domingo, 19 de maio de 2019
Paraíba
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Alcoolismo afasta e filhos crescem sem referência paterna

Renata Fabrício e Fernanda Figueirêdo / 26 de agosto de 2018
Foto: Jornal Correio
“Meus filhos deixaram de me pedir a benção por causa da minha cachaça. Outros bêbados riam da minha filha, quando ela voltava da escola, dizendo ‘foi no pai dela que demos uma surra’. Isso me matava”. O relato é de um frequentador das reuniões do Alcoólicos Anônimos, do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS ad) em Campina Grande. A história de dor e tristeza deste anônimo se reflete no rosto dos 'filhos do álcool'. São jovens, homens e mulheres, que precisaram construir novos rumos para a própria vida e se tornaram adultos ainda na infância por causa da doença de um dos pais.

A infância da recepcionista Andreza Nascimento, 22, foi manchada pelo alcoolismo do pai. Filha mais nova, Andreza viu a irmã fugir de casa aos 18 anos para conseguir estudar longe das agressões do homem que deveria protegê-la e incentivá-la. “A lembrança mais forte que tenho do meu pai é de vê-lo levar um tiro na perna, quando eu tinha 7 anos. Ele começou a beber quando ainda tinha 16 anos e desde sempre eu lembro que ele bebia demais e incomodava os nossos vizinhos. Aquele tiro me chocou no momento, mas a gente meio que já sabia que um dia ia acontecer. Minha irmã apanhava dele, porque ‘só queria saber de estudar’. Quando ela fez 18, fugiu de casa e foi morar em São Paulo para tentar concluir os estudos, que morando com a gente não conseguia. Ele nunca fez nada comigo, mas nem precisou. Eu via tudo”, conta.

Entre mágoas e lembranças ruins, Andreza pensa sobre como poderia ter sido a vida em família sem a doença do pai. “Minha mãe conseguiu viver com ele por 17 anos ainda, mas a gente sempre evitava levar alguma amiguinha nossa da escola. Ele não queria que ninguém entrasse lá, e até por vergonha mesmo que eu tinha dele eu preferia não levar. Não queria que as pessoas soubessem o que a gente vivia. Eu acho que o álcool tirou da gente a nossa boa convivência com ele. A gente mal saia de casa porque ele sempre descobria onde a gente estava e aparecia muito embriagado fazendo a gente passar vergonha, até depois de crescidos já. Aconteceu isso no meu chá de panela e no dia do meu casamento, dias importantes pra mim, mas que ele acabou aparecendo em um estado que eu não queria ver. A paternidade dele ficou manchada, mas eu aprendi a ter um amor imenso pelo meu pai Davi Soares, que na verdade é meu padrinho de batizado e cuidou de mim depois da separação dos meus pais”, disse.

Quem também perdeu o pai ainda na infância para a dependência do álcool foi a vendedora Laís Sousa, 29. Órfã de pai vivo, ela e mais oito irmãos viram o pai pedir demissão do emprego de motorista para não ter que pagar a pensão alimentícia que os filhos tinham direito. Há 24 anos, depois de o pai abandonar o barraco onde moravam em Santo André, ABC Paulista, Laís, sua mãe e parte dos irmãos vieram para o interior da Paraíba, morar em um pequeno sítio na cidade de Gurjão, Cariri do Estado, onde reconstruíram a vida.

“Eu tinha apenas quatro anos quando meu pai saiu de casa, por isso as lembranças são apenas uns ‘flashes’ na minha memória. Eu lembro que adoeci logo depois dele ir embora. Ele era motorista de ônibus, na época em 1994. Ganhava mais de cinco salários mínimos, fora o tíquete alimentação, que era a única coisa que minha mãe tinha acesso para alimentar a gente. Não víamos um real do dinheiro dele, que ele gastava com bebida e jogos. Ele não queria que minha mãe trabalhasse. Morávamos em um barraco de dois cômodos de madeira. Minha mãe o processou e ele pediu demissão para não pagar o que tínhamos direito. Foi quando minha mãe se revoltou com aquilo tudo e começou a procurar emprego escondida. Começou a andar por São Paulo, arrumou um emprego numa fábrica de costura mesmo sem experiência. Depois disso ele nos deixou e ela juntou dinheiro pra vir pra a Paraíba”, lembra.

Enquanto muitos nordestinos fizeram o caminho de ida para o Sudeste, Laís e os irmãos pegaram o caminho contrário e enfrentaram além de uma vida com poucas oportunidades, a seca. Eles vieram morar em um sítio, deixado como herança pelos avós paternos. A referência paterna é da mãe, uma entre tantas Marias que assumem todos os dias os ‘mil e um papeis’ na vida dos filhos.

Alcoolismo afastou a mãe

O engenheiro Pablo Vilarim, 25, também precisou crescer cedo. Ele é o mais velho entre três filhos de pais diferentes. A única ligação entre Pablo, o irmão de 22 e a irmã de 15 anos é a mãe, dependente do álcool antes mesmo dos filhos nascerem.

“As imagens que tenho dessa dependência é que eu e meus irmãos não éramos muito bem cuidados. A gente não tinha uma vida tranquila. Quando eu tinha 10 anos cada um de nós foi morar com um dos tios. Minha tia, que é quem considero minha mãe, conta que ela (a mãe) começou a beber logo depois de me ter. Pouco tempo depois ela conheceu um cara e começou a beber, talvez por influência dele. Quando penso na minha infância só consigo dizer que foi um período traumático”, disse.

Depois de morar com a tia, todos os filhos dessa mãe dependente perderam o contato e qualquer pequeno laço afetivo que ainda restava. “Hoje temos muito pouco contato com ela. Meu sentimento de mãe é mais para minha tia do que com ela. Até hoje ela bebe e não quer tratamento. Ela não aceita que precisa se tratar”, disse.

Dificuldade de tratamento

De acordo com a psicóloga clínica Laís Loureiro, o álcool é uma das drogas que demanda maior dificuldade de tratamento, pois o baixo custo de algumas bebidas as tornam acessíveis a pessoas de todo e qualquer poder aquisitivo. Ela enfatiza que a patologia, ou seja, o abuso do álcool, acontece por motivos variados, como desejo de fuga da realidade, forma de desinibição, entre outros.

Segundo Laís, as recaídas ocorrem porque a dependência química influencia o organismo a querer e necessitar cada vez mais da droga. Para o dependente, o ideal é focar no tratamento.

Sobriedade. Para quem sofre de alcoolismo, vivenciar um dia de cada vez longe da bebida é um desafio que se vive sozinho e, ao mesmo tempo, partilhando com outras pessoas que enfrentam o mesmo problema. É o que explica o representante do grupo de Alcoólicos Anônimos (AA) de Campina Grande, Santos. Hoje, faz 54 anos que o AA chegou à Paraíba.

Ele apontou ainda a necessidade da família também compreender que o parente está doente e apoiá-lo. Contudo, a busca pelo tratamento e para deixar o vício deve partir da pessoa que está doente.

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