quinta, 15 de abril de 2021

Paraíba
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Criatividade para o crime ‘invade’ presídios da Paraíba

Ainoão Geminiano / 23 de junho de 2019
Foto: Assuero Lima
Mesmo sem um número oficial fechado, a Gerência do Sistema Penitenciário da Paraíba (Gesip) estima que mais de 9 mil objetos proibidos, entre celulares, assessórios para celulares e armas artesanais, foram apreendidos nas unidades prisionais do Estado, no ano passado, sem contar as apreensões de drogas. E a pergunta que mais se repete é: Como tudo isso foi parar dentro das cadeias? A principal resposta está na criatividade dos presos e de seus aliados, para driblar a revista na entrada dos presídios. De cabos de vassoura recheados, gato vestido de maconha e celulares, ao uso dos modernos drones, os métodos utilizados pelos familiares e demais visitantes não param de surpreender os agentes.

Umas das últimas interceptações feitas pelos agentes penitenciários foram de dois drones, um no presídio do Roger, em João Pessoa, e outro no presídio Serrotão, em Campina Grande, que, pelo ar, carregavam pacotes com celulares e drogas para dentro das unidades.

“Para o bem o sistema, nosso pessoal estava atento no momento da tentativa e derrubou os dois drones com tiros de espingarda calibre 12. Não fosse a atenção no serviço a entrega teria passado, porque o deslocamento desse tipo de veículo é rápido. Não conseguimos pegar a pessoa que operava o drone, nem identificar quem receberia, mas evitamos que o material entrasse e guardamos esses aparelhos avariados aqui, como prova de que estamos vigilantes”, relatou o chefe da Gerência do Sistema Penitenciário (Gesip), Ronaldo Ponciano.

Na manhã da última sexta-feira, a Gesip informou a apreensão de mais um drone no presídio Serrotão (CG). A aeronave carregava um tablete de maconha, preso a um gancho que seria acionado pelo controle remoto, soltando a encomenda dentro do presídio. A tentativa aconteceu bem cedo, por volta de 5h30 da manhã, para tentar surpreender a vigilância. Mas o controlador não calculou a distância a ser percorrida e perdeu o sinal do drone, fazendo com que o equipamento caísse antes de ultrapassar o muro do presídio. Os agentes correram ao local e fizeram a apreensão.

Levar celular para presídio é crime

Art. 349-A. Ingressar, promover, intermediar, auxiliar ou facilitar a entrada de aparelho telefônico de comunicação móvel, de rádio ou similar, sem autorização legal, em estabelecimento prisional. (Incluído pela Lei nº 12.012, de 2009)

Pena: Detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano.

Levar droga para o presídio configura crime de tráfico de drogas

Pena: 3 (três) a 15 (quinze) anos de prisão, para quem pratica tráfico de drogas.

Gato entregador



Algo comum em presídios é a presença de animais de estimação, normalmente de rua e que são alimentados pelos agentes, policiais e até presos. A oferta de alimentos cria uma comunidade de felinos e cães nas unidades prisionais e isso se tornou alvo de uma estratégia pela levar drogas e celulares para dentro do presídio Serrotão, em Campina Grande, no ano passado. “No meio de tantos gatos, alguns presos observaram que um desses gatos fazia um movimento de rotina. Todos os dias ele passava a noite no presídio, saía pela manhã para a rua e retornava no final do dia. A repetição sistemática desse movimento inspirou os presos”, contou Ronaldo Ponciano.

Com o gato no alvo, os presos se comunicaram com alguém de fota do presídio e passaram as características do felino. Essa pessoa capturou o gato durante o dia e envolveu o corpo do animal com celulares, assessórios e maconha, fixando a “mercadoria” com fita adesiva, da mesma cor da pelagem do animal. “A parte que deu errado no plano é que o gato não foi treinado para o transporte e, de noite, quando retornava para o interior do presídio, andava de forma estranha, lenta e às vezes cambaleante. Mas já estava quase concluindo a entrega quando os agentes de plantão perceberam a estranheza do animal e resolveram checar a situação, encontrando assim os “mercadoria” e frustrando os planos”, concluiu o gerente. Destinatário e remetente da encomenda não foram identificados.

Na análise do gerente do Sistema Penitenciário, Ronaldo Ponciano, as formas criativas de esconder os objetos vão surgindo à medida que a fiscalização vai avançando na descoberta das estratégias. “Os presos também são muito atentos às rotinas do Sistema, para se utilizar delas, como a liberação para o consumo de leito em pó que, já temos informações, de que estão misturando drogas que também são em pó, como cocaína e comprimidos de cor branca, que são esmagados, para batizar o leite e consumirem a droga junto com o produto”, disse.

Recheados. As apreensões mostram a habilidade desenvolvida pelos presos e repassadas aos familiares. As vassouras e rodos com cabos e bases recheados foram apreendidos em diversas situações, em presídios da Capital e do interior. “Não sei se com uso de uma broca gigante ou algo do tipo, eles conseguem cria uma cavidade ao longo do cabo, de forma que ele fica oco e eles preenchem esse vão com droga. Na base dos pelos da vassoura, onde há uma massa maior de madeira, a cavidade interna cabe celulares e assessórios. Depois que recheiam com os objetos, eles fecham o cabo e a base, colando de uma forma que ninguém percebe que foi aberto. Essa é a habilidade principal do plano. Disfarçar a abertura”, detalhou Ponciano.

E os presos levaram essa habilidade ao extremo, no mês passado, quando abriram, rechearam com maconha e fecharam 30 ovos de galinha. A entrega seria feita por uma adolescente, no presídio de Cajazeiras, no Sertão da Paraíba. Mas o entorpecente foi descoberto.

Uso de brinquedo



Uma das brincadeiras preferidas da criançada também entrou nas estratégias dos presos para levar a “mercadoria” para dentro dos presídios. Nas ruas de bairros populares as crianças fazem a festa empinando pipas. E um dos momentos de maior euforia é quando um deles consegue cortar a linha da pipa do oponente e dispara uma correria da molecada para resgatar a pipa, que desce em queda livre. É justamente essa queda livre que despertou o interesse dos presos.

Devidamente articulados com alguém de fora, que tem habilidade com o brinquedo, os presos encomendam pipas de grande porte, que conseguem erguer peso. Com o ilícito preso ao corpo da pipa, outro integrante do plano ergue uma segunda pipa, para derrubar a que está com o pacote e fazcom que caia dentro do presídio. Apreensões desse tipo já foram feitas em João Pessoa e no interior do Estado.

Leite batizado. Há alguns anos o Conselho de Administração Penitenciária liberou o consumo de leite em pó para os presos, já que o leite líquido, normalmente vendido em caixas, poderiam servir de transporte de objetos por conta da embalagem. Mas a medida está prestes a ser revista e o consumo de leite ser proibido nos presídios e cadeias da Paraíba, mesmo sob o risco de a medida gerar polêmica e até motins.

Feijão batizado



Uma descoberta inusitada feita pelos agentes, durante a revista de alimentos, chamou atenção pela ‘delicadeza’. Uma das regras de revista é que pacote de alimento deve ser aberto, mesmo que ocorra alguma perda de grãos. Vistoriando um pacote de feijão preto, os agentes, por acaso, apalparam alguns caroços e perceberam que um deles ela flexível.

“Quando partiram aquele caroço perceberam que era maconha. Alguém teve a ideia e o delicado trabalho de confeccionar porções de maconha no tamanho e no formato do caroço de feijão e embalar com plástico preto, de forma que, visualmente, não tinha como diferencia o feijão da droga. A partir desse caroço descobrimos que haviam muitos deles misturado ao feijão. Como foi uma descoberta casual, não sabemos quanto de droga entrou na unidade”, relatou Ponciano.

Fundos falsos e arremessos



“Já identificamos presos espertos que produziram peças de artesanato com fundos falsos e mandaram como presente para alguém da família. Dias depois o familiar retorna com a peça, com algum pretexto de o preso fazer reparos, por exemplo e, na peça, o fundo falso escondia produtos proibidos”, disse o gerente da Gesip. Há também os que apostam nos modos mais convencionais e em falhas na vistoria. As estratégias mais usadas são os pacotes escondidos no corpo das mulheres e os arremessos por cima dos muros.

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