instantes e culminar com o enforcamento. A pessoa também pode, tentando automutilar-se levemente com lâmina, tornar o corte mais profundo e levar ao suicídio.

“A intenção de quem se automutila geralmente não é de se suicidar, mas pode ocorrer sem ser a intenção. Também existe a possibilidade de uma tentativa de suicídio apelativa, que é para ‘chamar a atenção’, que pode ser através de automutilação e levar ao suicídio”, analisou.

Orientação para pacientes e família



Nem sempre os casos de automutilação são percebidos pela família do paciente. Por isso, é importante observar se há mudanças. “Se você sente tristeza, angústia, ansiedade ou outro sintoma de depressão, ansiedade, procure ajuda médica e psicológica. E aos familiares, se perceberem as automutilações ou verem as pessoas, mesmo no calor, usando mangas compridas, investiguem para ver possíveis cortes ou cicatrizes”, aconselhou o psiquiatra Estácio Amaro.

Se a automutilação for decorrente de quadros de transtornos do neurodesenvolvimento, há necessidade de tratamento, além da possibilidade do transtorno borderline e que precisa ter acompanhamento psicológico e, às vezes, medicamentoso. “Se você tem dúvida, procure um médico para orientar você. Não sofra. Procure ajuda”, aconselhou.

Cura é possível. A cura do sintoma da automutilação é possível. Porém, é preciso que o paciente se envolva num processo de cuidado e atenção em saúde. É exatamente esse percurso que vai possibilitar uma imersão profunda nas questões existenciais que estão na base do sintoma e do sofrimento psíquico, conforme Marísia Oliveira.

“Entretanto, é preciso atentar que o sujeito adoece no seio de um contexto social que, cada vez mais, tem privado as pessoas das condições favorecedoras de uma existência digna, autêntica e realizadora do ser. A sociedade em que vivemos e sofremos tem imposto privações e gerado sofrimentos de ordem material e relacional com implicações danosas na vida psíquica dos sujeitos”, analisou.

Tratamento na Paraíba



Rede pública

Clínicas-Escola de Psicologia

Serviço de Psiquiatria do HU

Serviço de Psiquiatria de hospitais da Rede de Saúde Pública

Centros de Atenção Integral à Saúde

Centros de Atenção Psicossocial em Saúde

Rede privada

Serviços privados de atenção psicológica e psiquiátrica - consultórios de Psicologia e de Psiquiatria.

Jovem faz pacto pela vida



Aos 23 anos, Luana (nome fictício para preservar a identidade da paciente) entrou num processo depressivo e chegou a tentar o suicídio. Depois da tentativa frustrada, ela passou a se automutilar, usando um barbeador. As lesões eram, principalmente, na parte de trás das coxas. A jovem sentia vontade de ferir os braços, mas evitava porque as marcas ficariam muito expostas. Como a maioria dos pacientes nesta condição, procurava esconder as provas de que estava se autoagredindo.

O psicólogo Davi Corlett, que atua há quatro anos na Clínica-Escola de Psicologia da UFPB, atendeu Luana e contou que ela tomou uma medicação em alta dosagem na tentativa de se suicidar. A bula alertava que elevar a quantidade administrada poderia levar a óbito, mas a tentativa não deu certo.

Com o apoio de uma pessoa de sua confiança, ela firmou um pacto, prometendo não mais tentar o suicídio, nem se automutilar. Foi nesse período que Luana procurou a clínica. Na época, ainda sentia vontade de se autoagredir, mas sempre lembrava do pacto e evitava. O tratamento durou um ano e, segundo o psicólogo, ela conseguiu se recuperar.

Roupa escondia as marcas



Na época em que Igor (nome fictício) foi atendido na Clínica-Escola da UFPB, tinha 15 anos. Sempre vestido com camisas de manga longa, a intenção não era impressionar ou seguir alguma tendência de moda. O objetivo era esconder as marcas de autoagressão nos braços. “Era um caso muito intenso”, avaliou o psicólogo Davi Corlett.

Ele sentia a necessidade de se automutilar para não se suicidar. Se autoagredir acabava sendo um momento prazeroso para aliviar a angústia. Até então a única saída que encontrava para suas angústias era o suicídio, mas o adolescente não tinha coragem de por um fim na própria vida. Tinha medo da dor, e a autoagressão funcionava como um alívio imediato.

Em determinado período, começou a sentir uma melhora. Porém, quando deixou à mostra parte do braço ao segurar na barra do ônibus e perceber que as pessoas tinham visto foi o bastante para que ele relembrasse de suas dores e voltasse a se automutilar. Foi um amigo de Igor, preocupado com a situação, que falou para ele sobre a Clínica-Escola e o adolescente concordou em ir até a instituição. Ao profissional, ele relatou sentir que sua vida não tinha mais sentido, que pensava constantemente no suicídio, mas não tinha coragem de tentar. “Ele disse que se achava fraco por não conseguir”, contou Corlett.

Ele afirmou que a Clínica-Escola recebe toda a demanda que procura ajuda e a equipe tenta acolher a todos, inclusive admitiu ser difícil não ficar comovido com alguns casos. “Como psicólogo, dá para perceber que é uma angústia muito forte que os pacientes têm ao ponto de fazer isso. Uma dor física alivia outra coisa que está sentindo momentaneamente”, disse. “Minha abordagem é centrada na pessoa, para compreender sua vivência, mas no início dos atendimentos, confesso que saí com vontade de chorar. Só não fiz isso logo após o atendimento, porque tinha outro em seguida”, confidenciou.

Sem perfil definido. A Clínica-Escola de Psicologia da UFPB funciona no Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA) e atende, atualmente, em torno de 1.300 pessoas ao mês, mas ainda não há um perfil de seu público. “Até o momento, não fizemos um levantamento criterioso pra traçar o perfil das pessoas que se automutilam e que são atendidas na Clínica. O que podemos informar é que essas pessoas são, em sua maioria, de baixa renda, com níveis de instrução variados, de faixa etária, variando dos 13 aos 40 anos. Têm surgido também, de forma crescente, casos de automutilação já a partir dos 3 anos de idade, dado que tem nos deixado muito preocupadas”, relatou Marísia Oliveira, coordenadora da Clínica-Escola.

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