domingo, 24 de janeiro de 2021

Paraíba
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Diálogo entre pais e filhos livra jovens de jogos como ‘Baleia Azul’

Luiz Carlos Sousa / 30 de abril de 2017
Foto: Rafael Passos
 

Entender o jogo Baleia Azul é um quebra-cabeças que exige cuidados profissionais e familiares para ser enfrentado. A psiquiatra e professora Raquel Mendes Cordeiro diz que é importante estar atento às mudanças que os filhos apresentam porque elas indicam que pode haver algum problema. Em seu consultório na clínica Premiere, Raquel Mendes Cordeiro recebeu o Correio e alertou que por trás de um problema que pode levar à tentativa ou ao cometimento do suicídio geralmente há um quadro depressivo grave, que precisa ser tratado. Ela também faz questão de enfatizar que a melhor forma de vencer a doença mental é se tratar sem preconceitos.

- O que é o jogo Baleia Azul?

- Sabe-se que surgiu na Rússia e, como tudo na internet, se alastrou rapidamente e chegou ao Brasil. Já há casos registrados – 20 deles na Paraíba. Mas não é só esse. Há outros jogos que também estabelecem desafios.

- O que o jogo quer, uma vez que está assustando as famílias? 

- Jogo consiste em 50 desafios, cujo nível de gravidade vai aumentando gradativamente, assim como a dificuldade, que é cada vez maior. O jovem se submete aos desafios provando que é capaz de superar, sob pressão de ameaças de retaliação, como invadir a família, maltratar os pais.

- Se tem conhecimento de algum caso em que o jovem não venceu o desafio e a ameaça foi cumprida?

- O que se sabe é que os jovens cometem as mutilações se cortando e colocando a vida em risco, com alguns chegando a cometer o suicídio diante das ameaças do Baleia Azul.

- O público é exclusivamente jovem?

- Basicamente jovem. Na realidade a pré-adolescência e a adolescência são aquelas fases em que a criança está fazendo descobertas. Está precisando de liberdade, de se auto-afirmar em grupos de semelhantes em questões comuns à adolescência como sobre a vida e a morte porque está havendo aquela separação dos pais. É um público vulnerável, com idade entre 13 e 15 anos. A partir dos 16 anos já começam a ter outros objetivos.

- Os jovens atraídos também têm um perfil de depressão ou de outro tipo de doença mental?

- Não se sabe o perfil. Não há estudos ainda, é muito recente. Mas isso sugere que esses jovens estejam passando por um sofrimento psíquico muito grande. A criança não encontra na realidade estratégias de enfrentamento para aquele problema, aquela ameaça que está sofrendo. Ele não sabe se salvar daquilo e demonstra fragilidade emocional muito grande.

- O que explica essa espécie de fuga para a internet?

- Na verdade não se pode generalizar o mundo virtual. Pela internet a gente encontra muita palavra de amor. Quantas mensagens a gente encontra? Quantas pessoas são salvas até do suicídio por mensagens pelo mundo virtual.

- A internet não é a culpada, mas o uso que se faz dela?

- Exatamente. A internet é um meio, um instrumento onde a gente pode manter nossas máscaras. Pela internet, não me monstro inteira,mostro aquilo que quero ser. Se quero ser bonita, boazinha, é o que vou mostrar. Isso ajuda também a nos afastar das relações. Na realidade na relação humana a gente aprende, é um autoconhecimento eterno. A gente  está sempre aprendendo quem somos nós e o que a gente precisa lapidar na nossa personalidade no convívio com o outro. Por que o casamento é algo que as pessoas reclamam tanto? É a relação mais próxima que existe e há necessidade de se estar sempre tentando tirar a máscara do outro. Na relação virtual essa máscara não se tira. É muito atrativa para o ser humano porque fica sempre na retaguarda.

- Mas se você não é você mesmo não fica mais solitário a cada dia?

- Exatamente. Fica cada vez mais solitário, não preenche. Mas é importante as pessoas terem consciência disso.

- O indivíduo se afasta do semelhante, mas o virtual continua atraente. Por quê?

- Porque é confortável, não que seja bom, mas é confortável se manter nessa máscara. Nossa tendência é não querer sair dessa máscara, então o mundo virtual é muito interessante nesse sentido. Mas não se pode generalizar. Há pessoas que sabem lidar bem com isso e usam a internet até como uma maneira de se aproximar do semelhante.



- Um jogo com essas características não mostra que as pessoas são muito vulneráveis?

- Isso pode estar mostrando a fragilidade emocional dos adolescentes – talvez a solidão, a falta de uma liderança em que ele possa confiar.

- E a família?

- Importantíssima. O que faz o jovem confiar numa pessoa que está do outro lado do mundo o ameaçando e não confiar na própria família? Há questões que a gente precisa estar levantando: como está o nosso papel como pais e mães? Como estamos exercendo o papel de liderança?

- Apesar de toda a evolução, as figuras paterna e materna continuam exercendo papel fundamental?

- E vão continuar exercendo sempre. A criança não é um adulto pequeno. Ela é um ser em formação. Quando nascemos, nosso cérebro não está preparado para certas funções como, por exemplo, perceber perigo ou ameaças externas.

- Até mesmo as noções básicas de distância, velocidade e tempo...

- O cérebro não está totalmente desenvolvido. Por isso, é uma necessidade real da criança, ter um adulto como líder de sua vida, uma referência, porque senão ela se sente desprotegida. E isso vai refletir para a vida toda. Então a presença dos pais, a autoridade deles de dizer não, de dizer aqui você pode, aqui não. Impor limites é muito importante para que a criança se sinta segura.

- O não é fundamental?

- Importantíssimo.

- E como dizer não diante da possibilidade que a criança tem de ter respostas para tudo hoje?

- às vezes, não é preciso dizer o não absoluto. O que os especialistas recomendam? O computador deve ficar num lugar exposto da casa, onde muitas pessoas possam ter acesso e ver o que o jovem está fazendo. Não permitir que o adolescente fique horas e horas trancado num quarto assistindo a um conteúdo que os pais não têm acesso. Crianças muito pequenas, os especialistas recomendam um limite de tempo – uma hora no máximo. O pai tem que usar senha, bloquear certos conteúdos porque as crianças não têm a maturidade do cérebro mesmo.

- A gente sabe que o uso excessivo da tecnologia trouxe problemas para a visão e para a audição. E do ponto de vista psiquiátrico?

- Hoje existe a compulsão por tecnologia – o desejo incontrolável de estar mexendo, estar diante do celular, aquela coisa de estar acordado de madrugada no WhatsApp. Muitas vezes a pessoa sabe que não precisa estar, mas não tem controle. É só uma reformulação de patologias de transtornos.

- Que estratégia o profissional usa para tirar o adolescente dessa “prisão”?

- Já chegaram alguns casos da Baleia Azul ao consultório. O tratamento é primeiro ver em que grau está o sofrimento psíquico da criança, que muitas vezes está num nível grande de ansiedade ou num nível de depressão alto. Em torno de 90% dos suicídios têm um transtorno mental por trás. Então, a criança que chega a quinquagésima fase do Baleia Azul e tenta o suicídio ou o comete tem 90% de chances de ter um transtorno mental associado. Esse transtorno que está ali precisa ser tratado. Seja depressão, seja transtorno bipolar, de ansiedade.

- Esse tratamento é químico?

- Depende da gravidade do caso. Veja, a partir do momento que a pessoa está falando em suicídio já é um caso grave e, provavelmente, vai precisar de alguma medicação. É importante destacar que a gente tem que encarar a depressão hoje como uma doença do cérebro. Não é uma doença do nada. As pessoas não ficam depressivas porque querem. De jeito algum. São depressivas porque têm uma herança genética de doença psiquiátrica, sofreram durante a  vida algum stress, abusos, uso de drogas.

- As drogas são um capítulo à parte?

- Hoje há registros de crianças com sete anos de idade usando drogas. Isso tudo vai influenciar na estrutura do cérebro. Abuso sexual, violência doméstica, abandono dos pais também são motivos para stress.



- Qual o papel da escola numa situação como essa?

- A escola ajuda na medida em que também pode estar informando quais são os perigos, impondo limites. A escola também age como autoridade na vida de uma criança. Claro que não pode ser só a escola, como também não pode ser só a família. É uma conjuntura, mas o papel principal é dos pais. Até porque os pais é que vão escolher a escola.

- Há pais que não enfrentam à realidade de um filho com problemas?

- Isso é muito comum. A não aceitação por parte dos pais. Uma criança quando adoece, os pais precisam ser avaliados também, porque existe a chance deles estarem precisando de ajuda. O que está acontecendo no ambiente familiar que a criança está adoecendo? É importante essa avaliação, não necessariamente que os pais estejam doentes.

- Há como ser vigilante num mundo em que o principal sonho de consumo é um smartphone?

- Tem sim. É importante ser vigilante. Ser vigilante não é estar atento e vigiando 24h. Os jovens dão sinais d que precisam de ajuda: muita tristeza, isolamento, marcas pelo povo.

- Sinais incomuns?

- Por exemplo: um adolescente que nunca usou camisa de mangas compridas passa a usar, alimentação – uma criança que comia bem passar a não se alimentar regularmente ou passa a não dormir. E a maneira de controlar é a seguinte: se você acha que a criança não precisa de celular, por que vai dar um? 

- Mas o amigo tem a coleguinha também. Se não tiver não vai ser um problema?

- O pai precisa estar confortável, por, exemplo, deve pedir para o filho adicioná-lo nas redes sociais – aí vai estar observando quem são os amigos, conhecer as amizades dos filhos e trazer essas amizades para dentro de casa.

-Um jovem hoje aceita isso?

- Vai depender muito de como os pais abordarem.

- Os jovens são rebeldes, buscam se auto-afirmar. Será que eles permitirão ingerência profunda em suas vidas?

- Isso é especial dos jovens, dos adolescentes. Eles precisam dessa fase em que estão desmembrando buscando a independência deles. Uma coisa importante é que o pai não pode passar a vida toda sem ouvir a criança e chegar na adolescência querer ser ouvido pelo filho. O diálogo deve ser permanente desde o momento em que a criança foi gerada. Tem que assumir o lugar de pai, que também requer renúncias e mudanças nos hábitos de vida. Não é um passe de mágica.

- Como a senhora vê o recurso à religião na busca por ajuda?

- Os pacientes que têm religião como hábito eles têm uma recuperação muito melhor do que aqueles que não têm. Então, sugere que a religião tem um fator protetor em relação às doenças mentais, o que não era comum antes. Pensava-se até que as religiões adoeciam as pessoas. Contra o suicídio, o fator de proteção da religião é muito grande. Muitas pessoas não cometem o suicídio pelo medo da vida após a morte.

- Como lidar com o preconceito que envolve geralmente pessoas com doenças mentais?

- Existe uma campanha da Associação Brasileira de Psiquiatria, que é a luta contra psicofobia, o preconceito contra o doente mental. Antes de tudo é importante saber que o doente mental não é doente porque ele quer. Ele está depressivo, está ansioso, é esquizofrênico. Ele tem uma alteração no cérebro que o leva a apresentar determinados sintomas.



- O que não quer dizer que o indivíduo seja incapaz?

- De jeito algum. No caso da depressão é tratável, controlável. Quanto mais você protela, atrasa o tratamento por conta do preconceito é pior. A gente sabe que o dano cerebral vai ser maior e a medicação vai impedir isso. E não deve haver preconceito coisa tipo vou ficar viciado, sonolento, não vou fazer mais nada na minha vida. Pelo contrário, a doença é quem deixa você sem fazer nada em sua vida. É a doença que vai levar alguém a cometer o suicídio.

- Uma das doenças mais comuns da atualidade é a ansiedade que “atinge gregos e troianos” crianças e adultos. Como o Brasil está nesse cenário?

- Você falou “gregos e troianos”, mas em especial os brasileiros. O Brasil é o País como o maior número de ansiosos do mundo, com 9,3%  da população vivendo com ansiedade. Perde feio para outros países, até algumas nações que vivem em guerra. Na África a taxa está entre 2% e 3%.

- O que explica isso?

- O Brasil é o País das incertezas, a violência urbana – a gente sai na rua e não sabe se vai ser assaltada. Isso limita também a falta de lazer – não se frequenta mais a praças, não se coloca cadeira na calçada para conversar com vizinhos. Até mesmo ir a praia. A gente vive sob tensão. Além da própria crise política e econômica, a incerteza de trabalho, se vai pagar as contas. Até se alguém tem dinheiro no banco tem medo do governo tomar, porque já aconteceu uma vez.

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