sábado, 23 de março de 2019
Paraíba
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Cresce 70% o número de casas com a mulher como provedora na Paraíba

Beto Pessoa / 01 de julho de 2018
Foto: Nalva Figueiredo
Aos 19 anos, quando anunciava ao companheiro que estava grávida do primeiro filho, Ana Carla Brandão encontrou um homem receptivo e cuidadoso, que a confortou sobre quaisquer obstáculos que passariam nesta nova fase da vida. Mal sabia ela que, na semana seguinte, ele desapareceria sem dizer adeus, deixando-a sozinha na tarefa de aprender a tornar-se mãe.

O Brasil é um dos países mais duros no que diz respeito à interrupção da gravidez, enquanto enxerga com certa complacência os homens que abandonam as mulheres grávidas, recaindo sobre elas uma obrigação maior na responsabilidade pela criança que vai chegar. Ana Carla sentiu de perto as dores e dissabores desta obrigação e desde que o parceiro fugiu soube que seria ela e sua barriga contra um mundo que nem sempre é justo para quem está nas suas condições.

“Tive que ser muito forte. Durante a gravidez e depois. Minha filha perguntava muito pelo pai, queria conhecer, mas ele sumiu. Quando ela fez 9 anos, ele apareceu, disse que queria ser mais presente, levou ela para passear e, no lugar de fazer um programa pai e filha, foi para um bar beber com os amigos, levando a menina com ele. Esse tipo de situação jamais seria aceita se fosse pensada ao contrário, eu agindo dessa forma e ele cuidando da criança. Por ser mulher, somos bem mais cobradas nessas tarefas”, disse.

E isso não começou de agora, nem surgiu naturalmente. Doutora em Antropologia e professora do Programa de Pós-graduação em Antropologia (PPGA) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), a pesquisadora Marcia Longhi explica que essa cobrança maior sobre as mulheres é histórica e ainda muito presente, apesar de estar diminuindo.

“Isso surge como resultado de dois momentos da história da humanidade: o início da industrialização, que tende a dividir com mais força o espaço público do privado; bem como o avanço da medicina, que começa a pensar a criança como um indivíduo que precisa de maior proteção, cuidados, já que, por serem mais frágeis, morriam com mais facilidade”, explicou a professora.

Então, pouco a pouco, a mulher ficou atrelada ao espaço privado, devendo estar dentro de casa cuidando dos filhos e da casa, enquanto o homem ligado ao público, ao mundo exterior ao lar, de onde irá tirar, inclusive, o sustento das casas, já que até então eram eles os principais provedores das famílias.

Provedoras de afeto



Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, somente na Paraíba, o número de casas onde a mulher é a principal provedora cresceu quase 70% nos últimos 10 anos de análise, enquanto o de homens cresceu pouco mais de 5%.

O equilíbrio está cada vez mais próximo: em 2005, eram apenas 336 famílias paraibanas chefiadas por mulheres, contra 729 chefiadas por homens. Em 2015, elas passaram a ser as responsáveis financeiras em 567 domicílios, enquanto eles eram provedores em 771.

Se economicamente esta balança começa a se igualar, afetivamente ela ainda tem reservado às mulheres o maior peso, explica a doutora em Antropologia, Márcia Longhi. “A mulher tem sido historicamente identificada por sua capacidade de concepção, associada como o elemento da sociedade que é responsável por isso, quando sabemos que a concepção é um resultado da relação homem x mulher. O homem ainda está muito atrelado ao trabalho, ao provimento financeiro e, mesmo as mulheres tendo conquistado seu espaço no mercado, isso ainda persiste”, disse.

A ausência machuca, mas também ensina. Quando pensa no pai, Nayara Cristina, 24 anos, cria uma imagem nebulosa. Isso porque sua presença nunca foi clara, muitas vezes resumida aos rastros e lembranças de um passado que lhe parece cada vez mais distante. Por muito tempo ele fez falta, mas hoje ela avalia que os caminhos percorridos até então lhe transformaram numa pessoa mais forte.

“O conheci com 3 anos de idade, não me lembro do dia, só sei porque me contaram. Ele apareceu em alguns momentos da minha vida, mas sempre foi muito ausente, distante. Na adolescência senti mais essa ausência, mas ainda não entendia muito do que sentia falta. Só depois eu entendi que era mais uma representação social, fui criada num lar majoritariamente feminino, a figura masculina era quase um mito: eu sabia que existia, mas não conseguia enxergar com clareza”, disse.

Parte de uma família chefiada e composta em sua maioria por mulheres, Nayara conseguiu desta ausência entender a dinâmica social que perdura até hoje. “Isso tudo me fez entender que as mulheres param suas vidas. O tempo que antes poderia sobrar para ela mesma é doado aos filhos, enquanto os homens seguem suas vidas, com amigos, cerveja, peladinha nas quartas. Inclusive quando eles não abandonam as mulheres, isso acontece, porque elas passam a acumular mais e mais funções. A família cresceu e ‘mãe é mãe’, né? É o que dizem...”.

Aprendizado. Mais madura, Nayara faz uma autoanálise da sua trajetória de vida, onde aprendeu a lidar com os sentimentos que surgiram em consequência da ausência paternal. “Quando eu era mais nova sentia falta dos limites que um pai impõe sobre a filha, porque via minhas amigas tendo isso e eu não. Mas hoje consigo ter mais clareza e entender que me faltava essa representação social, mas a coisa positiva é que fui criada como um ser livre e independente, sem as regras impostas sobre os gêneros. Numa casa de mulheres, pude ter mais liberdade para ser quem eu sou”, disse.

Para entender a construção social da obrigação da maternidade



A Polícia das Famílias, de Jacques Donzelot: O livro apresenta a história social da família do século XVIII ao início do século XX. O autor analisa a definição de família construída pelas camadas burguesas do Antigo Regime, as formas pelas quais essa definição se estendeu a outras classes sociais, o conjunto de tecnologias políticas que investiram sobre o corpo, a saúde e as condições de vida a partir do século XVIII e as transformações no seu conceito considerando as práticas de atendimento às crianças, a posição da mulher e suas atribuições e a função política do chefe de família.



História Social da Criança e da Família, de Phillippe Ariès: Nesta obra, o historiador francês Philippe Ariès estuda a inserção da criança na vida social desde a Idade Média até os tempos modernos, quando o papel da família transformou-se estruturalmente. Por meio da história do cotidiano e das mentalidades, ele analisa como se davam as relações e porque mudaram, destacando que a alta mortalidade infantil obrigou às famílias uma mudança de ótica em relação aos filhos.



Um Amor Conquistado: o Mito do Amor Materno, de Elisabeth Badinter: Será o amor materno um instinto, uma tendência feminina inata, ou depende, em grande parte, de um comportamento social, variável de acordo com a época e os costumes? É essa a pergunta que Elisabeth Badinter procura responder neste livro, desenvolvendo para isso uma extensa pesquisa histórica, lúcida e desapaixonada, da qual resulta a convicção de que o instinto materno é um mito, não havendo uma conduta materna universal e necessária.



Ordem Médica e Norma Familiar, de Jurandir Freire Costa: Neste livro o autor desenvolve um estudo sobre as táticas médico-higiênicas que se insinuaram na intimidade da família burguesa do século XIX até hoje. Demonstra que as famílias se desestruturaram por terem seguido à risca as normas de saúde e equilíbrio que lhes foram impostas como manipulação político-econômica por uma determinada classe social; a burguesia. E que todas as lições de amor e sexo dadas à família têm um real objetivo de classe.



 

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