sábado, 21 de setembro de 2019
Paraíba
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Crise hídrica é pior na Região do Brejo

Ainoã Geminiano / 24 de fevereiro de 2019
Foto: Assuero Lima
“A pior situação hídrica no Estado não é no Sertão. No Brejo, por exemplo, há cidades que têm água três dias a cada dois meses”. A declaração do presidente da Companhia de Água e Esgotos da Paraíba (Cagepa), Marcos Vinícius Fernandes, durante uma entrevista à Rádio 98 FM, revela o sofrimento de uma região que fica a pouco mais de 100 quilômetros do Litoral, onde teoricamente haveria água em condições normais. Em Bananeiras, por exemplo, só tem água nas torneiras durante 72 horas, a cada 15 dias e a cidade passa sede, mesmo estando 'em cima da água'. Na vizinha Solânea, moradores dizem que recebem água barrenta apenas um dia por semana. Comerciantes das duas cidades, que não conseguem comprar água, estão com negócios ameaçados. Nas casas, as pessoas escolhem se tomam banho, lavam roupas ou cozinham.

Paula Maria Gomes é dona de um dos restaurantes mais tradicionais da cidade, localizado no centro de Bananeiras e que à noite se torna uma das lanchonetes mais procuradas. Ela emprega oito funcionários e fornece salgados para outros estabelecimentos da cidade e de cidades vizinhas. Mas o negócio está ameaçado pelas despesas não previstas, para suprir a falta de água. “Tive meses aqui de gastar quase R$ 800 reais comprando água. É uma despesa muito alta, que daria para pagar um ajudante e tá ficando pesado. Já pensei várias vezes em desistir e fechar porque, para um restaurante, trabalhar sem água é muito difícil”, desabafou.

Para reduzir as despesas, Paula pediu o desligamento da rede de abastecimento da Cagepa e não paga mais a conta mensal. “Se não tem água não vou ficar pagando por um produto que tenho que comprar fora. Não vou ter duas despesas com a mesma coisa. Agora o pior de tudo isso é saber que tem água na cidade, só não tem distribuição dessa água”, disse.

Á água na cidade a que Paula se refere são as inúmeras nascentes que existem na região. Uma delas inclusive está sendo explorada pela Cagepa, que represou um olho d´água, em um matagal vizinho e instalou uma tubulação para levar água por gravidade a uma parte da cidade. Perto desse local, moradores improvisaram uma bica e, de lá, retiram água para beber e cozinhar. “Se não fosse essa bica nós ficaríamos zerados de água aqui, porque a água que chega, a cada 15 dias, não dura”, contou a dona de casa Maria das Graças Pereira, que mora a cerca de 500 metros da vertente.

Falta distribuição



O agricultor Gledson Rocha de Lacerda mora desde pequeno perto da região das vertentes de água, que antes já abrigou uma barragem que abastecia a cidade. Hoje, mesmo soterrado, o terreno dá origem a correntes contínuas de água potável, que o agricultor bebe sem levar pra casa para tratar. “É difícil ver tanta água limpa jorrando assim e indo embora para o mato, porque ninguém dá um jeito de aproveitar e levar essa água para a população. Bananeiras é uma cidade que passa sede dentro da água. O problema aqui não é falta de água. É falta de distribuição e aproveitamento da água que existe na região”, reclamou.

Gledson tem terras na zona rual de Bananeiras, que comprovam o que ele falou. “Tenho plantação de 3 mil e quinhentas bananeiras, que produzem cerca de 20 mil bananas por ano e não preciso irrigar. Basta plantar que o solo daqui tem umidade natural e alimenta a planta. Em qualquer lugar que plantar banana aqui dá certo. Tem três açudes nas minhas terras onde mantenho dois viveiros de peixe, pra o consumo da família. Época de Semana Santa todos comem peixe em fartura. Ainda tenho três cacimbas com água. Isso prova que Bananeiras é uma cidade rica em água”, acrescentou.

Poço artesiano. O lençol freático de Bananeiras favorece a perfuração de poços artesianos. A comprovação está em uma das partes mais altas da cidade, no conjunto Major Augusto Bezerra, onde o Exército perfurou um poço e criou uma estrutura com uma caixa de água de 15 mil litros e torneiras para a população retirar água. O local é conhecido pelos moradores como chafariz. “Aqui sai água o tempo todo. Eu prefiro vir pegar aqui a água para consumir porque a água da Cagepa, quando vem na torneira, vem suja e preferimos usar para limpeza, o que conseguimos juntar”, disse o marchante Walter Júnior Dantas, que coletava água no local, no momento em que a reportagem visitou a fonte.

A atendente Daiana Pereira Alves, mora perto dessa fonte e disse que ela e os vizinhos recorrem com frequência ao local. “É uma alternativa que temos para não ficar sem nada. Como morro mais perto da bica, recorro a ela primeiro. Mas quando vai muita gente lá a água fica pouca, daí vou no chafariz onde há certeza de encontrar água”, disse.

Apesar da facilidade de encontrar água no solo, o acesso a poços artesianos é limitado para a população, devido ao custo de perfuração, que em média é de R$ 15 mil. “Os ricos aqui da cidade não sabem o que é falta de água, porque cada um escava seu poço e resolve o problema. Mas pra o povão isso está fora de alcance”, lembrou o agricultor Gledson Rocha.

Solânea em situação crítica

A situação da cidade de Solânea é mais crítica que Bananeiras, porque a cidade fica em uma parte mais alta e não tem as nascentes naturais de água que ajudam os moradores. A dona de casa Vera Lúcia de Oliveira mostrou os dois reservatórios de água que usa para guardar a água que chega às torneiras na noite da sexta-feira e acaba no final da tarde do sábado. “Não dá tempo pra fazer muita coisa. Tento lavar a roupa acumulada, mas preciso encher os reservatórios. Além disso a água chega suja e só serve para limpeza. Pra consumir temos que comprar água a um rapaz que vende um galão de 20 litros por R$ 2,50”, relatou. No fundo dos reservatórios de Maria era visível a terra que decantou da água da Cagepa, coletada no final de semana anterior.

Em uma das avenidas principais da cidade, o empresário André Oliveira tem um lava-jato, que está mantendo com água comprada. Ele paga R$ 30 por mil litros de água, que guarda em um reservatório industrial, ligado a uma bomba de pressão que produz o jato para os veículos.

“Até agora está compensando porque essa bomba economiza água, formando um jato fino. Eu ainda mantenho a ligação da Cagepa, embora a água deles está saindo mais cara do que a que compro. Pago uma conta de R$ 70 para ter água um dia por semana, enquanto esse reservatório que encho com água comprada dura quase a semana inteira”, relatou.

Em outro local, uma churrascaria está se mantendo em funcionamento graças a uma cisterna de 4 mil litros. “Quando a Cagepa liga a água a gente deixa o fluxo apenas para encher a cisterna e assim ter água para passar a semana”, contou o garçom Elias Vitorino.

Chuva é solução

Os mananciais que podem abastecer Bananeiras, Solânea e região são as barragens de Jandaia e Canafístula, que são de responsabilidade do Governo do Estado.

O gerente regional da Cagepa, Edson Almeida, que disse que tudo que poderia ser feito em termos de infraestrutura para garantir abastecimento da região do Brejo, já foi feito. “Em 2011 o Governo concluiu a barragem de Jandaia, que abasteceria a região. Em 2016 começamos a operar, abastecendo as cidades de Tacima, Riachão, Araruna, Dona Inês, Damião e Cacimba de Dentro. Mas a operação só durou um ano, porque a barragem secou. Enquanto Jandaia funcionou, a barragem de Canafístula abastecia apenas Bananeiras e Solânea. Com o fim da operação de Jandaia, todas as cidades passaram a usar Canafístula, o que nos obrigou a fornecer de forma racionada. Como o nível de água vai caindo, temos que aumentar o racionamento. Ou seja, a solução para a região é chuva. Não há alternativa”, explicou.

Sobre o lençol freático rico em água, da cidade de Bananeiras, Edson reconheceu que existe, mas disse que o volume é insuficiente para alimentar um abastecimento em escala industrial.

O gerente disse ainda que há estudos em andamento, feitos pelo Governo do Estado, para estender até Bananeiras o abastecimento que vem da barragem de Camará, mas ainda não existe certeza da viabilidade, porque esse manancial tem hoje um volume de água de apenas 2% de sua capacidade. AG

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