sexta, 19 de julho de 2019
Paraíba
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As memórias de Hermosa

Luís Eduardo Andrade / 28 de dezembro de 2016
Foto: Luís Eduardo Andrade
Princesa Isabel. 13 de Fevereiro de 1913. Oito horas da manhã. Enquanto as ruas princesenses se coloriam para receber o carnaval, o mundo se preparava para receber aquela que lhe traria mais beleza. E por esse motivo, seu nome não poderia ser outro: Hermosa. A palavra que significa “bonita” em espanhol, foi a escolhida por João de Campos Góes e Alexandrina Pereira para chamar sua filha que acabara de nascer Hermosa Pereira Góes. Uma pena que João não pôde curtir outro carnaval ao lado de Hermosa. Faleceu antes do primeiro ano de vida de sua herdeira. Aliás, primeiro ano dos 104 que vivera (e vive).

É impossível falar de Hermosa Góes Sitônio (nome de casada) sem mencionar assuntos como a Revolta de Princesa, o cangaço, o Coronel Zé Pereira, dentre outros tópicos que só quem vivenciou a história de perto, pode falar. Contudo, é necessário observar outros aspectos da personalidade de Hermosa. Chegar aos 104 anos de vida já não é das tarefas mais simples, porém, atingir essa meta com lucidez e simpatia é um feito digno de um ser humano ímpar. E as memórias de Hermosa não poderiam deixar de ser registradas e catalogadas. Por esse motivo, convido-lhe a embarcar na história e adentrar nas lembranças dessa mulher de fibra, exemplo de superação, empoderamento e principalmente, força de vontade.

Tio Zé Pereira

Um dos mais conhecidos “coronéis” do Nordeste, chefe político da cidade de Princesa Isabel e nêmesis do Rei do Cangaço Lampião, era simplesmente o Tio Zé Pereira, de Hermosa. Nos seus relatos, a sobrinha refere-se a o coronel como homem fino, educado e altamente inteligente. Talvez por isso, tenha conseguido tanto respeito. Como Hermosa e seus irmãos perderam o pai muito cedo, Zé Pereira assumiu a responsabilidade sobre os filhos da irmã. Se esforçando para que nada lhes faltasse. E nunca faltou.

Princesa Independente

Cento e quatro anos, em um período que compreende duas Guerras Mundiais, todas as Copas do Mundo, 25 Olimpíadas da Era Moderna, 10 papas, o primeiro passo do homem na Lua, Ditadura Militar no Brasil, dentre outros eventos que marcaram a história da humanidade, e foram vividos de perto por Hermosa. Mas dentre todos esses fatos históricos, um foi marcante na Paraíba: a Revolta de Princesa Isabel.

A revolução aconteceu em 1930, e tudo começou por conta de divergências políticas e econômicas entre o Governador que dá nome a Capital da Paraíba, e os coronéis do interior, que chefiavam não só a política, como a economia das cidades. E todos eles, encabeçados pelo Coronel Zé Pereira, ou Tio Zé Pereira, para Hermosa.Segundo ela, um homem muito incompreendido. Mas o que se tornou compreensível foi a revolta de Zé Pereira com o governador João Pessoa, quando o mesmo instaurou impostos e cargas tributárias para as exportações dos grandes latifundiários. E a situação ficou insustentável quando os candidatos do Coronel foram impedidos de concorrer à deputação federal, enquanto aliados do governador não tiveram candidatura barrada. Até que em 1930, Zé Pereira rompe efetivamente com o Estado da Paraíba e proclama Princesa como território livre, com hino e bandeira.

E enquanto a política fervia, a adolescente Hermosa cuidava de estudar e dos afazeres domésticos. Mal sabia ela, que dali a poucos dias, seria afetada diretamente pelo conflito, tendo que se exilar na cidade da família de seu falecido pai. E os embates começaram quando a Polícia da Paraíba foi enviada pelo governador até Teixeira, cidade próxima a Princesa, para impedir que as pessoas apoiassem a revolta. Zé Pereira não se intimidou e mandou 120 homens armados para o distrito em questão. E depois de muitas batalhas armadas, a revolução parecia ganhar força. Todavia, Hermosa relata que as “guerrilhas” aconteciam nas redondezas da cidade. Até que a revolta sofreu um golpe doloroso e paradoxal. João Pessoa fora assassinado por João Dantas, supostamente por motivos pessoais, e mitificou-se em todo o Brasil. E o que poderia dar fôlego a revolta, foi fundamental para sua queda. “Perdi a batalha.”, declarou Zé Pereira quando soube da morte de João Pessoa, segundo Hermosa.



A casa das 70 mulheres

Depois do fim da revolta, o Exército entrou na cidade para restabelecer a ordem pública. De acordo com Hermosa, que ainda não era casada com Zacarias Sitônio, grande amor de sua vida, foi um período muito bom, pois além da paz reinar, a cidade era embelezada pelos jovens e educados militares. Mas com a saída do Exército, a Polícia da Paraíba novamente entrou em Princesa para acabar com qualquer vestígio de revolução. E fez isso da forma mais brutal possível. Atacando e invadindo casas, queimando plantações e matando pessoas no meio das ruas. Não existia outra solução além da fuga.

Enquanto os homens envolvidos se exilaram por todo o Brasil, incluindo Zé Pereira, 70 mulheres foram morar na cidade de Flores (PE). Lá, começaram a trabalhar com costura, trabalhos manuais, ensinando crianças nas escolas, e até vendendo suas jóias. E justamente por essa posição à frente do seu tempo, acabaram sofrendo preconceito justamente por parte das mulheres nativas de Flores. Porém, encabeçadas por Hermosa, lutaram pelo empoderamento feminino naquela cidade.

Hermosa ainda relata um encontro emocionante. Certo dia, depois de uma jornada de trabalho, as 70 mulheres ouviram uma batida peculiar em sua porta. E ao perguntar de quem se tratava, foram surpreendidas: “É tio Zé Pereira”. Fugido, o coronel teve que ser célere na visita, visto que tropas da polícia todos os dias revistavam a casa das moças. “Foi um momento de muita emoção”, narrou Hermosa.

O grande amor

Depois da anistia e a saída das tropas da polícia da cidade de Princesa Isabel, as mulheres regressaram, após quase seis anos. E nessa volta, já madura, Hermosa Góes descobriu o grande amor de sua vida: Zacarias Sitônio. Digo descobriu, pois ambos já se conheciam desde a infância, mas na volta de Hermosa, a paixão floresceu. Leitor voraz e poeta declarado, Zacarias impressionava sua enamorada pela boca de Augusto dos Anjos. Os versos do livro “Eu”, estavam decorados em sua mente. Era um mar que misturava amor e poesia. E por falar em mar, surgiu daí a inspiração para os frutos desse amor: MARta, MARiângela e MARgareth. As três filhas de Zacarias e de Hermosa, que agora, configurava “Sitônio” como seu sobrenome. Seu cônjuge então, decidiu ingressar na política, e fazer oposição a Nominando Diniz, que passara a comandar a região, já que o tio Zé Pereira se afastara para um sítio em Serra Talhada (PE), em busca de paz. Zacarias, como bom “genro postiço”, elegeu-se prefeito e “guardou o lugar” de Aloysio Pereira, filho do Coronel, que estava no Rio de Janeiro estudando Medicina.

O Rei e a Princesa

Caminhando em paralelo às histórias da Revolta de Princesa, Hermosa relembra fatos relacionados ao movimento do cangaço, mais especificamente da intriga que Lampião, o rei, tinha com Zé Pereira, o coronel, e consequentemente, com Princesa. Segundo ela, Virgulino Ferreira recebia apoio de cidades vizinhas para manter seu bando ativo. E em uma das tentativas de invadir uma dessas cidades, Lampião sofreu um de seus piores ataques. As tropas do Coronel Zé Pereira o expulsaram e o chefe do bando foi alvejado com um tiro no tornozelo. Hermosa relata que quando o mesmo foi encontrado, agonizara na mata por 12 dias e tinha o pé preso à perna apenas por tendões.

Em outra história envolvendo o rei do cangaço, Hermosa conta que o bando chegou na fazenda Riacho dos Navios, onde seu pai costumava morar. E questionou de quem eram os gados daquela propriedade. “É dos sobrinhos do Coronel Zé Pereira”, respondeu um criado. E nesse momento, Virgulino autorizou sua tropa a fuzilar todos os animais. Sessenta cabeças de gados ao chão. Zé Pereira ainda foi traído por seu cunhado, Marcolino Pereira, que foi coitero de Lampião em uma de suas fugas nas redondezas de Princesa. “Eles protegiam Lampião por medo, não era maldade”, argumenta Hermosa. A centenária ainda afirma que não foram assassinadas pelo temido rei do cangaço por sorte. “Ele (Lampião) só não nos matou porque não conseguiu nos pegar ”, afirmou Hermosa.



Livro vivo

Pode-se dizer que Hermosa Góes Sitônio é uma fonte histórica viva. Assim como um livro que narra histórias que dão asas à nossa imaginação. Ouvir Hermosa é voltar no tempo sem sair do presente. É ver a História (com H maiúsculo) diante de nossos olhos. Que sua sensibilidade não se perca. E que esta princesa de Princesa se eternize como personagem vivo da História do Brasil.


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